Brasileiros do Ano 2014

Artur Avila

Ganhador da medalha Fields, considerada o prêmio Nobel da matemática, o pesquisador de 35 anos espera que sua conquista inspire os jovens a ver as ciências com outros olhos

Artur Avila

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Se uma nação se faz com heróis, o Brasil moldou boa parte da sua identidade com a força e a raça de ídolos esportivos, como o piloto Ayrton Senna e o Rei Pelé. Mas, desde agosto, o País pode se orgulhar de ter também um herói de projeção internacional num campo em que costuma perder de lavada nos rankings internacionais: a matemática. Naquele mês, em Seul, na Coreia do Sul, o carioca Artur Avila, 35 anos, foi laureado com a medalha Fields, considerada o Prêmio Nobel da matemática e entregue apenas a pesquisadores que conseguem surpreender a comunidade científica antes dos 40 anos. Considerado prodígio desde o ensino fundamental, Avila, escolhido por ISTOÉ Brasileiro do Ano em Ciências, teve uma carreira meteórica. Ganhou sua primeira medalha de ouro aos 16 anos, na Olimpíada Internacional de Matemática. Por ser um aluno extraordinário, um ano depois entrou e concluiu o mestrado no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Ao mesmo tempo que obtinha o diploma de graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), defendeu o doutorado, em 2001, quando pôde validar os diplomas de pós-graduação. Tornou-se o profissional mais novo a assumir a direção de pesquisa no conceituado Centro Nacional de Pesquisas Científicas de Paris, aos 29 anos.

O foco de seu trabalho é uma área da matemática conhecida como sistemas dinâmicos – estuda-se o caos dentro de um sistema. Mais especificamente, Avila usa equações para compreender sistemas quânticos. Dessa relação entre física e matemática surgiu “o problema dos dez Martinis”. A questão busca demonstrar um padrão matemático nas variações energéticas de elétrons e ganhou esse nome porque o pesquisador polonês Mark Kac ofereceu a generosa dose a quem conseguisse resolvê-la. Infelizmente, ele faleceu em 1984 e não poderá pagar a aposta a Avila.

Da mesma forma que as jogadas geniais de Pelé e a sede de vitória de Senna até hoje encantam as novas gerações, o diretor do Impa, César Camacho, acredita que o prêmio de Avila terá impacto no futuro: “Com certeza o número de matemáticos formados no Brasil vai aumentar e pesquisadores de fora passam a ter o instituto como referência de berço de vencedores”, diz ele, para quem Artur foi um prodígio encontrado pelo Impa. O jovem cientista também confia que sua conquista irá inspirar os mais jovens. “Espero que esse prêmio mude a forma como as pessoas veem a ciência, especialmente a matemática, no Brasil. Temos institutos de pesquisa de ponta que ombreiam com os da Europa”, diz. Uma vez no olimpo, passou a ser paparicado. Teve, inclusive, encontros com os presidentes dos dois países onde vive – François Hollande, da França, e a brasileira Dilma Rousseff.

Desde 2008, Avila era cotado para receber a condecoração Fields. Na primeira candidatura, chegou a somatizar a pressão em forma de gastrite. “Levei mal a situação, passei a dormir pior, é muito cansativo ter que fazer publicidade do seu trabalho”, diz. Em 2010 optou pela própria saúde, passou a se exercitar, aproveitar melhor suas duas cidades, Rio e Paris, e focar apenas nas pesquisas que mais o interessavam, sem pressa de publicar artigos. O resultado veio com o tempo.

Avila estudou em tradicionais colégios cariocas. Dos tempos de juventude, abandonou a postura encurvada e os óculos, mas ainda guarda a voz baixa, os cabelos desgrenhados e o olhar focado no infinito, enquanto escolhe cuidadosamente as palavras antes de falar. Sua vida acadêmica começou no São Bento e, em 1991, mudou-se para o Santo Agostinho. A transferência causou rebuliço na nova escola. “Corria no colégio a história de que vinha um pequeno gênio da matemática. Era minha primeira turma de ensino médio”, lembra a professora Cristiane Guedes, 46 anos.  Ela fazia mestrado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), enquanto Avila fazia o dele no Impa. “Cada vez que ele levantava a mão, eu tremia com medo da pergunta. Mas sempre era muito discreto, me chamava na carteira dele e sugeria novas e brilhantes formas de resolver as questões”, conta Cristiane. Eram soluções mais criativas e eficientes do que as tradicionais, mas que, de tão sofisticadas, ele não tinha como dividir com a turma. Hoje, o herói brasileiro da matemática compartilha com o mundo o seu conhecimento.

Foto: Stefano Martini