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Foto: Daniela Dacorso/ag. istoé

Entrevista

Joel Birman

“A corrupção é um crime sem rosto”

“A corrupção é um crime sem rosto”

Para o psicanalista, políticos fazem vítimas anônimas e propagam a ideia de que seus delitos são menos danosos que os outros

Solange Azevedo
Edição 03.02.2010 - nº 2099

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ANÁLISE
“A criminalidade urbana é a face mais visível do que se oculta na sociedade”

Quando o psicanalista Joel Birman, 63 anos, fazia os ajustes finais de “Cadernos sobre o Mal” (Editora Civilização Brasileira), José Roberto Arruda governava, tranquilo, o Distrito Federal. A vida seguia “como de costume” no País.  O livro de Birman – que inclui uma coletânea de ensaios e artigos sobre agressividade, violência e crueldade – narra pequenos e grandes males que marcaram o cotidiano do Brasil nos últimos anos. “A ideia foi trazer fatos datados para o contexto atual para mostrar que as mazelas ainda não foram superadas”, afirma o autor. Ele conseguiu. Seus relatos acabaram confirmados pelo noticiário nacional quando a obra já estava nas livrarias.

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"Os intelectuais se importavam com a favela, estavam presentes. Mas essa relação se deteriorou e ela foi tomada pelo poder paralelo"

Histórias se repetiram, personagens também. Citado na página  175 por ter participado da violação do painel do Senado, em 2001, Arruda atualmente é acusado de integrar um esquema  de pagamento de propinas a políticos aliados ao DEM. Corre o risco de ser cassado. “No Brasil, as relações pessoais e sociais são permeadas por violência e agressividade”, diz Birman.  “A criminalidade urbanaé a face mais visível do que se oculta na sociedade.” Autor de diversas obras, entre elas “Arquivos do Mal-Estar e da Resistência” e “Mal-Estar na Atualidade”, doutor em filosofia e pesquisador do Collège International de Philosophie, de Paris, Birman concedeu a seguinte entrevista à ISTOÉ:

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"O que se vê no futebol é a truculência, o antijogo. E o recado que fica para a torcida é de que o corpo a corpo é necessário"

ISTOÉ

Como o sr. enxerga a corrupção no Brasil?

Joel Birman

A corrupção faz parte da história do Estado brasileiro e ganhou ares de surrealismo e de barroco com as crises do PT, do PSDB e, recentemente, do Democratas. Collor (Fernando Collor de Mello, ex-presidente da República), por exemplo, caiu porque impôs uma taxa de corrupção muito alta. Dizem que a instabilidade começou quando ele ultrapassou os limites razoáveis de corrupção. Collor era um outsider. Surgiu ao inventar a saga do caçador de marajás, mas não tinha lastro político suficiente. A prática da corrupção visava criar uma oligarquia que ele não tinha. Mas é interessante lembrar que, quando a violência é abordada, se fala apenas das gangues urbanas, do tráfico de drogas, dos crimes sangrentos. Quando isso, na verdade, é apenas a ponta do iceberg.

ISTOÉ

Por quê?

Joel Birman

Faz parte da estratégia do poder tentar dizer que a corrupção é menos corrosiva do que os chamados crimes sangrentos. A corrupção é um crime sem rosto, por isso parece ser um problema menor. Embora prejudiquem a vida de milhões de pessoas e da nação, os corruptos não matam A ou B. Suas vítimas são anônimas. Essa despersonalização faz com que a corrupção pareça menos grave do que outros delitos, como assassinato ou tráfico de drogas.

ISTOÉ

Há uma relação direta entre esses crimes e a corrupção?

Joel Birman

A criminalidade urbana é a face mais visível de uma maquinaria complexa que passa pelo poder político do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.

ISTOÉ

No livro, o sr. cita o envolvimento do governador José Roberto Arruda, do Distrito Federal, na violação do painel do Senado, em 2001. Atualmente ele é acusado de corrupção. Histórias e personagens se repetem?

Joel Birman

Exatamente. A ideia da publicação do livro foi trazer fatos datados para o contexto atual para mostrar que as mazelas ainda não foram  superadas. Há um jogo de ocultamento dessas dimensões de poder e de crime. Eventualmente, uma história ou outra estoura. Mas isso só acontece quando alguém se vê ameaçado. A denúncia envolvendo o governador Arruda só surgiu porque um integrante do esquema sentiu que seria jogado na sarjeta.

