Brasil

A arma popular de Lula

Dono do voto dos pobres e líder nas pesquisas, o presidente tem uma crise a superar antes de chegar às urnas. Ele ganhará no primeiro turno?


Luiz Inácio Lula da Silva, hoje presidente da República e candidato à reeleição com mais de 50% das intenções de votos nas pesquisas, viveu a semana passada entre dois mundos diferentes. Em Nova York, onde esteve na terça-feira 19, viveu mais um momento de grande estrela internacional, ao abrir a seção anual da Assembléia Geral da ONU e receber o prêmio de Estadista do Ano de 2006, concedido pela Appeal of Conscience Foundation (Fundação Apelo da Consciência). No dia seguinte, no Brasil, teve de administrar uma nova crise política em suas barbas – a descoberta de que petistas próximos ao presidente tentaram comprar um dossiê contra o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra.

Há mais de um ano que é essa a rotina de Lula – brilhar para o grande público como presidente e administrar crises em seu governo e no PT. O desempenho na primeira parte de seu papel é fulgurante. Lula tem mais de 60% de aprovação. É o presidente mais popular da história, mais que Getúlio ou Juscelino, mais que Fernando Henrique nos áureos tempos do Plano Real. Como administrador de crise, veremos em 1º de outubro se ele se sairá bem.

“Eu perdi três eleições porque o povo pobre tinha medo de mim, não acreditava em um igual a ele”, disse Lula a um grupo de jornalistas numa viagem pelo Nordeste, na véspera de sua viagem a Nova York. “E agora estou ganhando porque o povo descobriu que um igual pode fazer por ele o que um diferente não conseguiu.” A questão que se faz presente é tentar entender quem é, afinal, Luiz Inácio Lula da Silva. Por se tratar do personagem brasileiro mais exposto de todos os tempos, é imensa a familiaridade de sua imagem junto aos brasileiros. Desde que se submeteu ao voto pela primeira vez, em 1982, o eleitorado já foi obrigado a se posicionar com relação a ele seis vezes. Esta é a sétima. Uma de suas verdades é que Lula é proprietário de uma carreira rara, excepcional.

“Leninista? Sou torneiro mecânico”

Nascido num sítio de dez hectares, Lula tinha seis anos quando sua mãe, Eurídice, tomou os seis filhos pelas mãos (teve oito, mas dois haviam morrido de desnutrição) e subiu num pau-de-arara rumo a Santos, São Paulo, carregando uma trouxa com farinha, queixo e rapadura. Foi atrás do marido, Aristides, que já tentava a vida como estivador do cais do porto e, sem que a mulher soubesse, já havia constituído nova família. “Quando olho a minha própria vida de retirante nordestino, de menino que vendia amendoim e laranja no cais de Santos, que se tornou torneiro mecânico e líder sindical, que um dia fundou o PT e acreditou no que estava fazendo, vejo que podemos muito mais”, disse certa vez. Hoje apreciador de cigarrilhas holandesas, charutos cubanos e uísque escocês, Lula continua sendo um típico homem do povo. Antes de ser presidente, dividia com a mulher, Marisa Letícia, as tarefas domésticas. Nunca arrumou a cama, mas aceitava lavar a louça, o chão da casa e o cachorro. Adora possuir bichos domésticos. Em São Bernardo, cultivou um minizôo, com porquinhos-da-índia, canários, cachorro e galinhas. Para Brasília, só levou seu xodó, a cadela Michele. Ele e Marisa preferem a Granja do Torto ao Palácio da Alvorada. Mas se adaptaram bem à vida palaciana depois que mandaram fazer algumas adaptações – ampliar a churrasqueira, plantar uma horta, pendurar vasos de plantas nas colunas e instalar um fogão de lenha.

Lula tinha uns 14 anos e morava no bairro do Ipiranga, São Paulo, quando disse a uma de suas cunhadas que um dia seria famoso em todo o Brasil. Não pensava em política, mas sim em futebol, o caminho mais curto e menos acidentado para os sonhos de um adolescente pobre. Foi zagueiro do Náutico, um time de várzea, e recebia chuteiras e camisetas dos candidatos fisiológicos a vereador. Tinha 26 anos em 1971 quando pela primeira vez leu um texto político, a brochura “O que é a Constituição”, editada pelo Partido Comunista Brasileiro, o PCB. Já havia perdido o dedo na prensa mecânica quando foi recrutado para o sindicalismo por seu irmão mais velho e mentor, José Ferreira, o Frei Chico. Fez carreira no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo – suplente, diretor, presidente duas vezes, cargo que ocupava quando tiveram início as históricas greves de 1978 e 1979. “Lula foi a peça sindical na estratégia de distensão tramada pelo general Golbery”, diz o empresário Mário Garnero, do Brasilinvest. “O que não sei dizer é se Lula sabia ou não sabia que estava desempenhando esse papel.”

