Cultura

Leia trecho do primerio capítulo da biografia do pintor judeu Marc Chagall

"Chagal", escrito pela crítica de arte inglesa Jackie Wullschlager, é uma portentosa obra de quase 800 páginas cujo tema recorrente é o de que um grande artista não consegue se furtar às suas origens

“Minha triste e jovial cidade”

Vitebsk, 1887-1900

“Todo pintor nasce em algum lugar”, Chagall comentava pensativo, em  sua condição de exilado nos Estados Unidos nos anos 1940. “E embora mais tarde ele possa reagir às influências de outros ambientes, uma certa essência — um certo ‘aroma’ de seu local de nascimento adere à sua obra […] A marca vital que essas primeiras influências deixam permanece, por assim dizer, na caligrafia do artista. Isso fica claro para nós no caráter das árvores e jogadores de baralho de um Cézanne, nascido na França, nas retorcidas sinuosidades dos horizontes e figuras de um Van Gogh, nascido na Holanda, nos ornamentos quase árabes de um Picasso, nascido na Espanha, na sensação linear do Quattrocento em Modigliani, nascido na Itália. É dessa maneira que espero ter preservado as influências da minha infância.”

Vitebsk, “minha triste e jovial cidade”, estava se aproximando do zênite de seu desenvolvimento como sólido posto militar avançado de província, dentro do vasto Império Russo, quando Chagall nasceu ali, em 7 de julho de 1887. A verde e barroca catedral de Uspensky, na colina que encimava a silhueta da cidade com seus domos brilhantes, em formato de cebola, de 30 igrejas e 60 sinagogas, e o amontoado de casas de madeiras e judeus caminhando de um lado para outro, retratados em telas como Sobre Vitebsk denunciam uma herança cultural mesclada e longa. O artista Ilya Repin chamava Vitebsk de “a Toledo russa” porque, assim como a cidade de El Greco, sua silhueta acrobática era caracterizada por uma mistura de elementos arquitetônicos cristãos e judaicos, em suas agulhas, torres e domos, remontando à igreja da Anunciação, uma construção do século xii. Instalada em uma região de lagos azuis, florestas de pinheiros, amplas planícies e colinas suaves, a pitoresca e antiga cidade da Rússia Branca eleva-se às margens do largo rio Dvina, no qual deságuam dois tributários, o Vitba e o Luchesa. Ali, durante os invernos que duravam seis meses sob a neve e os breves e abafados períodos de verão, em que cabanas para banhistas permaneciam por pouco tempo montadas nas margens do rio, a vida sempre fora dura: Vitebsk tinha sido uma cidade contestada ao largo de toda a sua história. Como cidade fortificada na lucrativa rota comercial que interligava Kiev, Novgorod, Bizâncio e o mar Báltico desde o século x, Vitebsk pertencera à Lituânia na Idade Média e depois à Polônia, apesar de frequentemente incendiada por invasores russos.

Foi anexada pela Rússia no século xviii e se tornou a borda nordeste do Território do assentamento — área que hoje compreende Belarus (ex-Bielorrússia, Lituânia, parte da Polônia, Letônia e Ucrânia —, o território ao qual Catarina, a Grande confinara todos os judeus de seu império. Em 1890 havia cinco milhões de judeus na região, concentrados em cidades de porte médio como Vitebsk e na vizinha Dvinsk (hoje Daugavpils), constituindo 40% da população judaica mundial. A partir da década de 1860, as novas ferrovias Moscou—Riga e Kiev—São Petersburgo encontravam-se em Vitebsk, trazendo grandes grupos de pessoas que para lá afluíam oriundas do campo e, assim, pela primeira vez, aconteceu ali a formação de um proletariado urbano. Entre 1869 e 1890, a população de Vitebsk dobrou e chegou a 66 mil habitantes, mais da metade dos quais era de judeus, envolvidos em pequenas atividades comerciais negociando papel, óleo, ferro, peles, farinha, açúcar, arenques — o conjunto que fazia a cidade prosperar. Os demais cidadãos eram russos, russos brancos e polacos, mas os judeus eram tão essenciais ao comércio e aos negócios que, segundo um habitante,

Se eu fosse um forasteiro, e não um habitante de Vitebsk, e depois de ter lido as placas das lojas e os nomes dos inquilinos e dos prédios fizesse uma lista dos ocupantes de cada metro de todas as ruas, terminaria por dizer que Vitebsk era uma cidade puramente judia, construída por judeus, com sua iniciativa, energia e dinheiro. A sensação de que Vitebsk era uma cidade judia se fazia especialmente nítida nos feriados judaicos e no sabá, quando todos os escritórios, lojas e fábricas ficam fechados e silenciosos. Até nas repartições oficiais, como o Banco do Governo, o Cartório, o Fórum, os Correios e Telégrafos, e assim por diante.

