Comportamento

O mundo em uma moto

Estudo analisa a máquina como símbolo das transformações da sociedade

Desde que Marlon Brando surgiu no cinema com um visual rebelde sobre uma Triumph Thunderbird, para estrelar o filme O selvagem (1954), a imagem da motocicleta nunca mais foi a mesma. Criada no final do século XIX, ela era vista inicialmente como um desconfortável meio de transporte. Com o sucesso de Brando nas telas, transformou-se em ícone rebelde. Agora, adquire um status artístico cada vez menos ligado ao objetivo original. Há motos que não são boas opções para carregar uma pessoa, mas que provocam admiração por se parecerem com peças de arte. “Existem modelos que estão mais para esculturas, sem nenhum parafuso aparente”, observa Fábio Pligher, professor de design da Faculdade Senac, em São Paulo. Ele é autor de um trabalho recém-defendido na Universidade de Campinas (Unicamp) que analisa o veículo como fenü”eno cultural.

Para Pligher, é possível recontar a história da humanidade pela impressão que a moto causava na sociedade. Ele explica que o vínculo da moto com a transgressão surgiu numa cidade da Califórnia, em 1947, quando três mil motociclistas marcaram um encontro na pacata Hollister. Interessado em escândalo, um jornal montou uma cena com um sujeito sobre uma moto rodeada de garrafas vazias. Nasceu assim o mito. Hoje, Pligher acredita que o culto à moto tem duas bases. “Ela representa o desejo de ser um cavaleiro solitário. Também é um modo de sentir a vida. Modelos velozes permitem isso: você se sente vivo ao desafiar a morte.” Ele cita a Kawasaki ZX 14, que atinge mais de 300 km, como símbolo disso.

Além desses aspectos, a motocicleta se destaca pela estética. Há 60 anos, surgiu a Vespa, a máquina italiana que atende à necessidade de locomoção fácil e à busca por beleza nas formas. Nos dias atuais, a tendência é customizar as motos. Ou seja, dar um ar exclusivo à máquina, que pode ter desde o design arrojado dos alemães ao estilo inspirado nos anos 50 e 60. Forte nos Estados Unidos, a mania está conquistando mais adeptos no Brasil. “A carteira de clientes cresceu 30% este ano”, diz o mecânico Chrys Miranda, que também fabrica motos exclusivas desde 2002. Para customizar um veículo pronto o preço chega a R$ 15 mil. Já construir uma motocicleta com 90% de peças próprias e 10% de produtos da grife Harley Davidson exige, em média, R$ 60 mil. Mas os valores não têm espantado ninguém. Miranda já fez 18 veículos este ano e quatro estão em processo de fabricação. Os donos aguardam ansiosamente por suas belas encomendas.