Brasil

A pressão de Abel aos Vedoin

Gravações da PF mostram que o empresário Abel Pereira, ligado aos tucanos, tentou negociar o silêncio dos chefes dos sanguessugas

Até a semana passada o empresário paulista Abel Pereira era um ilustre desconhecido dos brasileiros em geral. Ganhou notoriedade com a entrevista concedida a ISTOÉ pelos donos da Planam. Soube-se, a partir dali, que Abel seria o operador dos tucanos na máfia das ambulâncias. Agora, sabe-se mais. Os passos dados pelo empresário são bem conhecidos pela Polícia Federal há pelo menos quatro meses, desde que foi descoberto o esquema dos sanguessugas. Darci e Luiz Antônio Vedoin, tidos como os chefes da quadrilha, estavam com os telefones monitorados e a partir de suas conversas a Polícia Federal descobriu que mesmo depois de reveladas as falcatruas Abel e os donos da Planam continuaram a manter contato. Essa relação, de acordo com agentes da PF envolvidos no caso, pode explicar duas coisas. A primeira é por que os Vedoin pouparam, tanto nos depoimentos prestados ao Ministério Público em Mato Grosso quanto na CPI, políticos ligados ao PSDB, inclusive os ex-ministros da Saúde José Serra e Barjas Negri. A segunda é a relativa facilidade com que caíram nas garras da polícia os petistas envolvidos com a compra de um fajuto dossiê que envolveria José Serra com os sanguessugas. Nesse sentido, o que mais tem chamado a atenção da PF e do Ministério Público Federal é a presença de Abel Pereira em Cuiabá (MT) dias antes de Darci e Luiz Antônio Vedoin entregarem à Justiça os depósitos bancários e as cópias de cheques comprometendo os ex-ministros do PSDB.

A informação que circula entre os policiais é a de que Abel Pereira estaria oferecendo mais de R$ 4 milhões para que os Vedoin não entregassem os documentos e permanecessem em silêncio com relação aos tucanos. Os empresários, por sua vez, estariam reticentes em aceitar a oferta, pois temiam que a CPI chegasse rapidamente aos cheques entregues a Abel e com isso eles perderiam os benefícios da delação premiada. Essa postura teria levado o até então misterioso Abel a protagonizar um outro jogo. Já que não conseguiria manter os Vedoin calados, poderia minimizar, temporariamente, os efeitos de suas denúncias caso os Vedoin pudessem levar aos petistas um dossiê absolutamente frágil em relação aos tucanos. Assim, a divulgação das informações pouco consistentes poderia abafar a repercussão sobre a documentação efetivamente entregue à Justiça e ao Ministério Público.

Na última quinzena de agosto, Abel esteve pelo menos duas vezes em Cuiabá. Na primeira, se hospedou no Hotel Taiamã, a poucos metros da sede da Polícia Federal, onde ocupou o apartamento 417. Do próprio hotel, enviou diversos recados a Luiz Antônio Vedoin. Da outra vez, ficou em uma fazenda e também manteve contatos. Os registros constam das gravações feitas pelo grampo autorizado judicialmente. “Temos a convicção de que os Vedoin fizeram um verdadeiro leilão com as informações que têm”, afirma um dos agentes da PF que monitoraram os passos de Abel em Cuiabá. “Mas tudo será descoberto, pois as informações omitidas por eles serão levantadas a partir dos rastreamentos bancários.” De fato, desde a semana passada, o Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras) tem auxiliado a rastrear toda a movimentação do dinheiro dos Vedoin, tanto o que saiu de suas contas quanto o que entrou. Já descobriu, por exemplo, um depósito feito pela Klass, empresa do grupo Planam, para Valdizete Martins Nogueira, no valor de R$ 7 mil. O dinheiro, segundo Luiz Antônio Vedoin, seguiu o destino estipulado por Abel. Valdizete Nogueira é prefeito de Jaciara, cidade do interior mato-grossense, onde Abel possui uma fazenda.

Em outra linha de investigação, a Polícia Federal começará a rastrear as movimentações feitas por Abel em duas factorings. Uma delas, a Kanguru Sociedade de Fomento Comercial, fechou suas portas em 2003, logo depois que os tucanos deixaram o governo federal. Dias antes, Abel pediu aos Vedoin que fizessem diversos depósitos na empresa. Cerca de R$ 100 mil deixaram as empresas do grupo Planam e migraram para a Kanguru entre 24 e 27 de dezembro de 2002. A outra empresa, Moneicredit, funcionava em Piracicaba, no interior paulista, terra natal de Abel, e tinha como sócia a sua atual mulher, Raquel Aparecida Barbosa.

Ainda distante dos holofotes, Abel tem afirmado que manteve dois ou três encontros com os Vedoin e que trataram de negócios ligados a fazendas de gado no interior de Mato Grosso. As gravações feitas pela Polícia Federal e o trânsito de dinheiro entre ele e os Vedoin indicam uma outra história. Nesta semana, o Ministério Público deverá convocá-lo para depor.