ISTOÉ

O que fazer para mudar essa situação?

Joel Birman

Não adianta botar a polícia na rua atrás dos corruptos. É preciso que a mentalidade e os valores dos brasileiros mudem. A sociedade não pode mais admitir o “rouba, mas faz”.

ISTOÉ

O presidente Lula defendeu recentemente que a corrupção seja considerada crime hediondo…

Joel Birman

Corrupção é um crime de Estado. Ao tentar vender a ideia de que se trata de um crime tão hediondo quanto um pai matar o filho ou um filho matar o pai, parece que o presidente Lula pretende passar a imagem de um homem que quer estancar essa dimensão de corrupção que vemos atualmente e acender no imaginário da população a ideia de que a corrupção é tão grave quanto um crime sangrento.

ISTOÉ

Qual o grau de agressividade do povo brasileiro?

Joel Birman

Em todas as sociedades existentes, sem exceção, ao Norte e ao Sul do Equador, as ricas e as pobres igualmente, a agressividade e a violência passaram a pontuar e a cadenciar a ordem social, transformando- se na questão inaugural das agendas políticas de diversos governos. No Brasil não é diferente. Se canalizada para algo produtivo, a agressividade pode ser positiva. Mas o que vemos no País é uma  espécie de espraiamento e a manifestação da agressividade através da violência. Isso se desdobra de maneira evidente na criminalidade, que está presente em todos os redutos – seja nas áreas abandonadas pelo poder público, seja na política ou no futebol. O brasileiro não é mais violento do que outros povos, mas a fragilidade do exercício e do reconhecimentoda cidadania e a ausência do Estado em vários territórios do País se impõem como um caldo de cultura no qual a agressividade e a violência fincam as suas raízes.

ISTOÉ

A agressividade que vemos no futebol é um reflexo do que ocorre na sociedade?

Joel Birman

O futebol é o microcosmo da sociedade brasileira, em que a lei e a linguagem são cada vez mais avacalhadas em nome do uso ilegítimo da força e dos músculos. Quem grita ou bate firme na mesa com estardalhaço sempre ganha. Esse embate corpo a corpo a que temos assistido nos últimos 20 ou 30 anos vem ocorrendo também fora dos campos. Quando um técnico diz que a torcida é o 12º jogador, não significa que ela deve ir ao estádio para dar força ao time e aproveitar a partida como uma diversão, um espetáculo. É para pressionar e amedrontar tanto o adversário quanto o juiz. O recado que fica é de que o corpo a corpo é necessário e faz parte da estratégia de sobrevivência. Estamos imersos na violência e na criminalidade como se isso fosse natural.

ISTOÉ

Até onde isso pode ir?

Joel Birman

Há insegurança generalizada, que se deve à impunidade ampla, geral e irrestrita. Todos (bandidos e vítimas) vivem em estado permanente de terror. A perseguição e a paranoia são as formações psíquicas mais bem distribuídas entre nós. É evidente o incremento da violência em todo o tecido social brasileiro. Não há nenhum espaço desocupado.

ISTOÉ

Quando as favelas se tornaram um símbolo da violência no Rio de Janeiro?

Joel Birman

Durante as décadas de 50, 60 e 70 havia uma articulação entre o asfalto e a favela, uma harmonia ideológica que acabou. Ela se inscrevia positivamente no imaginário coletivo pelo cinema, pelo teatro e pela música popular. Havia a figura do favelado herói. Os favelados do Rio de Janeiro eram a representação imaginária dos socialmente excluídos da sociedade brasileira. Os intelectuais se importavam com a favela, estavam sempre presentes. Mas essa relação foi se deteriorando com o tempo.

ISTOÉ

O que marcou essa ruptura?

Joel Birman

O marco dessa ruptura ficou evidente na frase “quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta mesmo é de luxo, de beleza”, do carnavalesco Joãosinho Trinta. Na virada da década de 80, ele inaugurou  um novo conceito de desfile com a Beija-Flor. Esse discurso, de certa forma neoliberal, foi deglutido pelos brasileiros como algo razoável. A nossa sociedade foi corroída pelo ideário do Brasil moderno, grande. E a favela foi abandonada pelo poder público e tomada por um poder paralelo. O que se passa no Rio de Janeiro é o símbolo mais  eloquente do que ocorre em todo o País.

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