O iídiche, ali como em todo o Território do Assentamento, era a língua-mãe de quase toda a população judia, metade da qual não era capaz de falar em nenhum outro idioma. A língua distinguia a cultura judaica de cidades como Vitebsk em meio ao mar de aldeias eslavas atrasadas e brutalizadas que as rodeavam, aldeias cujos habitantes ainda eram servos há apenas uma geração antes do nascimento de Chagall. O iídiche era a língua oficial de Chagall até a adolescência, a língua que sua família falava em casa, e seu uso consagrava uma sensação de segurança e pertença, de participação em um sistema autônomo de valores, tradições religiosas e leis que um judeu do século xix não poderia encontrar em nenhuma outra parte.

Os judeus que chegavam a Vitebsk vindos de assentamentos menores no território designado por Catarina, a Grande, portanto, sentiam-se imediatamente em casa. Entre estes, em 1886, estava uma moça magra e franzina de 20 anos, chamada Feiga-Ita Tchernina, a filha mais velha do açougueiro e abatedor kosher da pequena cidade interiorana de Lyozno, aproximadamente 65 km a leste. Sua mãe, Chana, tinha morrido há pouco tempo e Feiga-Ita estava deixando para trás uma existência empobrecida em que seu pai “passara a metade da vida no fogão, um quarto na sinagoga e o resto no açougue”, rodeado pelos filhos mais indolentes de sua prole, aqueles que não tinham se aventurado na cidade. Seu famoso neto os retratou, afetuosamente, como caricaturas da inércia russa da província: o tio Leiba sentado o dia todo em um banco do lado de fora da casa, enquanto “as filhas zanzam como vacas vermelhas”; a pálida tia Mariassaja “esparramada no sofá […] com seu corpo estendido, exausta, os seios murchos e descaídos”; o tio Judah “ainda está ao fogão, raramente sai de casa”; o tio Israel “ainda está no mesmo lugar […] se aquecendo, de olhos fechados, diante do fogão”; somente o tio Neuch, com sua carroça e sua égua, imortalizados na tela intitulada O negociante de gado, trabalhava em algo. Essa era a Rússia rural que levava os burocratas e intelectuais de São Petersburgo ao desespero — “em nenhuma outra parte da Europa é possível encontrar tamanha incapacidade para o trabalho consistente, moderado, medido”, como escreveu o historiador do século xix Vasilii Kliuchevskii — e que, não obstante, era repleta de cores, sensações e vida.

Feiga-Ita chegou a Vitebsk para se casar com Khatskel (equivalente em iídiche a Ezekiel, que em russo era traduzido como Zakhar e abreviado em família para Hasha, Chaty ou Chazia) Shagal, de 23 anos, um primo distante que ela não conhecia. Como era habitual entre os judeus ortodoxos de então, tratava-se de um casamento arranjado. Khatskel tinha saído de Lyozno há pouco tempo, em companhia dos pais, David e Basheva, rumo à próspera cidade. Era ajudante no armazém de arenques de Jachnine, instalado nas margens do Dvina, e morava perto do presídio da cidade, no subúrbio de Peskovatik, a noroeste do centro, para onde se dirigiam os recém-chegados, e que se abrigava à sombra de sua igreja da Santíssima Trindade, uma construção datada do século xvii e comumente conhecida como a “Trindade Negra”. Seu pai, já na casa dos 60 anos, conseguia sobreviver como professor eventual de religião para os meninos pobres da localidade. Um irmão mais novo e franzino, Zussy, ficara para trás em Lyozno, trabalhando como aprendiz de cabeleireiro; carente de iniciativa e infantilmente vaidoso, era o único da extensa família que mais tarde se interessou pelas pinturas do sobrinho, embora tivesse se recusado a guardar o seu retrato por considerá-lo insuficientemente lisonjeiro.