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O homem da mala da Camargo Corrêa

Por quatro décadas, o administrador João Paulo dos Santos distribuiu US$ 300 milhões em propinas em nome da empreiteira Camargo Corrêa. Agora, aos 82 anos, depois de se sentir traído por dirigentes da empresa, ele resolveu abrir o jogo

O homem da mala da Camargo Corrêa

O PAGADOR

O contador e administrador de empresas João Paulo dos Santos, 82 anos, trabalhou de 1951 a 1993 na Camargo Correa. Graças à eficiência do seu trabalho, tornou-se um homem de confiança de Sebastião Camargo, fundador da empresa. Ele ocupava a sala ao lado do gabinete do presidente e logo conquistaria outro privilégio que dá a medida da relação estabelecida com o todo poderoso da Camargo: recebeu a senha do cofre da empresa. Depois de obter essa distinção, passou a gerenciar as contas bancárias de todas as obras tocadas pela empreiteira. Oficialmente, Santos ocupou a diretoria financeira da empresa. Sua tarefa mais importante, porém, não foi registrada no expediente. Por razões óbvias. Santos era o homem da mala, responsável pelo Caixa 2 que abastecia contas bancárias de políticos graúdos.

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O PAGADOR
"Fui no Palácio dos Bandeirantes três vezes. Era um risco desgraçado porque
eu entrava com o dinheiro lá dentro", afirmou João Paulo dos
Santos, que distribuía propinas pela Camargo Corrêa

Em entrevista exclusiva à ISTOÉ, João Paulo dos Santos narra os detalhes dos pagamentos, indica contas bancárias e diz que, por três vezes, entrou com US$ 1 milhão em “maletas 007” no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Segundo o contador, os peemedebistas Orestes Quércia e Luiz Antonio Fleury Filho usavam intermediários para receber a propina, mas Paulo Maluf gostava do dinheiro em mãos. Na casa do político, conta Santos, uma poltrona com fundo falso era usada para esconder os pacotes recheados de dinheiro. “Eu paguei mais de US$ 300 milhões em propinas”, afirma. O ex-diretor relata que, no governo do ex-presidente Fernando Collor, PC Farias marcou um audiência com o dono da Camargo para negociar o caixa 2. Mas a transação não saiu. “O PC Farias disse que queriam tocar algumas obras e exigiram 23% de comissão. O dr. Sebastião mandou ele para aquele lugar.”

A engrenagem da corrupção detalhada por João Paulo dos Santos impressiona. A prática de superfaturar planilhas para pagar propinas, segundo ele, foi usada pela Camargo na construção da barragem do Lago Paranoá em Brasília, na hidrelétrica de Itaipu, na ponte Rio-Niterói e em inúmeras rodovias federais e estaduais, além de pontes, viadutos e túneis. O túnel do Jóquei Clube, por exemplo, teve seu custo reajustado de US$ 40 milhões para mais de US$ 90 milhões na gestão de Paulo Maluf. O valor embutiu comissão para o então prefeito. “Foram 10% de propina para o Maluf. O primeiro pagamento eu fiz pessoalmente”, afirma.

Em novembro do ano passado, após a prisão dos dirigentes das empreiteiras, Santos procurou o Ministério Público de São Paulo. Narrou os crimes ao promotor Augusto Rossini, que deve abrir um inquérito sobre o caso nos próximos dias. Do ponto de vista penal, os crimes já prescreveram. Mas, segundo ele, ainda é possível obter o ressarcimento do que foi desviado. A delação tardia de Santos não tem nada a ver com arrependimento.

A cúpula da Camargo Corrêa acusa o ex-diretor de inventar denúncias de propina para tentar extorquir a empresa. “Este senhor procurou a companhia, alegando ser credor de uma dívida que lhe teria sido prometida no passado. Um empréstimo que não deveria ser pago. Mas não há qualquer procedência nisso”, diz o advogado Celso Vilardi. Segundo ele, Santos gravou fitas e tem usado as mesmas para pressionar a cúpula da empreiteira. “É uma leviandade. Ele não tem provas do que diz”, diz Vilardi. ISTOÉ procurou Maluf e Fleury. Maluf não retornou contato até o fechamento desta edição. O ex-governador Fleury diz que não conhece João Paulo dos Santos e ameaça processá-lo. “Não havia nenhum esquema desse tipo no meu governo. É uma coisa fantasiosa, uma bobagem imensa. Ele que prove, que demonstre as acusações. Esse João Paulo tem que fazer um teste de suas faculdades mentais para saber se está tudo em ordem”. 

