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Entrevista

EDUARDO SUPLICY

“Pessoas me param nas ruas pedindo para eu deixar o PT”

“Pessoas me param nas ruas pedindo para eu deixar o PT”

Secretário de Direitos Humanos da cidade de São Paulo demonstra preocupação com o PT, diz que a legenda foi varrida por um tsunami, mas sugere que Marta Suplicy dispute prévias contra Haddad para concorrer à Prefeitura em 2016 pelo partido

por Luisa Purchio
Edição 11.03.2015 - nº 2362

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GRANDE FAMÍLIA
Ex-senador Eduardo Suplicy diz que, apesar dos apelos,
vai ficar para ajudar o PT a "voltar a agir com correção"

 

O ex-senador Eduardo Suplicy (PT), hoje Secretário de Direitos Humanos da prefeitura de São Paulo, avalia que o PT, partido ao qual está filiado há 35 anos, foi varrido por um tsunami. Nos últimos dias, ele tem sido parado nas ruas por pessoas que pedem para ele deixar a legenda. Os apelos partem também de seus familiares. Apesar de precupado com a situação da legenda e da admissão de que o PT cometeu “graves erros”, ele garante em entrevista à ISTOÉ que não seguirá o caminho que – como tudo indica – será trilhado pela ex-ministra da Cultura e sua ex-mulher, Marta Suplicy.

 

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"Depois que assinei a CPI dos Correios, o Delúbio
me tirou da chapa para o Diretório Nacional"

 

“Sinto-me na responsabilidade de ajudar a corrigir o partido”, afirmou. Para Marta ele faz uma curiosa sugestão: pede para que ela permaneça no PT e concorra com o prefeito Fernando Haddad, ao qual ele está subordinado hoje, à vaga de candidata à Prefeitura de São Paulo em 2016 por meio de prévias. “O estatuto do partido permite que ela recolha o número necessário de votos dentro do diretório municipal para ser pré-candidata à Prefeitura de São Paulo, se quiser. Ou ela pode recolher 10% do número de filiados que compareceram ao último processo de eleição direta do partido”, disse.

 

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"O Bolsa Família foi importante para erradicar a pobreza
absoluta. Mas o programa pode ser melhorado"

 

Para ele, o PT precisa dar exemplos no cotidiano, se quiser limpar sua imagem. Cita como prática a ser seguida sua decisão de abrir mão do salário de secretário. Parte do dinheiro será destinado à implementação do Renda Básica de Cidadania, projeto pelo qual luta incessantemente há mais de 20 anos. 

ISTOÉ

 O sr. ficou 24 anos no Congresso e no ano passado não foi reeleito ao cargo de senador. Ao que o sr.atribui a derrota eleitoral?

 
EDUARDO SUPLICY

 Nessa eleição houve um verdadeiro tsunami sobre o PT. Foi uma onda de críticas muito forte e aqui em São Paulo foi um momento extremamente difícil para o partido.

 
ISTOÉ

  O PT está envolvido em mais um escândalo de corrupção, o Petrolão. Como se sente, sendo um dos fundadores do partido?

 
EDUARDO SUPLICY

 Fico preocupado todos os dias, principalmente quando surgem notícias de que algum companheiro ou alguma empresa de responsabilidade do Partido dos Trabalhadores tenha agido mal, pedido propina ou contribuição de maneira inadequada. Ou que tenha enriquecido indevidamente.

 
ISTOÉ

 Já pensou em deixar a sigla?

 
EDUARDO SUPLICY

  Eu faço um paralelo com uma família grande. Se algum membro da minha família comete um erro grave, eu não saio da família, mas procuro verificar o que posso fazer para que essa pessoa venha a agir com correção. 

ISTOÉ

 A família do sr. pediu que saísse?

 
EDUARDO SUPLICY

 Algumas pessoas sim. Com frequência há pessoas que me param nas ruas dizendo que gostam muito de mim, mas que eu deveria deixar do Partido dos Trabalhadores. Sei que para Marta isso também ocorre, para nós do partido tem sido frequente. Mas eu me sinto na responsabilidade de ajudar a corrigi-lo, assim como às ações erradas de brasileiros e brasileiras. Infelizmente acontece.

 
ISTOÉ

 Em que momento o PT começou a errar para se envolver em tantos escândalos de corrupção?

