Brasil

Por dentro da reportagem

Os bastidores da entrevista dada pelos Vedoin acusando Serra e Barjas Negri de envolvimento com a máfia das ambulâncias


No feriado de sete de setembro, recebi na redação de ISTOÉ um cidadão que se identificou apenas pelo primeiro nome – Hamilton –, como costumam fazer diversas pessoas interessadas em passar informações a jornalistas e se manter no anonimato. Calmo, Hamilton informou que os empresários Darci e Luiz Antônio Vedoin, os donos da Planam, entregariam novos documentos à Justiça capazes de comprovar a participação dos ex-ministros da Saúde José Serra e Barjas Negri com o esquema dos sanguessugas. Afirmou que eram documentos bancários, mas não sabia precisar exatamente quais e disse que tanto Darci como Luiz Antônio estariam dispostos a conceder uma entrevista. Tratava-se, claro, de um fato jornalístico importante que merecia ser melhor investigado, pois desde que o escândalo das ambulâncias foi flagrado pela Polícia Federal os depoimentos dos Vedoin têm norteado as investigações. Chamei outros três jornalistas para participar da conversa e concluímos que a Revista teria, sim, interesse em entrevistar os chefes do esquema sanguessuga. Alertamos, porém, que ISTOÉ somente publicaria o que pudesse ser comprovado com documentos, pois, como ambos vinham entregando parlamentares a conta-gotas, não poderíamos nos ater unicamente às suas declarações. Hamilton disse que falaria com os Vedoin e faria novo contato com a Revista. Em nenhum momento da conversa tida na redação foi feita “negociação” ou qualquer tipo de “acordo”. Houve, na verdade, uma condição imposta pela Revista: a de que teríamos acesso aos documentos entregues à Justiça.

Hamilton só voltou a fazer contato na manhã da terça-feira 12, por telefone.
Informou que os Vedoin haviam concordado em nos mostrar os documentos que seriam entregues à Justiça e que dariam a entrevista em Cuiabá (MT). Eles estavam em uma fazenda perto da capital do Estado. Perguntei o endereço e Hamilton respondeu dizendo que chegando a Mato Grosso eu deveria fazer contato com um certo Oswaldo ou um certo Expedito, e forneceu o número do telefone de cada um deles. No mesmo dia, eu e o editor de fotografia de ISTOÉ, Biô Barreira, embarcamos para Cuiabá no vôo JJ 3780, da TAM. Com o atraso para decolar de Congonhas, desembarcamos na capital mato-grossense pouco antes de meia-noite (horário local). De táxi, fomos ao Hotel Paiaguás, onde tínhamos reservas feitas pela Revista. Da própria recepção do hotel liguei para o celular do tal Oswaldo. O propósito era o de fazer uma rápida conversa ainda naquela noite, pois planejava entrevistar os Vedoin logo pela manhã seguinte. Oswaldo e Expedito estavam hospedados no mesmo hotel. Conversamos por cerca de cinco minutos no hall de entrada do hotel. Ficou combinado que por volta das oito horas da quarta-feira 13 o advogado dos Vedoin, Otto Medeiros, entraria em contato conosco para passar o horário e o endereço de onde seria feita a entrevista.

Até as 10 horas da quarta-feira nenhum contato foi feito. Liguei, então, para o
celular de Oswaldo e ele informou que os empresários só nos receberiam após
a entrega dos documentos à Justiça, pois temiam que se a entrevista fosse feita antes poderiam ser prejudicados nos benefícios obtidos pela delação premiada.
Por volta das 13 horas, estávamos almoçando no próprio hotel quando o advogado Otto telefonou informando o endereço de onde iríamos nos encontrar com os
Vedoin. Pegamos um táxi e nos dirigimos para a rua Haiti, em um bairro de classe média não muito distante do hotel. Em um sobrado confortável, fomos recebidos
pelo advogado Otto. Ele nos apresentou aos Vedoin e logo chegaram Oswaldo e Expedito. Antes de iniciar a entrevista, o advogado mostrou preocupação. Disse
que temia que as declarações de seus clientes pudessem ser deturpadas. Sugeri que não apenas a Revista, mas que ele próprio também gravasse a entrevista.
Em seguida, pedi para ver os documentos que os empresários estavam encaminhando para a Justiça. Me colocaram, então, diante de um punhado de cheques e de extratos bancários indicando depósitos feitos pelas empresas do grupo Planam, além de uma relação de recursos liberados pelo Ministério da Saúde para a compra de ambulâncias. Luiz Antônio, mais calmo, e Darci, visivelmente tenso, explicaram o significado de cada um daqueles documentos. Essa conversa preliminar durou cerca de uma hora. Foi feita em um escritório no andar térreo do sobrado. Na área externa, outras duas pessoas que não me foram apresentadas conversavam ao lado de uma churrasqueira.

