Cultura

No rastro de Picasso, Dalí, Monet e Matisse

Livro conta como falhas na investigação do maior roubo de arte do Brasil contribui com um mercado criminoso que movimenta US$ 6 bilhões por ano

No rastro de Picasso, Dalí, Monet e Matisse

ESTRAGO

Era uma sexta-feira de 2006, primeiro dia de Carnaval em Santa Tereza, quando o bairro carioca fica tomado pelo tradicional bloco das Carmelitas. Quatro homens entraram no museu da Chácara do Céu, que, apesar de pouco visitado, abriga uma valiosa coleção de arte com alguns dos maiores pintores do mundo. Naquele dia, um Dalí, um Matisse, um Monet e dois Picassos – uma tela e a encadernação de desenhos – foram levados por uma trilha acidentada logo atrás do local do crime numa ação que durou alguns minutos. Até hoje não se tem notícia das obras. Sabe-se apenas que uma delas, “A Dança”, de Pablo Picasso, foi rasgada acidentalmente na fuga.

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ESTRAGO
A tela ”A Dança”, de Pablo Picasso, que, de acordo com testemunhas,
foi rasgada logo nos primeiros metros da rota de fuga dos ladrões 

O que se seguiu foi uma sequência constrangedora de falhas, omissões e falta de preparo das instituições e profissionais, como policiais, investigadores e funcionários públicos. Foi essa a conclusão da jornalista Cristina Tardáguila, que publica agora o resultado do que viu nos quatro anos em que se dedicou a refazer as investigações sobre o crime. “A Arte do Descaso” mostra, por exemplo, que o crime contra o patrimônio, no Brasil e no mundo, só perde em movimentação de dinheiro para o tráfico de drogas e de armas. Mais que isso, peças roubadas de acervos são moeda corrente nos grandes negócios do tráfico.

As obras valiam US$ 10 milhões na ocasião. Hoje, elas atingiriam um valor muito maior e incalculável porque, além da inflação e do crescimento do mercado leiloeiro na década, peças roubadas se tornam mais valiosas, na medida em que passa o tempo de seu sumiço. Segundo o FBI, o assalto à Chácara do Céu é, até hoje, o maior roubo do tipo no Brasil.

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DENÚNCIA
Em seu livro, Cristina Tardáguila (acima) faz uma reportagem
sobre a falta de segurança das coleções de arte no Brasil

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O inquérito policial mostra que apenas parte das testemunhas foram ouvidas e só dois dos quatro assaltantes tiveram seus retratos falados publicados. O segurança contou à Cristina que se sentia traumatizado, pois já havia sido refém em um roubo anterior, realizado na mesma instituição, em 1989. Na ocasião dois dos quadros levados no Carnaval também foram roubados, mas depois recuperados. Esse primeiro crime não era mencionado no inquérito, que também mostrou que não houve nenhuma busca pelos donos das digitais deixadas no local.

Havia apenas um sobrevivente do primeiro assalto, o advogado Galeno Gomes Osório. A autora encontrou o profissional, já em liberdade, que contou como era feita a escolha das peças, usando os folders da exposição como uma espécie de cardápio. “É muito fácil roubar aquele museu”, declarou o assaltante à autora do livro.

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DESAPARECIDAS
Há dez anos não se tem notícia de ”Os Dois Balcões”, de Salvador
Dalí (acima), e o ”O Jardim de Luxemburgo” (abaixo) 

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A estimativa mais conservadora, a do FBI, diz que o roubo de arte mobiliza US$ 6 bilhões ao ano. O Brasil é o quarto país em assaltos de obras. O caso da Chácara do Céu é classificado pelo departamento do governo americano como a oitava ação mais importante do tipo no planeta. “As pessoas não se dão conta da implicação do escoamento de obras de arte para o mercado negro. Além da perda cultural óbvia, alimenta-se o pior do crime no mundo. Troca-se arte por armas, heroína e plutônio”, conta a ela, que entrevistou alguns dos maiores especialistas mundiais no assunto para o livro. Em um dos capítulos, Cristina lembra de uma reportagem da revista alemã “Der Spiegel” que relatava como o egípcio Mohamed Atta (um dos envolvidos nos atentados do 11 de Setembro) negociava obras de arte afegã em troca de aviões.