Comportamento

J. D. Salinger, escritor de uma obra só?

A morte do autor de "O Apanhador no Campo de Centeio" pode esclarecer essa questão: ele teria outras obras-primas jamais publicadas ou foi o gênio de um único romance

J. D. Salinger, escritor de uma obra só?

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SALINGER
Obra que marcou muitas gerações

Para muitos escritores, a morte chega como uma ratificação da genialidade. Para outros, e eles são poucos, abre uma janela para a existência que, apesar de celebrada, há muito se tornou nebulosa e enigmática. Nesse caso situa-se o escritor americano J.D. Salinger, que morreu na quinta-feira 28, aos 91 anos, de causas naturais. Autor de um dos livros mais cultuados e vendidos ao longo de cinco décadas, o romance “O Apanhador no Campo de Centeio” (65 milhões de exemplares ao todo, num ritmo de 250 mil ao ano), Jerome David Salinger vivia recluso desde 1951, quando publicou a sua obra mais conhecida, num sítio semelhante a uma fortaleza, em New Hampshire, nos EUA. Não dava entrevista e não divulgou nenhum texto a partir de 1965. Ficou, então, conhecido como o escritor de uma obra só. Esse título era-lhe um elogio: escrever um livro como “O Apanhador” já seria suficiente para ganhar a posteridade. Passado no ambiente de incertezas do pós-guerra, a obra narra a trajetória do adolescente Holden Caulfield, que entra em crise após ser expulso da escola e, sem coragem de enfrentar o desapontamento dos pais, se aventura por diversas regiões de Nova York.

O retrato geracional provocou grande identificação na juventude da época e a sua escrita, que dava espaço à voz interior do personagem e incorporava a coloquialidade, foi considerada uma grande contribuição à literatura, influenciando autores como Philip Roth, Don DeLillo e John Updike. A demanda por novos trabalhos o levou a  tornar públicos, embora contrariado, outroslivros: a reunião de contos “Nove Histórias” (1953) e as duas novelas em torno da família Glass – “Franny e Zooey” (1961) e “Carpinteiros,  Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymour,uma Apresentação” (1963). Depois de “Hapworth 16, 1924”, lançado na revista “The New Yorker”, Salinger silenciou. “Publicar um livro é uma terrível invasão de minha privacidade. Amo escrever, mas faço para mim e meu próprio prazer”, disse em uma de suas raras entrevistas. Isso reforça a tese de sua ex-mulher, Joyce Maynard, que afirmou saber de pelo menos dois manuscritos do marido. Amigos garantem ter visto 15, dentro de um cofre. Talvez para criar o mito de artista recluso, Salinger tenha deixado suas obras ocultas. Ou, quem sabe, por medo da desaprovação da crítica e da legião de leitores, tenha se rebelado contra o establishment literário. Exatamente como o seu herói Caulfield em relação aos valores americanos.

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