Medicina & Bem-estar

Uma cirurgia contra o TOC

Médicos brasileiros realizam procedimento cirúrgico para tratar casos graves de transtorno obsessivo compulsivo

Uma  cirurgia  contra  o TOC

Cerca de 4,6 milhões de brasileiros são portadores de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Caracterizada pela manifestação repetida de obsessões, compulsões ou de rituais, a enfermidade pode prejudicar intensamente a vida pessoal e profissional dos doentes. Há casos de pessoas que não conseguem cumprir seus compromissos nos horários, por exemplo, porque simplesmente repetem sem parar um ritual de lavagem das mãos. Em São Paulo, médicos do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital do Coração (Hcor), em parceria com o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, estão realizando um procedimento que pode servir como opção de tratamento para os casos mais graves.

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Trata-se de uma cirurgia realizada com um aparelho chamado Gamma Knife. O equipamento emite uma radiação precisa e reduz a atividade de um circuito de neurônios que, no caso da enfermidade, apresenta uma ação exacerbada. Ele faz a conexão entre o sistema límbico (associado à indução da repetição das atividades) e o córtex frontal basal (relacionado à lógica) – leia mais no quadro acima.
Dois pacientes foram submetidos ao procedimento. O primeiro tinha como manifestação mais importante a repetição obsessiva de rituais de limpeza. Em um dos episódios mais graves, não foi a uma consulta marcada com um especialista americano, nos Estados Unidos, porque não chegou a tempo. Ainda no hotel onde estava hospedado, não conseguia interromper a repetição dos gestos. O outro paciente tem a compulsão de checar diversas vezes o que faz. Chegou a parar em uma avenida e voltar seu carro em marcha à ré para verificar o que determinava uma placa de trânsito. Queria ter certeza de que estava fazendo o que mandava a regra. “Eram pacientes totalmente dependentes da família, pois não conseguiam trabalhar, dirigir ou ter um convívio social”, explica a médica Alessandra Gorgulho, chefe clínico-científica do Hcor Neuro.

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PREJUÍZOS
Segundo a médica Alessandra, os pacientes não
conseguiam trabalhar ou ter convívio social

O procedimento durou cerca de uma hora e meia e foi feito sob anestesia local. Os pacientes tiveram alta no mesmo dia. Cálculos matemáticos precisos realizados pelo equipamento permitiram a emissão dos raios gama exatamente no local necessário. Espera-se que a radiação demore entre seis a dezoito meses para atingir seu efeito total. Neste período, os dois continuarão tomando ansiolíticos, os remédios indicados contra a doença. Só então será possível verificar se eles poderão parar de receber a medicação.

A cirurgia já havia sido realizada no Brasil há alguns anos, em 18 pacientes, mas o aparelho não era tão moderno quanto o usado agora. Os estudos realizados à época também demonstraram que o método era eficaz, mas que precisaria ser aprimorado. Foi o que acabou sendo feito neste período, até a retomada de seu uso. No mundo, calcula-se que 150 pessoas tenham sido submetidas ao procedimento. No Hcor, o plano é expandir a disponibilidade do procedimento para cerca de vinte pessoas em até três anos. “Esperamos que eles atinjam uma qualidade de vida que os permita conviver em sociedade”, afirma Antonio de Salles, neurocirurgião chefe do Hcor Neuro e responsável pela aplicação da técnica.

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Foto: Shutterstock; Kelsen Fernandes/Ag. Istoé