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Segundo ISTOÉ apurou, João Paulo dos Santos sempre foi reconhecido nos meios empresariais paulistas como um executivo ligado pessoalmente a Sebastião Camargo. Também tinha fama por sua discrição. Hoje ele não esconde as razões que o levaram a abrir o jogo. A principal delas é que diz ter se sentido traído pelos executivos da empreiteira. De acordo com Santos, depois de quatro décadas de uma relação de confiança, Sebastião Camargo lhe prometera um empréstimo a fundo perdido para ajudá-lo a terminar a construção de um hotel fazenda no interior de São Paulo. Após a morte do patrono do grupo, ele pegou o dinheiro, cerca de US$ 160 mil, no Banco Geral do Comércio. Deu como garantias sua própria residência e o hotel fazenda. Quando o banco da Camargo foi vendido ao Santander, a dívida foi transferida e, em seguida, executada judicialmente, apesar dos apelos feitos por Santos aos herdeiros de Sebastião para que honrassem o acordo. Sem dinheiro para quitar a dívida, o contador perdeu a casa e o hotel, que vai a leilão pela terceira vez. Decidiu, então, revelar tudo o que sabia.

ISTOÉ – Quando o sr. começou na Camargo Correa?
João Paulo dos Santos –
Eu entrei em 1951, como vice-presidente financeiro da Companhia Jauense Industrial, empresa da Camargo. Daí fui acumulando cargos. Em 1988, vim para São Paulo. O dr. Sebastião (dono e fundador da Camargo Correa) queria que eu cuidasse dos assuntos particulares dele. Então comecei a organizar as coisas, fiz carreira no grupo. Eu tinha uma cota igual a dos genros de Sebastião. Fiquei lá de 1982 a 1990. Em 1990, saí para assumir a direção financeira da Camargo Correa. Até 1993, só eu e o Sebastião assinávamos as licitações. Em 1993, eu saí.

ISTOÉ – Por que ?
João Paulo –
Estava construindo um hotel em andamento. Em 1994, o Sebastião me chamou para uma reunião. “João, preciso de você aqui na Camargo”. Eu disse que não dava, que o hotel estava quase pronto e perguntei qual era problema. Ele me pediu para assumir um assento no Conselho do Banco Geral do Comércio no lugar de um dos genros. ‘Você vai lá para vigiar, para não dar besteira’, disse-me. Fui eu que iniciei a venda do banco. Primeiro ofereci ao Bradesco, depois para o Unibanco. Acabou sendo vendido mais tarde para o Santander. Em vez de voltar, acertei com ele de ir um dia só e disse que poderia precisar de US$ 100 ou 200 mil para terminar o hotel. Ele concordou em me dar o dinheiro.

ISTOÉ – Era uma doação, então?
João Paulo –
Era um contrato de mútuo. Assunto nosso. O Sebastião falava: “é assunto meu e do João”. O Sebastião morreu naquele ano de 1994. Continuei no conselho do banco até 1996. Fiz o empréstimo de 163 mil dólares. Como membro do conselho, achei que tinha de dar o exemplo. Meu hotel e minha casa entraram como garantia. Saí do banco em 1996. Um belo dia, recebi a carta de cobrança do Santander.

ISTOÉ – E qual foi sua reação?
João Paulo –
Numa missa de sétimo dia de algum parente deles, eu fui e reclamei com os genros. “Agora é tarde”, me falou um deles. Quando me convidaram a dar um depoimento ao Museu da Memória da Camargo Corrêa, eu me dei conta de que não podia deixar aquilo assim. Então gravei três fitas com a história do grupo. Numa quarta fita, falei sobre os pagamentos que fiz a políticos.

ISTOÉ – A Camargo alega que o sr. não tem provas do que fala.
João Paulo –
Não, mas tenho toda a história que vivi. Eu tratei pessoalmente com governadores e prefeitos. E, antes disso, eu que gerava a receita para todos esses outros casos de obras de fachada.

ISTOÉ – Só o sr. pagava propina ou os demais diretores pagavam também?
João Paulo –
Os diretores? Sim. Eu é que gerava a receita. O diretor chegava, apresentava uma planilha da obra, vai custar tanto, tem que pagar por mês tanto. Eu é que preparava isso. Eu tinha as contas correntes de todas as obras.

