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As promessas não cumpridas de Haddad

Após dois anos de mandato, o prefeito de São Paulo não consegue cumprir nem 15% de seu programa de 123 metas e abandona as promessas de privilegiar uma gestão técnica, nomeando políticos de olho na reeleição em 2016

As promessas não cumpridas de Haddad

Só nas intenções

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Só nas intenções
O prefeito Fernando Haddad só concluiu 16 das 123 metas
até agora. Até os projetos para a Educação, em tese
sua especialidade, andam a passos lentos

Após ser empossado, em 2013, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), desfiou um rosário de promessas. A principal delas consistia em cumprir 123 metas até o fim do mandato. Outro objetivo era o de fazer uma gestão técnica, na contramão da administração do seu antecessor, Gilberto Kassab (PSD). Tudo o que foi dito há dois anos não passou de um protocolo de intenções. Passada metade de seu mandato, apenas 16 itens do programa de metas do petista foram concluídos – 13% do total. O privilégio a uma composição técnica também ficou apenas na promessa. Orientado pelo ex-presidente Lula, Haddad já começa a montar o palanque para a campanha à reeleição em 2016. Incorporou ao seu secretariado o político Gabriel Chalita (Educação) e, na última semana, Eduardo Suplicy (Direitos Humanos) e Alexandre Padilha (Relações Governamentais), numa ação que contrariou setores do próprio PT.

A nomeação de Chalita atende a uma reivindicação do PMDB e pode neutralizar uma eventual candidatura patrocinada pelo partido nas eleições municipais do próximo ano. Se garantir a adesão do PMDB, além do apoio político da legenda, Haddad amplia o seu tempo na propaganda eleitoral na TV. “É o desejo de aproximação para consolidação de um projeto”, afirmou o prefeito durante a posse de Chalita. “A aliança é parte de um interesse de somar forças”, acrescentou. Já os convites para Suplicy e Padilha ocuparem o primeiro escalão municipal seriam um gesto destinado a pacificar alas do próprio PT descontentes com a administração até agora e que poderiam debandar na esteira da provável saída de Marta Suplicy da legenda. Em outra estratégia meramente eleitoreira, Haddad contemplou um aliado do antigo desafeto, Gilberto Kassab, no Turismo. Trata-se de Marco Aurélio Cunha, do PSD. No dia 9, Haddad e Kassab se encontraram na sede da prefeitura. 

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OPOSIÇÃO NO ATAQUE
A única prioridade do prefeito do PT é "grafitar paredes
e fazer ciclovias", diz o tucano Andrea Matarazzo 

Enquanto Haddad tenta se blindar politicamente, de olho nas eleições de 2016, seus projetos para a cidade andam a passos lentos. Das metas em andamento, 81 estão abaixo dos 50% de execução. Em dezembro de 2014, Haddad já havia admitido “deslizar para frente” alguns dos objetivos divulgados para conclusão até o fim do próximo ano. Nem os projetos para a Educação, setor que comandou no governo Lula, foram cumpridos. Dos seis objetivos traçados para a área, apenas um foi concluído, outro está com 69% em andamento e quatro abaixo dos 50%. Entre as metas com menor desempenho está a criação de creches. Haddad havia prometido construir 243 Centros de Educação Infantil (CEIs) – para crianças de 0 a 3 anos. Contudo, apenas 26 foram entregues, nove estão em construção e 49 em processo de licitação. O objetivo também era o de entregar 65 novas Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis), mas até agora apenas 16 foram concluídas e oito estão em obras. A promessa de criação de 150 mil vagas no ensino infantil, um dos principais compromissos firmados por Haddad durante a campanha, também dificilmente será alcançada. A prefeitura abriu até agora 33,5 mil vagas.

Na Saúde, Haddad prometeu construir três novos hospitais e reformar e construir 25 pronto-socorros, mas os hospitais ainda estão em processo de licitação e apenas uma unidade de pronto-socorro foi reformada, segundo dados do site oficial da prefeitura, Planeja Sampa. De acordo com a Secretaria de Comunicação de São Paulo, o site é atualizado de quatro em quatro meses e as informações estariam defasadas, mas não especificou o que foi feito entre outubro de 2014 e janeiro de 2015. Em nota, a prefeitura informou ainda que “a administração deixou de aplicar cerca de R$ 2,5 bilhões em diversas ações planejadas para 2013 e 2014 em função do impedimento para atualizar a Planta Genérica de Valores nos imóveis da cidade, com impacto na arrecadação de IPTU, e do congelamento das tarifas de transporte”. A bancada da oposição na Câmara dos Vereadores diz que a única prioridade do prefeito do PT é “grafitar paredes e fazer ciclovias”. “A prefeitura e o prefeito não têm prioridades. Ele fez esse plano de metas mais como cunho eleitoral do que como metas factíveis. Ou seja, jogou para a torcida. Ele não conhece absolutamente a prefeitura, a equipe não tem condições de operacionalizar as coisas. Tudo isso mostra que a prioridade do prefeito é grafitar as paredes e fazer ciclovias.

E, na prefeitura, se você não tiver objetivos claros e não monitorar os projetos, as coisas não acontecem”, afirmou à ISTOÉ o vereador Andrea Matarazzo (PSDB). Não bastassem os problemas de execução dos programas, Haddad arrumou uma maneira de empregar três amigos do filho, Frederico. Recém-formados em direito, eles vão receber salário de R$ 3,3 mil como assessores técnicos da prefeitura. Alexandre Rebêlo Ferreira e André Correia Tredezini, dois dos nomeados, eram colegas de Frederico Haddad, 22 anos, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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Fotos: Marlene Bergamoi/Folhapress; Marcos Bezerra/FUTURA PRESS