Brasil

Destino ou maldição?

O coronel que ordenou o massacre do Carandiru, em que 111 presos morreram, se livrou da ira do PCC, mas encontrou a morte na conjugação de amor e ciúme

Aos 63 anos, o coronel Ubiratan Guimarães tinha o que todo homem de sua idade almeja: poder, dinheiro e lindas mulheres. Apaixonado por armas e cavalos, era o clássico político conservador. Odiado por muitos, quase na mesma proporção que amado, o deputado estadual pelo PTB paulista ganhou fama depois de comandar a tropa que invadiu o presídio do Carandiru, em São Paulo, onde 111 presos foram assassinados em 1992. O massacre virou livro, filme e rendeu ao coronel Ubiratan, além de um mandato parlamentar, um título que ele morreu tentando rasgar: o de maior assassino da história do Brasil, depois de ter sido condenado a 632 anos de prisão. Alvo nº 1 do PCC e líder da campanha pelo porte de armas, sua morte é uma dessas ironias do destino. Ubiratan caiu morto, no sábado 9, com apenas um tiro disparado de seu próprio revólver e supostamente, como suspeita a polícia, pelas mãos de uma das mulheres que amou.

As pessoas mais próximas ao coronel Ubiratan lembram que ele, longe de temas como direitos humanos, era um homem divertido, sedutor, um bon vivant. O cenário encontrado pela perícia em sua casa, depois do crime, não desmente os amigos. Cascas de maracujá foram deixadas junto a uma garrafa vazia de vodca no lixo da cozinha. Copos com o coquetel estavam espalhados pela casa e uma toalha de banho, com sêmen, estava enrolada em sua cintura. Porém, os prazeres mundanos do coronel foram interrompidos por volta das oito horas daquela noite, quando uma bala disparada de cima para baixo perfurou seu abdômen, atingiu uma artéria e provocou sua morte. O assassinato é mais um daqueles rumorosos casos de polícia envolvendo sexo, poder e ciúme. Ingredientes explosivos que, ao final das investigações, ganham o rótulo de crime passional.

A polícia paulista trabalha com a tese de que a morte de Ubiratan foi fruto de
uma crise desesperada de ciúme. A suspeita do crime: uma das duas namoradas do coronel. O plural neste caso é resultado do sucesso que ele tinha junto às mulheres. As características do crime – ausência de sinal de arrombamento, falta de resistência da vítima, posição do corpo e o sumiço da arma – respaldam a suspeita da polícia de ser Carla Prinzivalli Cepollina, 40 anos, uma das namoradas de Ubiratan, a algoz do todo-poderoso coronel. Considerada “pule de dez” na bolsa de aposta dos investigadores, a pergunta é: Por que Carla seria a assassina? Bonita, rica, formada em direito e administração de empresas, com pós-graduação na Itália, Carla ainda era “funcionária” do gabinete do próprio deputado-coronel, que tentava a reeleição pelo PTB de São Paulo. Ela, em tese, estaria acima de qualquer suspeita. No entanto, o doentio ciúme que nutria pelo coronel pode tê-la traído. “Ele não agüentava mais as crises possessivas dela”, afirmou a ISTOÉ Eduardo Anastazi, assessor e confidente do coronel. Segundo Eduardo, o patrulhamento que Carla exercia sobre Ubiratan levou o casal a várias idas e vindas no relacionamento. “Ele queria pôr um ponto final na história e ela não aceitava”, lembra o assessor. O comportamento de Carla, como descobriram os investigadores, incomodava as pessoas próximas a Ubiratan. Os filhos do coronel tratam a namorada do pai pelo jocoso apelido de “marla”, “uma mistura de Carla com mala”, traduz um amigo. Ana Prudente, a melhor amiga do coronel, conta que a paranóia de Carla era tanta que ela chegava ao absurdo de fazer uma varredura no celular do militar e ligar de volta para os números registrados a fim de saber com quem ele se comunicava. “Ela ligou várias vezes para mim para saber o que eu tratava com o Ubiratan”, conta Ana.