ISTOÉ – Para gerar o caixa dois essas planilhas eram superfaturadas?
João Paulo –
Com certeza. Mas eu não fazia nada frio, nem contrato, nem nota fiscal, porque acabavam pegando. Pegaram uma vez, antes do meu tempo como diretor financeiro. Eu não permitia isso.

ISTOÉ – Usavam doleiro?
João Paulo –
Deixa eu te falar. Quando entreguei meu cargo em 1993, eu passei a bola para outras pessoas, uma delas era um dos genros. Eu falei claramente, expliquei tudo como era feito. E me lembro que falei: “nunca se metam com doleiro, com terceiros, na história”. Use o banco, que o banco fica comprometido também. No nosso caso era o Swiss Bank. Foi uma das recomendações que fiz e não acataram.

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O pagador de propinas era homem de confiança de Sebastião Camargo

ISTOÉ – Só usavam o Swiss Bank?
João Paulo –
Era um dos bancos que eu mais operava. Tinha uma conta lá fora. Eu sacava aqui no Brasil e recebia os dólares aqui no Brasil, lá no escritório na Camargo, na minha sala. O Kurt Pickel (chefe do escritório do Swiss Bank Corporation no Brasil, preso na Operação Castelo de Areia) é que levava e depois eu entregava aos políticos. Usava sempre o recurso do Swiss Bank, ou depósito lá fora, ordem de pagamento, ou dinheiro em espécie aqui. É mais ou menos como uma operação de dólar-cabo. Usamos uma empresa lá fora. Esse dinheiro nunca aparecia na Camargo, não entrava na contabilidade da companhia. Eu recebia um dinheiro que não estava em lugar nenhum. E tinha operação oficial também.

ISTOÉ – Quando o sr. começou a pagar a propina? Como foi a primeira vez?
João Paulo –
Foi no governo Orestes Quércia. Com o Otavio Ceccato (ex-secretário da Indústria e ex-presidente do Banespa). Eu fazia ordem de pagamento para contas que ele indicava, na Espanha, na Inglaterra. Uma vez por mês a gente se encontrava para eu entregar o comprovante do depósito. Era US$ 1,55 milhão por mês. Foi assim até o final do governo.

ISTOÉ – Depois do Quércia, assumiu o Fleury. O esquema continuou?
João Paulo –
Sim. A primeira conversa foi com o Lilico (capitão Frederico Pinto Coelho Neto), irmão do Fleury. Eu fui no Palácio dos Bandeirantes três vezes. Era um risco desgraçado porque eu entrava com o dinheiro lá dentro. Eu falei com Sebastião. Boto um milhão de dólares no porta-malas do meu carro, tudo bem. Mas e se acontece algum acidente? Alguém me rouba? Fui três vezes lá na sala dele. Se pagava US$ 2 milhões a Camargo, a gente devolvia US$ 200 mil de comissão.

ISTOÉ – Quantas vezes o Lilico foi ao seu escritório?
João Paulo –
Ele foi umas três ou quatro vezes. Teve uma vez que levei também uma maleta para o presidente da CESP. Fomos jantar no Don Curro. Levei US$ 700 mil na maleta.

ISTOÉ – Quem sabia desses pagamentos, além do sr. e do Sebastião?
João Paulo –
O diretor da área, porque ele tinha que dar as informações sobre a obra. A área comercial e de engenharia. Geralmente a área comercial é que trata do assunto.

ISTOÉ – Se esses pagamentos eram feitos no âmbito estadual e municipal, como ficava o federal?
João Paulo –
Teve um episódio com o PC Farias. Ele foi lá bem cedo, por volta das 7h. Dessa vez, o Sebastião estava presente. O PC Farias entrou e o Sebastião perguntou o que eles estavam pretendendo. Ele disse qual obra era e que queria 23% de comissão. Sebastião mandou ele para aquele lugar. Estava só eu, ele e o Sebastião. Nunca comentei com ninguém.

