Cultura

O nascimento do gênio

Maior e melhor biografia de Michelangelo mostra como o mestre renascentista criou uma das obras de arte mais admiradas do planeta e mudou para sempre a noção de genialidade

O nascimento do gênio

IMAGEM E SEMELHANÇA

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A editora de cultura de Istoé, Ana Weiss, fala sobre a mais nova e também mais importante
biografia jáescrita sobre Michelangelo, um dos maiores gênios da Renascença

Michelangelo nasceu em uma envergonhada família de comerciantes falidos de Florença. Pretensioso e obstinado, transitou pelo alto poderio da Itália que emergia da Idade Média até se tornar o artista mais conhecido de seu tempo, protegido pela corte dos Medici. São dele peças fundamentais da Renascença como estátua de “Davi”, os afrescos da Capela Sistina e a “Pietá”, que está hoje na Basílica de São Pedro, também um projeto seu que acabou com os nervos de pelo menos três papas. A aplaudida biografia “Michelangelo – Uma Vida Épica”, que acaba de chegar ao Brasil, reconstrói a trajetória do mestre florentino, mas vai além das anteriores (relacionadas em uma bibliografia de quase cem páginas no volume) por colocar uma lente de aumento na personalidade difícil do artista.

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IMAGEM E SEMELHANÇA
Detalhe do afresco "Juízo Final", na parede da Capela Sistina, no Vaticano.
Michelangelo se retratou como São Bartolomeu segurando a própria pele

A escolha do prisma faz do perfil de 750 páginas uma narrativa de contrastes, um modo engenhoso encontrado pelo historiador Martin Gayford para recompor o mundo luminoso do Renascimento, partindo do temperamento taciturno, irascível e ressentido de seu mais importante escultor. Michelangelo, segundo o professor, apresentava um dos piores perfis profissionais que se pode imaginar nos dias de hoje. Estorquia – o verbo é dele – dinheiro do Vaticano, dos Medici, por gerações. Não cumpria prazos, não seguia encomendas e tratava igualmente mal clientes, equipes envolvidas nos projetos e, eventualmente, amigos que tentassem atenuar os conflitos. Preferia, sempre, trabalhar só – o que foi possível para esculpir a famosa estátua de Davi, mas teria sido impraticável para completar a Basílica de São Pedro do Vaticano. Destruía trabalho dos colegas e, às vezes, as próprias obras por razões – reproduzidas de cartas e diários consultados por Gayford – quase sempre descabidas e infantis. Mas era obstinado e, movido por um horror a qualquer tipo de inferioridade, precisava sempre chegar onde ninguém mais estivera.

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ORGULHO
Aos 70 anos, o artista assumiu o projeto arquitetônico da Basílica de São Pedro,
que já vinha sendo erguida há mais de quatro décadas. Modificou a estrutura
original, estourou o orçamento e não deixou que os procuradores do
Papa Julio III lhe enviassem relatório algum durante a obra

Só que nem sempre conseguia. Da Vinci pintava melhor do que ele. Mas Michelangelo era melhor escultor e sua fixação pela anatomia criou as mais impressionantes reproduções de corpos humanos da História da Arte. Falava mal abertamente das técnicas do desafeto, que pôs no mundo mistérios de expressão como a “Mona Lisa”, usando a técnica do sfumato. Os rostos dos personagens de suas esculturas e pinturas, mesmo as sagradas, são fortes e claras manifestações de descontentamento. Suas Pietá, Davi, Moisés e Jesus Cristo, perfeições na forma, trazem uma escala de sentimentos que vão da melancolia à raiva. “Tudo em Leonardo era impessoal; com Michelangelo tudo o que dizia respeito a ele versava sobre o ‘seu’ estado de espírito, ‘suas’ emoções e ‘seus’ pensamentos”, escreve Gayford. “Antissocial e mal-educado, tinha dentro de si um vulcão emocional.”

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LUXÚRIA
Para autor, “Davi”, umas das esculturas mais importantes do Renascimento
“é tudo, menos preciso”. Sua grande qualidade não seria o naturalismo buscado
pela escola, mas sim a sensualidade que une os músculos de um
homem adulto com as proporções de um menino

E com todas as intransigências e mesquinharias – depois de sua morte, foi encontrado em sua casa modesta um baú cheio de ducados – o livro desperta uma empatia curiosa. Não só porque conta a história do órfão pobre que depois de uma obra monumental morre solitário e muito velho – aos 88 anos, quase um milagre naqueles tempos. Mas principalmente por mostrar que a efervescência gloriosa do período histórico que definiu a arte a partir de então foi protagonizada por um anti-herói. Um homem vaidoso e narcisista de gênio ruim.

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Fotos: AKG-Images/Electa, Martijn Zegel/Fotograaf/Datamanager