Editorial

Obama faz história

Obama faz história

O histórico reatamento das relações dos EUA com Cuba estabelece uma nova ordem no tabuleiro da diplomacia global. Como último resquício da Guerra Fria, o bloqueio político e econômico convertia a ilha de Fidel em um território inexpugnável do comunismo, umbilicalmente dependente dos russos e de países simpatizantes do bolivarianismo, como a Venezuela, que ainda enxergam os EUA como o inimigo a ser vencido. Na jogada de mestre para normalizar as relações, Obama tenta uma nova abordagem que pode pôr fim a décadas de animosidade na região, com reflexos positivos para todos os envolvidos. O embargo econômico ainda deve vigorar por mais algum tempo – afinal, só pode ser derrubado pelo Congresso americano –, mas a simples sinalização de entendimentos de lado a lado encoraja o mundo a imaginar que uma era de diálogo propositivo está se iniciando no concerto das nações. Estava mais do que claro que as medidas restritivas impostas a Cuba alimentavam por inércia a permanência do regime, que, de mais a mais, se tornou anacrônico nos dias de hoje. Os defensores da ditadura local tinham na retaliação externa o argumento ideal para levar adiante sua política. Cuba atualmente se debate contra o atraso. Enquanto ainda impõe à população um estado repressivo e cerceador de direitos, esforça-se para viabilizar avanços de outra natureza. O atual presidente, Raúl Castro, irmão e sucessor do líder revolucionário Fidel Castro, empreendeu de uns tempos para cá medidas que permitiram alguns benefícios básicos aos cubanos, como a aquisição de carros e imóveis. Porém, a maioria das mudanças esbarra na limitação de recursos e no baixo desenvolvimento interno. A reabertura de diálogo com os EUA, após a quase falência dos aliados históricos, como Rússia e Venezuela, serve ao intento de Raúl. Barack Obama, por sua vez, na reta final de mandato, pode cravar a pacificação como grande marca de seu governo. Os sinais dados até aqui pelos dois líderes são animadores não apenas como demonstração do fim das hostilidades. Além de liberarem presos políticos e discutirem o restabelecimento das embaixadas já a partir do próximo ano, eles vão emanar esforços conjuntos para a retomada, no mais curto espaço de tempo, das transações comerciais e financeiras entre os dois países, com reflexos difusos pelo mundo todo, Brasil inclusive. Um grande marco.