ISTOÉ – E nos governos Itamar Franco e José Sarney?
João Paulo –
No Itamar não teve nada. Não lembro de ter havido pagamento para o Sarney nessa época. Tinha muita ajuda para campanha de parlamentar também, mas disso eu não participava. O Sebastião era um homem de pouca conversa. Eu vi ele sair da linha três vezes. Uma com o PC, outra com o irmão e outra com o Jânio Quadros. O Jânio era outro também né?! Quando ele saiu da presidência, veio para a Prefeitura, começou a fazer os túneis em São Paulo. Ele ficou mal de grana uma época. De vez em quando beliscava. O Sebastião se encheu disso e fechou a torneira. Ele insistiu por telefone, queria receber propina retroativa por obras federais. O Sebastião xingou ele e desligou.

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ISTOÉ – Qual foi o túnel que o Jânio construiu?
João Paulo –
O Jânio começou a construir o túnel do Jóquei Clube, que hoje se chama Sebastião Camargo. Ele saiu, ficou uma fatura pendente de US$ 11 milhões. Tinha ainda obra para fazer. Quem entrou foi a Erundina e aí ela não fez nada, não colocou um metro de túnel. Parou todas as obras. Aí, ela saiu e entrou o Maluf. Uma das promessas de campanha era terminar o túnel. Ele ganha a eleição e, uma semana depois, o Pitta me chama. Começamos a conversar e ele falou: “Me explica como é esse negócio de obra que eu não entendo nada!” Era um cara legal. Dez dias depois, ele me chamou de novo. Combinamos tudo. A Erundina tinha deixado 200 milhões de dólares em caixa. Ele pegou a fatura que eu tinha levado e mandou liquidar os US$ 11 milhões na hora. Aí fizemos um reajuste do saldo da obra, que era US$ 40 milhões. Reajustou para 90 milhões e no reajuste incluímos os 10%.

ISTOÉ – E o primeiro pagamento da propina para o Maluf foi quando?
João Paulo –
Eu que levei o primeiro pagamento na casa do Maluf. Foi num final da tarde. Tinha um escritório fora da casa. Entrava pela garagem. Nesse dia acho que foi US$ 700 mil. Esse eu entreguei diretamente para o Maluf. Depois não sei quem ficou responsável por levar.

ISTOÉ – De todos que receberam propina, o Maluf foi o único a dispensar intermediários?
João Paulo –
Ele gostava de receber diretamente. Foi assim desde o tempo do regime militar. Tinha as ORTN (Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional) ao portador. Negociava-se no mercado. Essas ORTNs eram aceitas em qualquer lugar. A inflação era diária. Sobrava caixa 2. Eu tinha uma sala cheia dessas ORTNs. A gente levava para ele diretamente. O Maluf tinha uma poltrona com fundo falso. Pegava o pacote, levantava um pouco, jogava dentro, e sentava de novo.

ISTOÉ – O sr. sabia que estava fazendo algo errado?
João Paulo –
Eu tinha medo, receio de dar problema. Mas se recusasse, perdia o emprego. Minha relação com o Sebastião era diferente. Olhando hoje esses diretores das empreiteiras presos, acho um absurdo. Os donos é que tinham de estar presos, não os diretores. Os diretores apenas cumprem ordem, fazem ali o papel deles.

ISTOÉ – Na sua época havia pagamento de propina na Petrobras?
João Paulo –
Nunca soube de nenhum contrato com a Petrobras naquela época. Fiquei até surpreso quando começaram a surgir essas denúncias todas. Mas começou a partir de 2000 e pouco para cá. Se existia, era coisa pequena e não passou por mim.

ISTOÉ – Dos que estão presos, quem o senhor conhece?
João Paulo –
O João Auler é do meu tempo. Mas ele é empregado. Na minha época, trabalhava em Guarulhos. Ele é funcionário de carreira. Mas não sei de envolvimento dele.

ISTOÉ – Como era a relação da Camargo com as outras empreiteiras? Havia cartel?
João Paulo –
É uma boa pergunta. Teve uma reunião do conselho, acho que em 1991 ou 1992. Um diretor, ligado a um dos genros, pediu para colocar na pauta uma discussão sobre formação de cartel. Eu reagi, falei para tirar aquilo. “O Sebastião não vai gostar”, disse. Eu sabia o que ele pensava. Mas insistiram. No meio da reunião, explicaram tudo e o Sebastião declarou: “A Camargo Corrêa não precisa fazer cartel com ninguém. Ela é independente”. Ele sempre foi contra cartel. A Camargo também não pagava para os políticos para ganhar obra. Era apenas praxe para ter facilidade. Para evitar que criassem dificuldade.