 
EDUARDO SUPLICY

  Foram desvios de procedimento. A utilização de recursos não contabilizados, por exemplo. No primeiro semestre de 2002 nós estávamos iniciando a campanha eleitoral e, em uma reunião do diretório nacional, o deputado Chico Alencar, na ocasião deputado pelo PT, propôs que nós registrássemos em tempo real e tornássemos inteiramente transparentes todas as contribuições de pessoas físicas e jurídicas ao partido, como eu sempre defendi. 

 
ISTOÉ

 Como a proposta foi recebida?

 
EDUARDO SUPLICY

 Quando ele falou, houve uma reflexão. Mas o então tesoureiro, Delúbio Soares, observou e disse, ‘olha, precisamos ver bem se isso vai ser saudável. Muitas vezes algumas empresas que estariam dispostas a contribuir para um partido podem se inibir com a transparência do processo’.

 
ISTOÉ

 O sr. chorou quando assinou a CPI que culminou com a investigação do mensalão. Como foi o episódio?

 
EDUARDO SUPLICY

 Em 2005, quando se solicitou uma instalação da CPI dos Correios, o Diretório Nacional do PT recomendou que o partido não a assinasse. Foi uma decisão difícil, recebi uma saraivada de mensagens de pessoas muito próximas pedindo que eu assinasse de forma coerente com o que sempre fiz. Então fiz um pronunciamento e pela primeira e última vez decidi assinar contra a diretriz que o diretório nacional tinha me colocado.

 
ISTOÉ

 A atitude teve consequências?

 
EDUARDO SUPLICY

 No início daquele ano, por volta de fevereiro, o Delúbio Soares me perguntou: ‘Eduardo, nós do campo majoritário propomos que você faça parte da chapa para o Diretório Nacional, presidida pelo deputado José Genoíno’. Eu aceitei, mas depois de ter assinado, ele disse ‘olha, depois da sua atitude não podemos mais ter você na chapa’.

 
ISTOÉ

 Para o dia 15 de março está marcada uma grande manifestação pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Há semelhanças com o processo que levou ao impedimento do Collor, na avaliação do sr.?

 
EDUARDO SUPLICY

 Estou em pleno acordo com o professor Dalmo de Abreu Dallari, embora eu tenha amizade e respeito pelo jurista Ives Gandra da Silva Martins. Não há hoje condições objetivas para se fazer uma denúncia com respeito à culpabilidade da presidenta Dilma Rousseff. Não há nada que pudesse justificar um pedido de ­impeachment da presidente.

 
ISTOÉ

 O sr. acredita na idoneidade do Lula e da Dilma Rousseff no que diz respeito aos escândalos de corrupção da Petrobras?

 
EDUARDO SUPLICY

 Acredito por tudo o que eu conheço, pessoalmente, de suas vidas e atitudes. Em todas as ocasiões que eu tive a oportunidade de conversar com o Lula, ele me disse: ‘para nós do PT, a questão ética é fundamental’. E a presidenta Dilma foi extremamente rigorosa todas as vezes que soube de atos de desvio de procedimento e de enriquecimento ilícito na sua administração. 

ISTOÉ

 Dilma tinha um cargo importante na Petrobras, o de presidente do Conselho de Administração. É possível que não tenha conhecimento do que estava acontecendo?

 
EDUARDO SUPLICY

 Por tudo que até hoje veio à tona e pela sua própria reação, ela não tinha conhecimento de que diretores e administradores responsáveis pela Petrobras estavam se enriquecendo ilicitamente.

 
ISTOÉ

 A Marta Suplicy se demitiu do cargo de ministra da Cultura e fez uma série de críticas ao PT no ano passado. 

 
EDUARDO SUPLICY

 Ela saiu do cargo quando já tinham sido anunciados os ministros que estavam finalizando o seu mandato, e que iriam apresentar cartas de afastamento. Ela apenas adiantou-se.

 
ISTOÉ

  Como avalia as críticas dela?

 
EDUARDO SUPLICY

 Houve alguns contratempos, eu fui testemunha. Eu estava junto a ela e a presidente Dilma Rousseff quando o presidente do PT, Rui Falcão, disse para Marta ir para o banco de trás. Ela disse ‘eu sou ministra, senadora. Eu fui prefeita de São Paulo e tenho muitos votos em São Paulo. Acho que eu devo ficar aqui’. E ficou.

 
ISTOÉ

 Se ela sair do PT, para qual partido o sr. acha que ela vai?

