Tecnologia & Meio ambiente

O universo fica mais nítido

O espaço nunca foi tão estudado. Há 64 missões vasculhando o universo e que já permitem ao homem prever a construção da primeira base científica fora da Terra

Ainda não era manhã quando o universo despertou há 13,7 bilhões de anos: havia uma névoa opaca que mantinha as galáxias na escuridão. De repente, essa nuvem, formada de partículas de hidrogênio instável, se aqueceu e provocou uma explosão gigantesca, deixando os astros expostos aos raios do Sol. Detectar a primeira alvorada do universo, ainda turvo pelo pouco de névoa que insistia em nublá-lo, não é mais, no entanto, um grande problema para quem mergulha no espaço. E não foi obstáculo para as três equipes de astrônomos dos EUA, da Europa e do Japão que recentemente gravaram imagens de galáxias formadas entre 200 milhões e 700 milhões de anos após o Big Bang – a tal explosão que deu origem às estrelas, planetas e galáxias na forma como os conhecemos hoje.

Essas imagens são um feito inédito e, cada vez mais rapidamente, a história do espaço ganha novos capítulos com os avanços tecnológicos. No início deste ano, a Nasa lançou a sonda New Horizon que chegará a Plutão (rebaixado à categoria de asteróide), fechando assim um ciclo de exploração de planetas e satélites do Sistema Solar. Também é lá que se encontra o HAT-P-1, hermética sigla para um objeto incandescente detectado em meados deste mês e que, se aceito pela União Internacional dos Astrônomos, será o maior planeta do Sistema Solar. Há uma semana, um novo estudo sobre o comportamento dos únicos pulsares conhecidos (estrelas feitas de nêutrons que emitem ondas de rádio pelo espaço) permitiu comprovar a Teoria Geral da Relatividade, construída pelo físico alemão Albert Einstein (1879-1955).

Existem atualmente 64 missões não tripuladas vasculhando o espaço, mais que o dobro do registrado nas últimas quatro décadas. “Nunca se pesquisou tanto o universo”, diz Daniela Lazzaro, astrofísica do Observatório Nacional do Rio de Janeiro. Os telescópios atuais também são mais potentes que seus antecessores. Aparelhos em terra como o Spitzer, no Reino Unido, e o Keck, no Havaí, ou aqueles que orbitam no espaço, como o Hubble e o Chandra, acertaram o foco dos cientistas que, pela primeira vez na história da humanidade, conseguem enxergar o espaço com maior definição. “Antigamente víamos tudo embaçado”, diz o astrônomo Ronaldo Rogério Mourão, também do Observatório Nacional.

A Nasa acaba de anunciar a inauguração de uma nova classe de telescópios espaciais. Em 2011, o James Webb será lançado ao espaço com a missão de atingir pontos que as lentes e sensores do Hubble, a maior vedete do momento, jamais alcançarão: ele poderá captar feixes de raios infravermelhos que os cientistas, curiosamente, chamam de “luz invisível”. “É a mais revolucionária e impensável mudança tecnológica”, diz o astrônomo inglês Richard Ellis, do California Institute of Technology (Caltech).

Outra inovação virá do Mileua Widefield Array, telescópio em construção na Austrália que captará ondas de rádio emitidas do espaço. Por que observatórios como esses representam um salto gigantesco? Porque grande parte dos astros que participaram do nascimento do universo não emitem luz, mas feixes de raios infravermelhos, ultravioletas e até ondas de rádio. São eles que, agora, começam a ser captados. Centros de observação do porte do Sloan Digital Sky Survey, nos EUA, foram adaptados para detectar esses sinais não luminosos.

Não é apenas a mera curiosidade científica que move os países no esquadrinhamento do cosmos – há o interesse econômico. No ano passado, os dez países que mais investiram em pesquisas espaciais aplicaram US$ 40 bilhões. Segundo o Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES), seus ganhos passaram dos US$ 50 bilhões. Os EUA destinaram US$ 26 bilhões e tiveram um retorno de US$ 34 bilhões, principalmente devido aos lançamentos de satélites de comunicação. Essas cifras não levam em conta os produtos e serviços gerados a partir das tecnologias espaciais e que esquentam o faturamento da indústria mundial.

Há ainda um mercado mais promissor pela frente. O governo americano anunciou que até 2010 será enviada à Lua uma nova missão tripulada com o objetivo não apenas de fincar a bandeira americana em solo lunar, mas, isso sim, iniciar a construção de uma estação permanente de pesquisa. A Lua passará, então, a funcionar como ponto de lançamento de expedições para Marte, a partir de 2020. Também novas espaçonaves estão sendo construídas, embora aumentem os protestos dos americanos, que consideram as missões tripuladas desnecessárias diante do sucesso de robôs e sondas espaciais que há décadas vasculham os planetas e até outros sistemas além do Sistema Solar.

A importância da presença humana, no entanto, é tão vital quanto a dos robôs.
Em Marte, por exemplo, a sonda européia Mars Express detectou a presença de
um mar congelado (sinal de água e de vida) e o mesmo ocorreu em uma lua de Saturno com a sonda Cassini. Também a Lua é outra fonte de recursos naturais
que poderiam suprir demandas terráqueas. Em entrevista a ISTOÉ, o cosmonauta Anatoly Berezevoy, recordista de permanência no espaço, disse que o solo
lunar poderá oferecer, por exemplo, o hélio-3, um combustível a ser usado em
usinas termelétricas para a geração de energia elétrica: “É uma excelente oportunidade de negócios.”

Não é à toa que o presidente americano George W. Bush quer enviar uma
missão tripulada à Lua e que a China entrou no jogo anunciando a sua intenção
de concorrer com os EUA. A disputa não é só de robôs, é de gente que precisa
do espaço com olhos na sobrevivência da Terra. E, nessa disputa, o universo se torna cada vez mais familiar.