Comportamento

A luta contra a deficiência

Movimento se fortalece para combater preconceito e conquistar vagas de trabalho pela capacidade, e não por causa da condição física

O paulista Renato Laurenti ficou tetraplégico aos 22 anos de idade, quando sofreu um acidente de carro. Durante 22 anos, sentiu na pele os avanços da sociedade brasileira no reconhecimento aos direitos das pessoas com deficiência. No começo, era mandado para o elevador de serviço e, nos restaurantes, recebido com espanto pelos garçons. ?Hoje, todos sorriem e nos pedem desculpas pela falta de acessibilidade para a cadeira de rodas?, comenta. Laurenti milita no Instituto Paradigma em prol da inclusão social e sonha com o que considera a maior de todas as conquistas: o dia em que pessoas como ele passarem a ser contratadas pelas empresas ?pela capacidade, não pela deficiência?. Esta deve ser, na sua opinião, junto com a acessibilidade, a grande bandeira do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, que será celebrado na quinta-feira 21. Laurenti percorre o País para convencer os departamentos de recursos humanos a cumprirem a Lei nº 8.213/91, que estabelece cotas mínimas para a contratação de pessoas com deficiência. A grande aspiração é que elas deixem de ser feitas para funções estereotipadas ? como o surdo trabalhar em lugares barulhentos, cegos em locais escuros ou paraplégicos em digitação ? e levem em conta as habilidades de cada um. ?A cadeira de rodas é só uma característica minha, mas tenho outras mais importantes?, diz. O advogado Geraldo Nogueira tem uma história de vida semelhante. Sofreu um acidente há 16 anos e ficou paraplégico. Hoje, aos 48 anos, é diretor jurídico do Centro de Vida Independente (CVI), no Rio de Janeiro. Nogueira reconhece que houve um aumento grande na consciência social, mas identifica no preconceito o maior obstáculo à superação das diferenças. Laurenti e Nogueira ressaltam a rara presença de pessoas com deficiência em altos cargos nas corporações como sinal de que faltam oportunidades iguais. ?Não conheço ninguém em cargo de alta hierarquia, com exceção dos que passaram em concurso, se elegeram nas urnas ou são donos de empresas. Ou seja, nunca por promoção ou nomeação?, destaca Nogueira. Ambos também apontam como exemplo típico de preconceito o primeiro relatório feito pela deputada (PPS-RJ) e juíza aposentada Denise Frossard para o projeto de lei 5.448/01, que torna crime a discriminação contra portadores de doenças. No parecer, em setembro de 2004, Frossard usou expressões que causaram revolta e vêm provocando estragos em sua campanha nas eleições para o governo do Rio. Não sem razão: ?A deformidade física fere o senso estético do ser humano. A exposição em público de chagas e aleijões produz asco no espírito dos outros, uma rejeição natural ao que é disforme e repugnante, ainda que o suporte seja uma criatura humana?, diz o texto. E mais: ?a repulsa à doença é instintiva no ser humano. Poucas pessoas sentem prazer em apertar a mão de uma pessoa portadora de lepra ou Aids?, completou Frossard. Posteriormente, aproveitando a junção do projeto a outro apresentado pela senadora Seres Slhessarenko (PT-MT), Denise cedeu às pressões e fez um relatório favorável à aprovação, em fevereiro. Ela pediu desculpas pelo teor do primeiro documento, mas os termos fortes usados têm sido explorados pelos adversários. No novo parecer, em que defende a aprovação do projeto, Denise diz que refletiu mais por causa do ?rico e democrático debate sobre a matéria?, como anunciou. ?O caminho para chegar aqui foi espinhoso e me fez aprender um pouco mais sobre as dificuldades que a ausência quase completa do Estado acarreta na vida de pessoas com deficiência e portadoras de doenças graves?, prossegue o parecer, concluindo pelo acréscimo das pessoas com deficiência entre as vítimas de preconceito passível de prisão de um a três anos. Procurada por ISTOÉ, Denise se defendeu. ?Não tenho nada a esconder. Tudo foi esclarecido.?