Depois de verificar os documentos e de ouvir um breve relato sobre eles, liguei para a redação de ISTOÉ em São Paulo e informei sobre o material que tinha em mãos e avisei que naquele momento começaria a gravar a entrevista. Um procedimento rotineiro em qualquer redação para que o pessoal que está trabalhando na edição possa dimensionar o tamanho que será dado à reportagem. Em seguida, por sugestão do advogado Otto, passamos a ocupar uma sala mais ampla no pavimento superior do sobrado. Luiz Antônio estava apressado. Queria começar logo a gravar a entrevista. Darci, nervoso, mostrava estar indeciso. Os dois deixaram a sala e voltaram cerca de dez minutos depois. Liguei o gravador e começamos a entrevista, publicada na última edição de ISTOÉ. Em determinado momento, Darci fez sinal para que eu desligasse o gravador. Desliguei. Ele vacilava, parecia preocupado e por cerca de cinco minutos deixou a sala na companhia do advogado. Oswaldo e Expedito permaneciam calados. Apenas acompanhavam a entrevista. Darci voltou e encerramos a entrevista com os Vedoin. O advogado pediu para ouvir a gravação, o que permiti, e ele assegurou aos empresários que tudo estava correto, que não haveria por que eles serem prejudicados. Nesse momento, recebi uma ligação da redação da Revista em São Paulo. Saí da sala para atender. Quando retornei, Darci estava mais nervoso. Sem jeito, disse que havia retirado a fita do gravador. “Você fez seu trabalho corretamente, mas há gente insistindo em outras coisas”, disse. Quis saber do que se tratava e Expedito informou que queriam que os Vedoin entregassem fotos de Serra. Perguntei que fotos e Darci explicou tratar-se de um evento onde o ex-ministro entregava ambulâncias ao lado de sanguessugas. Disse que isso não me interessava, pois nada via de relevante. Darci devolveu a fita e saiu da sala junto com Luiz Antônio para colocar um terno e posar para fotografias.

Terminada a entrevista, voltamos para o hotel. Durante a noite, escrevi a reportagem despachada por e-mail na manhã seguinte para a redação de ISTOÉ em São Paulo. Antes de fazer o último telefonema para a Revista, liguei do hotel para o procurador Mario Lúcio Avelar com o propósito de checar se os documentos apresentados pelos Vedoin de fato haviam sido entregues. Com a confirmação, liberamos a reportagem. Às 17 horas da quinta-feira 14, depois de ficar na lista de espera, embarcamos no vôo JJ 3898 da TAM com destino a Brasília, onde fizemos a conexão com o vôo JJ 3563 para São Paulo. No saguão de embarque, nos encontramos com Expedito e Oswaldo. Estavam angustiados porque os Vedoin não haviam entregue as fotos. Só durante a semana passada é que soube, pelos jornais, os nomes completos de Oswaldo, Expedito e Hamilton. Esse é o relato de como foi feita a reportagem publicada na última edição de ISTOÉ. Nunca nos foi oferecido o fajuto dossiê que petistas trapalhões tentaram comprar dos Vedoin. A Revista não participou de nenhuma “negociação” para obter ou publicar a entrevista concedida e continuamos a investigar as denúncias feitas pelos chefes dos sanguessugas.