O Brasil que constrói

A rainha da sucata

A Gerdau, maior siderúrgica brasileira, tem turbinado seus projetos de reutilização de metais como matéria-prima. Bom para a empresa, ótimo para a economia e para o meio ambiente

A rainha da sucata

LATA VELHA: a Gerdau conseguiu 108 toneladas de sucata na Ilha de Páscoa com a ajuda do governo chileno ()

O pensamento mais memorável do químico francês Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794), que elaborou o princípio da conservação das massas, dizia que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. A conclusão de Lavoisier, há quase 250 anos, pode ser observada, atualmente, na rotina da maior siderúrgica brasileira, a Gerdau. A companhia se tornou, na última década, a maior recicladora de sucatas da América Latina, dando vida nova a mais de 15 milhões de toneladas de aço todos os anos. Isso significa que sua geladeira, seu carro, os vergalhões que sustentam as paredes de sua casa ou qualquer outro produto feito a partir do aço já podem ter sido aviões, tratores ou trilhos de trem num passado não muito distante. Os exemplos, evidentemente, apenas ilustram o potencial econômico e as vantagens ambientais por trás da reciclagem. De todo aço processado pela Gerdau, que faturou R$ 42,5 bilhões no ano passado, 75% é de material reciclado. “O que não é mais útil para a sociedade, como a sucata, é uma valiosa fonte de negócios para nós”, afirma o diretor de saúde, segurança e meio ambiente Enio Viterbo Junior. “É importante que toda a sociedade tenha consciência de que o aço é um metal que pode ser transformado infinitamente, sem que sua qualidade seja alterada.”

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LATA VELHA:
a Gerdau conseguiu 108 toneladas de sucata na Ilha
de Páscoa com a ajuda do governo chileno

Se pela lógica financeira a reciclagem da sucata é uma espécie de baú do tesouro, sob a ótica ambiental é igualmente interessante. Em comparação à produção do aço a partir do minério de ferro bruto, a reciclagem reduz em mais de 90% a utilização de água no processo, de 70% a emissão de dióxido de carbono, o CO2, além de diminuir dezenas de outras partículas nocivas causadoras do efeito estufa. Tudo isso sem citar a significativa diminuição da quantidade de material depositado em aterros e locais inadequados. “Não existe nenhuma atividade com potencial econômico, ambiental e social maior do que a indústria da reciclagem”, diz Viterbo Junior.

Na questão social, a reciclagem tem se consolidado como um importante instrumento de geração de renda. Prova disso é o crescimento do Projeto Reciclagem Inclusiva, criado em 2007 pela Gerdau em parceria com a Agência Alemã de Desenvolvimento (GIZ). Elaborado com o intuito de fomentar a formalização de cooperativas de recicladores de sucata, a iniciativa se tornou prática permanente na empresa, integrando toda a cadeia de fornecedores à companhia. Atualmente, mais de cinco mil sucateiros em todo o País, além de mercados como Chile e Peru, unem-se a um exército de fornecedores de matérias-primas da Gerdau. Com o trabalho realizado pelo projeto, a renda média dos profissionais das cooperativas aumentou em 58%, para mais de R$ 3 mil mensais, segundo a empresa. “Nas cidades onde implementamos o programa, a coleta de sucata subiu mais de 300% e, em alguns casos, houve aumento de 200% na renda das famílias”, afirma o executivo da Gerdau.

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REAPROVEITAR É O NEGÓCIO: 
"O que não é mais útil para a sociedade, como a sucata, é uma valiosa
fonte de negócios para nós", diz Enio Viterbo Junior, diretor de
saúde, segurança e meio ambiente da Gerdau

A ofensiva da siderúrgica não se limita ao território nacional. A empresa propôs ao Ministério do Meio Ambiente do Chile para retirar toda a sucata acumulada durante décadas na ilha de Páscoa, no Oceano Pacífico. Foram necessários três navios para remover 108 toneladas de aço, em 2009, que já se transformaram em materiais novos. Outra iniciativa da Gerdau foi a remoção de todo resíduo gerado pelo incêndio da estação brasileira Comandante Ferraz, na Antártica, em 2012. “Todo empenho da Gerdau em projetos de reciclagem no Brasil e no exterior tem se apresentado como um modelo a ser seguido por toda a indústria”, diz o consultor Dionísio Bártoli, da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos de Construção Civil e Demolição (Abrecon). “O Brasil está no caminho para se igualar às economias mais avançadas no quesito de reutilização de materiais.” Em países como Suécia, Japão e Dinamarca, a reciclagem de metais supera 96%. No Brasil, apenas embalagens como latas de alumínio e metais mais valorizados, como o cobre, muito utilizado na produção de fios elétricos, atingem esse índice. Por enquanto.

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