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REFLEXÕES SOBRE MADAME WALKER

É preciso evitar a passagem de outro século antes que possamos nos orgulhar de uma sociedade mais equânime em termos de gênero e raça

Você já ouviu falar em Sarah Breedlove? Ela foi a primeira de sete irmãos nascida liberta numa família de escravos. Era o fim do século XIX nos Estados Unidos. Cinquenta anos depois, em 1917, Sarah havia se transformado em Madame C J Walker. E tornara-se a primeira milionária negra da América.

Antes de explicar o que a fez rica é preciso dizer que Sarah passou por tantos desafios quanto os que qualquer mulher negra enfrenta até os dias de hoje. Também no Brasil. Antes dos dez anos de idade já havia perdido pai e mãe. Eram trabalhadores braçais em lavouras de algodão e morreram de doenças que costumam vitimar a população negra e pobre. Sarah foi morar com uma irmã mais velha e casou-se aos 14 anos para livrar-se dos maus tratos do cunhado. Teve uma filha aos 17. Pouco depois ficou viúva, e sozinha mais uma vez.

Mudou-se para Boston para unir-se aos irmãos, empregados num salão de cabeleireiro masculino. Sarah conseguiu ali um posto simples. Sua função era lavar os cabelos dos frequentadores. E ela aproveitou com sabedoria e resiliência a primeira chance de toda a sua vida até então. Por causa do estresse que sofreu, Sarah havia perdido muito cabelo. Não encontrava remédio que a ajudasse a se sentir melhor com sua aparência. Usava alisadores nos fios, o que só piorava a queda.

Foi quando passou a estudar as fórmulas dos shampoos que conhecia no salão e pensar em produtos menos agressivos. Aquele seria o início de uma das mais bem sucedidas linhas de beleza para o cabelo dos negros
em toda a história dos Estados Unidos.

O próximo emprego de Sarah foi como revendedora de produtos de beleza. Estudou mais. Desenvolveu sua própria fórmula. Conheceu o homem que seria seu marido pelo resto da vida. E ele, publicitário, ajudou-a a vender sua ideia. Rodaram o sul do país formando grupos de representantes da marca. Em pouco tempo Sarah ergueu sua fábrica e uma linha de distribuição dos produtos Madame J C Walker, sobrenome de casada.

Madame Walker não abandonou sua origem. Em seu testamento deixou dois terços de sua fortuna para o que na época se conhecia como filantropia. Na verdade, o que Sarah queria era ver a autoestima feminina fortalecida. Principalmente a da mulher negra. Madame Walker morreu aos 51 anos de idade, em 1919. Quase um século atrás! Os problemas que ela identificou e contra os quais lutou, no entanto, ainda são os mesmos.

No Brasil, metade da população feminina é negra: 51 milhões de mulheres. Elas ganham menos que os homens e também menos que as mulheres brancas. Nas favelas, onde a maioria das mulheres é negra, 58% têm o primeiro filho antes dos 20 anos de idade! A mesma pesquisa, do Data Favela, diz que 21% dos lares nessas comunidades são chefiados por mães solteiras. E, assim como na época de Madame Walker, muitas dessas mulheres ainda têm dificuldade de adaptação a modelos de beleza midiáticos. Por isso a história dessa americana vencedora tem relevância na Semana da Mulher. Madame Walker promovia encontros pelos Estados Unidos para treinar suas representantes a vender mais do que cremes capilares. Ela queria que seu time estimulasse clientes empreendedoras, autônomas, orgulhosas de si mesmas e de suas decisões. Refletir sobre isso é evitar que se passe outro século antes que possamos nos orgulhar de uma sociedade mais equânime em termos de gênero e raça.

Ana Paula Padrão é jornalista e empresária


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