“Escandalizei-me algumas vezes com suas demonstrações de oportunismo e, em outros instantes, a bem da verdade mais numerosos, admirei sua generosidade”, revela seu primeiro biógrafo, João Batista Natali. Numa conversa com Denise Paraná, sua biógrafa mais recente, Lula disse: “Não quero que publiquem que eu sou santo. Não sou. Estou cansado que me carreguem no colo, que puxem meu saco.” E avançou: “Não encontro textos sérios: ou inventam mentiras para me esculhambar, ou exageram em coisas que não existiram para me transformar num super-homem.” Lula tem uma imensa flexibilidade política e uma invejável rapidez mental, mas sob o pano de fundo culturalmente pobre. Amigos próximos garantem que ele cultiva os erros gramaticais de caso pensado, para que sua origem operária continue a encher os olhos de milhões de brasileiros, numa espécie de transfusão de sangue política. Jamais se interessou por literatura, poesia ou música clássica. Prefere o brasileiro Jessé e o italiano Sergio Endrigo. Sempre gostou do programa do Silvio Santos – e vez por outra ainda se senta ao lado de Marisa para assistir ao Homem do Baú. Não lê jornais – folheia o clipping de notícias da Radiobrás. Também nunca se interessa por questões ideológicas que tanto mobilizam o seu PT. Certa vez lhe cobraram um posicionamento político. “Politicamente eu não sei, mas praticamente…”, iniciou a resposta. Em outra de suas tiradas, perguntaram-lhe se era leninista. “Não, sou torneiro mecânico.” Seu jeito de governar é igualmente direto. Espontâneo, chora na frente de auxiliares. “Se estou irritado, fico sério; se estou feliz, sorrio”, disse. Lula tem uma relação antiga de amor e ódio com a imprensa. “Sinto-me perseguido, existe muita inveja contra mim”, disse. Refratário a horários ou protocolos, a cada discurso que comete enriquece o anedotário de suas gafes.

Mas, afinal, como Lula governa? Ele prefere, para decidir, conversas orais a relatórios escritos. Para formar opinião, ouve o ministro da área e, depois, os assessores de sua confiança. Não trata de nenhum assunto importante ao telefone. Para acompanhar o encaminhamento de suas ordens, escalou uma assessora pessoal, Miriam Belchior, como espécie de bedel dos ministros. “Sobre tudo o que registra, ele reflete, conclui, aprende alguma coisa”, relata a biógrafa Denise Paraná. “Tem, também, uma forte intuição e uma memória impressionante para fatos, números e datas.”

Abatido pelo mensalão, ressuscitou

O grande mistério que Lula guarda é a fórmula milagrosa que utilizou para chegar às eleições na condição de franco favorito. Há um ano, no ápice da crise do mensalão, era apontado como um zumbi político. Havia sido abatido por denúncias contra seus ministros, seus aliados e até seu filho. Chegou a amargar mais de 60% de rejeição. Ressuscitou pelo desempenho da economia: o cimento baixou de preço, o arroz caiu à metade e os empregos voltaram ao mercado. Mas ele começou a construir a virada em dezembro passado, quando decidiu traçar uma estratégia de sobrevivência que tinha como eixo se descolar do PT e do governo e reforçar a identificação com o povão. Vem daí outro segredo de seu governo. Em fevereiro último, quando se faziam os cortes do Orçamento, Lula mandou segurar as verbas dos programas para a classe média e soltar dinheiro para os programas sociais. A estratégia da campanha seguiu no mesmo rumo – esquecer a classe média e reforçar sua identificação profunda com o povo, a imagem do trabalhador que chegou ao poder para melhorar a vida dos pobres. Quando a campanha começou para valer, o povão já havia perdoado Lula por seus erros. Resta saber se, no próximo domingo 1º de outubro, esse perdão irá se confirmar numa vitória em primeiro turno, como indicavam as pesquisas da semana passada.