Brasil

As lições da Índia

Lula deveria aprender com o colega indiano Manmohan Singh, que em visita ao Brasil esbanjou exemplos: 8% de crescimento ao ano, leis favoráveis à exportação, e investimento em tecnologia e educação


O primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, em visita oficial ao Brasil, trouxe uma bela bagagem para mostrar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje, a Índia tem um crescimento anual de 8% (com projeção de 9% para o ano que vem) e um PIB de US$ 120 bilhões. O premiê que esteve com Lula em Brasília na quarta-feira 13 veio demonstrar que agora a bola está com o elefante, um dos símbolos da Índia, forte e viril, capaz de carregar muito peso até chegar a seu objetivo. “Admiro a posição do presidente Lula em relação à responsabilidade fiscal. Mas isso não significa que não haja espaço para reorientar o sistema tributário, os gastos para focar nas classes mais esquecidas”, afirmou o premiê Singh. É assim que caminha a Índia. “Se a economia continuar a crescer de 8% a 9% ao ano, vamos gerar mais recursos para suportar programas de educação, de saúde e de desenvolvimento rural sem sacrificar a responsabilidade fiscal”, acrescentou o premiê.

Índia e Brasil são países em desenvolvimento com vários pontos em comum: grandes democracias, com vasta extensão territorial e populações jovens. Na Índia, país que com seu um bilhão de habitantes tem a segunda maior população do mundo, há uma imensa massa de jovens que fornecem mão-de-obra barata. É essa juventude que se especializa em boas universidades e garante a expansão de áreas fundamentais na economia, como a tecnologia de informação, setor em que os brasileiros apenas engatinham.

O premiê Singh, como muitos de sua geração, estudou em Oxford e Cambridge. Hoje, o governo investe em universidades e cursos de especialização. Na cidade de Mangalore, por exemplo, até há duas décadas havia apenas uma faculdade de medicina. Hoje, são mais de 300 universidades e cursos técnicos na mesma cidade. Mas, antes de investir em educação, a Índia teve de passar por profundas reformas econômicas. Foi o próprio Singh que, como ministro das Finanças entre 1991 e 1996, realizou as reformas necessárias para abrir e liberalizar a economia. O teto para impostos alfandegários, em uma medida central, foi reduzido para 20% para todos os produtos, com exceção dos agrícolas e laticínios. O licenciamento industrial foi retirado de quase todos os serviços. Os congressistas indianos simplificaram os procedimentos de exportação.

A Índia garante a maior parte de seu PIB com a exportação de serviços e de software de informática. Quase um milhão de indianos estão empregados no setor de tecnologia de informação. O governo indiano e as empresas de informática investem pesado em seus profissionais. O salário anual de um engenheiro dessa área saltou de US$ 6 mil em 2004 para US$ 7 mil em 2005. A competição com vizinhos gigantes como a China pressionou o governo indiano para que acelerasse esse processo.

Os indianos, por sua vez, importam US$ 40 bilhões por ano em combustíveis e estão sedentos para saber como o Brasil desenvolveu a tecnologia dos biocombustíveis. Para os indianos, o biodiesel é mais viável diante da estrutura fundiária de seu país. Plantar mamona na Índia é uma alternativa considerável. Nova Délhi irá investir em joint venture com a Petrobras US$ 500 milhões na exploração de petróleo na costa brasileira. E a Petrobras, em parceria com os indianos, vai pesquisar petróleo em águas profundas na Índia. O Brasil ainda está interessado nas energias solar e eólica dos indianos.

Entre todos os denominadores comuns entre Índia e Brasil, um se sobressai. E é negativo. Ambos os países até hoje não conseguiram reduzir seus abismos sociais entre ricos e pobres. Um desafio para Singh e seu companheiro Lula.