 
EDUARDO SUPLICY

 A minha recomendação é que ela permaneça no partido e contribua para que possam ser corrigidos os nossos erros. O estatuto do partido permite que ela recolha o número necessário de votos dentro do diretório municipal para ser pré-candidata à Prefeitura de São Paulo, se quiser. Ou ela pode recolher 10% do número de filiados que compareceram ao último processo de eleição direta do partido. Não é tão fácil obter as assinaturas, mas ela poderia tentar e se apresentar à direção do partido.

 
ISTOÉ

 Existe uma insatisfação no PT com a presidente Dilma.

 
EDUARDO SUPLICY

 Não vejo assim. Eu acho que há uma incompreensão das dificuldades pelas quais ela passa. Isso precisa ser respeitado e considerado.

 
ISTOÉ

 Projetos que desagradam a presidente Dilma passaram pela Câmara dos Deputados, hoje sob o comando de Eduardo Cunha. Vai ser um ano difícil para o governo no Congresso?

 
EDUARDO SUPLICY

 Esse foi um sinal de que ela vai ter muitas dificuldades. O chefe do Poder Executivo deveria estar sempre dizendo aos deputados e senadores para votarem de acordo com a sua consciência, com o que consideram a defesa do interesse público. E nunca porque tenha sido aceito a indicação de tal ou qual pessoa.

ISTOÉ

 O sr. é um entusiasta do “Volta, Lula”?

 
EDUARDO SUPLICY

 É mais do que legítimo que o presidente Lula seja candidato à Presidência da República. Há uma probabilidade alta de que ele possa ser nosso candidato em 2018.

 
ISTOÉ

 O partido vai conseguir limpar sua imagem até lá?

 
EDUARDO SUPLICY

 É muito importante que nós tomemos medidas para prevenir e corrigir os graves erros que foram cometidos, para que não se repitam.

 
ISTOÉ

 O que precisa ser feito?

 
EDUARDO SUPLICY

 Eu tive a honra de ser convidado pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, para ser o secretário de Direitos Humanos e Cidadania, o que aceitei com alegria. Precisamos dar o exemplo no cotidiano. Por exemplo, eu vou doar minha remuneração como secretário para a própria prefeitura. Por dois motivos. Do ponto de vista ético, o Brasil está precisando de exemplos em muitas áreas, em especial de todos aqueles que estão na administração pública.

 
ISTOÉ

 E o segundo motivo?

 
EDUARDO SUPLICY

 Quero destinar os recursos para o projeto que tanto acredito, o Renda Básica de Cidadania. É claro que eu poderia arrumar uma destinação em benefício próprio e da minha família, mas achei uma boa decisão.

 
ISTOÉ

 O sr.já disse que deseja falar com a presidente Dilma sobre o projeto. Há quanto tempo espera uma reunião?

 
EDUARDO SUPLICY

 Desde junho de 2013. Na  diplomação em 18 de dezembro de 2014 ela me deu um abraço e disse ‘é mais do que justo, vamos marcar’. Ainda não aconteceu. Mas estou na expectativa de ser chamado.

 
ISTOÉ

  Há possibilidade de implantação do Renda Mínima somente em São Paulo?

 
EDUARDO SUPLICY

 Em plenária em 2011 eu disse que, se o prefeito Fernando Haddad fosse eleito, eu iria implementá-lo com o governo estadual e federal. O candidato Fernando Haddad disse que tinha respeito à minha batalha e iria incorporar o meu objetivo. 

 
ISTOÉ

 Como o sr. avalia o Bolsa Família?

 
EDUARDO SUPLICY

 Foi um programa extremamente importante que ajudou o Brasil a efetivamente erradicar a pobreza extrema e absoluta. Mas não foi o suficiente e esse processo de diminuição da desigualdade socioeconômica ainda não se completou. As pessoas desistem de iniciar uma atividade com medo de ter uma remuneração e então perder o benefício. Ele pode ser melhorado.

 
 
ISTOÉ

  Continua fazendo exercícios físicos toda manhã?

 
EDUARDO SUPLICY

 Tenho aula de ginástica segunda e sexta-feira das 6h45 às 7h45. Há pouco mais de um ano fiz uma bateria completa de exames e perguntei ao médico: ‘estou com 73 anos, será que posso me candidatar para mais um mandato no Senado de oito anos?’. Ele disse que estou tão bem que posso me candidatar para o que quiser nos próximos 24 anos. 

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