Copa 2010

Melhor do mundo, fiasco na Copa

É uma sina. Nenhum jogador que chegou ao Mundial ostentando o título da Fifa foi capaz de fazer sua seleção triunfar

Melhor do mundo, fiasco na Copa

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DECEPÇÃO
Ronaldinho, melhor do mundo em 2005, sucumbiu na Copa de 2006

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Quando o craque italiano Roberto Baggio chutou por cima do travessão do goleiro  brasileiro Claudio Taffarel o pênalti que deu ao Brasil o tetracampeonato na Copa do Mundo de 1994, ele não mandou para os ares apenas o sonho de a Itália se tornar novamente a melhor equipe do planeta – até então, o último triunfo da azzurra havia sido em 1982. Cabisbaixo e estático próximo à marca da cal, o camisa 10 inaugurava uma sina que persegue uma legião de talentosos futebolistas. Desde que a Fifa passou a premiar o melhor jogador do mundo,  em 1991, o atleta que chega à Copa carregando essa honraria não consegue brilhar suficientemente para levar sua seleção à conquista da taça. Baggio desembarcou na Copa dos Estados Unidos com esse título a tiracolo, concedido pela entidade máxima do futebol em 1993. Jogador de rara inteligência, ele fez a diferença nas fases finais do torneio, mesmo atuando à base de infiltrações na coxa esquerda contundida. Na grande decisão contra a seleção canarinho, porém, não teve o mesmo sucesso. Ronaldo Nazário teve trajetória semelhante no Mundial seguinte, em 1998.

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SURTO
Em 1998, a pressão de ser o melhor provocou uma convulsão em Ronaldo

Coroado no ano anterior pela Fifa, o atacante brasileiro era a sensação do torneio, disputado na França, até sofrer uma convulsão horas antes da final contra a anfitriã equipe francesa. Ronaldo jogou a decisão, mas, como o restante do escrete brasileiro, ficou apático. O placar de 3×0 para a França o tornou a segunda vítima dessa espécie  de maldição do melhor do mundo. Para o psicólogo esportivo João Ricardo Cozac, a vulnerabilidade emocional dentro de um evento como a Copa do Mundo é enorme. “Ronaldo, por exemplo, teve uma crise de ansiedade generalizada, que gerou uma espécie de caos mental que rompeu sua capacidade de sustentação”, opina ele, presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte. “Poucos são os jogadores que, com as lentes voltadas para si, conseguem carregar uma seleção nas costas.” Os torcedores da Argentina convivem, atualmente, com este fardo. Envergando a camisa 10 do Barcelona, da Espanha, o craque Lionel Messi conquistou seis títulos no ano passado e fechou 2009 como o melhor do mundo pela Fifa. Com o manto da Argentina, porém, Messi é um jogador mediano. O ex-jogador Tostão, campeão do mundo em 1970, acredita que Messi irá falhar na Copa da África do Sul, neste ano. “A Argentina não fará grandes coisas e é quase certo que ele não vá brilhar.” Tostão ressalta, no entanto, que é cruel a ideia de que um atleta, por mais genial, possa ganhar sozinho uma Copa. Nesse torneio, é o fenômeno coletivo, não individual, que precipita a vitória.

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A falta de um time devidamente preparado para a competição fez o português Luis Figo e o brasileiro Ronaldinho Gaúcho, melhores do mundo pela Fifa em 2001 e 2005, respectivamente, falharem nas Copas de 2002 e 2006. No torneio disputado  na Ásia, a seleção lusa nem sequer passou da primeira fase. Em 2006, na Alemanha, Ronaldinho não conseguiu carregar nas costas os atacantes fora de forma do Brasil, que parou nas quartas-de-final. “É um fator negativo chegar à Copa com o prêmio de melhor do mundo”, sentencia Tostão. Nesse grau de excelência, o jogador de futebol dá de frente com três temidos adversários, na visão da psicóloga esportiva Mara Raboni, do setor de psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp): a acomodação inconsciente, a resistência psicológica para suportar a pressão e a instabilidade de status (opiniões divergentes sobre o atleta que variam de acordo com o desempenho dele em campo).

“Ao se tornar uma estrela, é praticamente impossível um esportista focar na competição, se ele vive uma rotina de celebridade”, diz ela. Comentarista da Rede Bandeirantes e da rádio Transamérica, o ex-camisa 10 da Seleção José Ferreira Neto, conhecido como Neto, traduz a opinião da especialista para a linguagem do futebol. “O cara que é eleito o melhor do mundo esquece de treinar no ano seguinte. Vive cercado de viagens para fazer propaganda, de dinheiro, mulheres e não se cuida.” Para o alívio da nossa torcida, Kaká foi escolhido o melhor em 2007. E, para melhorar ainda mais, o peso dessa copa está sobre as
costas de nossos maiores rivais. 

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