Foi por causa dessa louca obsessão de Carla que os policiais chegaram a uma
das provas que apontam ser ela a autora do crime. Segundo a polícia, às 18h54
de sábado Carla enviou um torpedo do celular do coronel para Renata, uma mulher que ela desconfiava manter um affair com Ubiratan. A mensagem serviria de isca para confirmar se realmente o coronel estava flertando com a outra. Bingo. Em
11 minutos, Renata retornou a ligação, que foi atendida por Carla. Furiosa, ela repassou o celular ao coronel. Ubiratan, conforme depoimento de Renata, lhe disse que não havia mandado mensagem alguma e que ligaria de volta depois de verificar o que havia ocorrido. Não deu tempo. Quase duas horas depois, uma vez que o celular do coronel não atendia, Renata tentou o telefone fixo da casa de Ubiratan. “Não dá para falar com ele porque estamos no meio de uma discussão”, teria respondido Carla à rival.

Renata Santos Madi é uma paulista de 25 anos que há três meses vive no Pará. Delegada da Polícia Federal recém-aprovada em concurso, Renatinha – como é tratada pelos amigos e familiares do coronel – é amiga de Ubiratan há seis anos, quando se conheceram no Clube de Tiro Iron, na capital paulista. “A paixão por tiros aproximou os dois”, conta um amigo da Assembléia Legislativa, que resolveu expor as confidências do coronel, até então guardadas em sigilo. Ele lembra que o casal, apesar da diferença de idade, selou sua união há três meses em Brasília, quando Ubiratan participou de uma homenagem prestada a outra de suas namoradas num concurso de tiros. “O Ubiratan, realmente, relacionava-se com a Renata”, confirma Vicente Cascione, deputado federal e advogado do coronel. Há quem diga que ele tinha nove casos simultâneos. A mesma fonte afirma que ele era um contumaz usuário das chamadas pílulas do amor, como o Viagra e o Cialis. Estimulantes à parte, o certo é que a polícia já tem certeza de que foi Renata o pivô do assassinato.

“Você desertou?”, a pergunta é uma mensagem deixada por Carla no celular
de Ubiratan. O torpedo era um dos 50 que a polícia técnica paulista identificou armazenados no telefone do coronel. “Minha filha costumava brincar assim com
ele quando ele sumia”, defende Liliane Prinzivalli, advogada e mãe de Carla,
que não gostava do relacionamento dos dois por causa da diferença de idade e também criticava o fato de Ubiratan ser um alvo de desafetos depois do Carandiru. Ubiratan usava os torpedos para acionar suas namoradas. “Oi, menina, onde está você? Um beijo, te amo. Estou com saudades”, escreveu ele, dessa vez para Renata. Uma das fontes de ISTOÉ que tiveram acesso às mensagens é categórica em afirmar: “As mensagens para Carla tinham um tom mais seco; já para Renata era coisa de gente apaixonada.”

Para o delegado do Departamento de Homicídios e Proteção à Vida (DHPP), Armando de Oliveira, a hipótese do crime passional ganha força porque Carla foi a última pessoa a estar com Ubiratan e, naquele dia, estava sob violenta emoção ao descobrir que havia uma outra entre ela e o coronel. Os funcionários do comitê eleitoral de Ubiratan concordam com a tese. Na tarde do crime, enquanto o deputado se reunia com seus assessores, Carla puxou para o fundo do terreno, próximo à churrasqueira, uma das funcionárias e pediu para que ela contasse tudo sobre a vida do chefe. “Quem está saindo com meu namorado? Quem está dando em cima dele? Anda, conta!” A funcionária do comitê, que não quis ser identificada, reproduziu esse diálogo à polícia.

A placa da sala 3011, da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, na
quarta-feira 13, ainda sinalizava que o gabinete pertencia ao parlamentar assassinado. Atrás da porta, dois ternos nunca usados e duas caixas de papéis ainda aguardavam remoção. Na terceira gaveta do lado direito, seis gravatas intactas esquecidas viraram recordação para um assessor. A revolta dos funcionários ainda foi maior depois que Carla entregou à polícia uma lista com os nomes de vários deles como potenciais assassinos do deputado Ubiratan. Carla deixou também para o delegado as notas fiscais de dois pares de sapatos – que Ubiratan mandou comprar para a campanha – e das trocas da fechadura do apartamento dele, onde guardava um verdadeiro arsenal. Cinco revólveres 38, uma pistola calibre 765 e uma espingarda calibre 12.

Para o diretor do IML, Hideac Kawata, passional ou não, quem atirou não tinha a intenção de matar Ubiratan. “Tiro na barriga não mata ninguém. Nesse caso, a vítima teve azar”, disse. A sorte também faltou aos presos assassinados no Carandiru, alvejados por 515 tiros durante a ação comandada por Ubiratan. Agora, com a morte do coronel, não haverá responsável pelo massacre. Carandiru, literalmente, vira arquivo morto.