Cultura

Retratos de Diamantina

Ao registrar os costumes e trajes dos habitantes da cidade mineira no início do século XX, Chichico Alkmim foi um dos pioneiros em fazer da fotografia um documento de época


Apelidado carinhosamente de Chichico, o mineiro Francisco Alkmim foi um dos pioneiros no Brasil em dois aspectos da fotografia – abriu-lhe o caminho histórico e sociológico de servir como documentação de época e deu-lhe, através de criatividade e arrojo, o status de arte. Chichico nasceu em 1886 e morreu em 1978, poucas glórias recebeu em vida e menos ainda após a morte. É principalmente por esses motivos que cresce em importância o livro que agora o homenageia – e, mais que festejar o homem, a obra é o reconhecimento de seu trabalho. Chama-se O olhar eterno de Chichico Alkmim, e esse será também o nome da exposição, ainda em fase de organização, que exibirá as fotos que agora são publicadas. Os primeiros registros são de 1907. Ao todo, estão reunidas no livro 70 fotografias em preto-e-branco revelando o estilo elegante e bizarro da sociedade brasileira do início do século passado.

Os bigodes, as imponentes orquestras, as freiras, as crianças, os comoventes funerais de crianças – esses são alguns dos retratos a mostrar maneirismos e tradições. A cidade mineira de Diamantina, na qual Chichico vivia, também está retratada com suas paisagens urbanas e sua população. Ele foi um dos precursores do que chamamos nos dias de hoje de diretor de arte: montava o cenário com elementos, como vasos ou móveis, e fazia as marcações das poses. “Chichico produzia o cenário numa época em que não havia referências sobre isso”, diz Flander de Sousa, um dos organizadores do livro.

Numa dessas montagens, ele reuniu dez homens de terno e chapéu num jardim. Três foram posicionados no chão, lendo jornais. Os outros alternam movimentos. Isso reproduz uma realidade? Não. Mas destaca um tempo em que a vida seguia mais calma, os encontros descontraídos entre as pessoas eram freqüentes e a vestimenta, pomposa. “Ele usava a inspiração para dar vida às fotografias, e não podia se equivocar”, diz Sousa. “Não era como é hoje, que a gente tira quantas fotos quiser na câmera digital até chegar à imagem desejada.” Como não existia a ampliação, as fotos eram feitas já em grande formato e Chichico as retocava direto no negativo. Chichico fez da foto, arte. E provou que para ser artista é preciso ser também um operário da técnica.