Cultura

A cor de Moisés

Acusado de privilegiar artistas brancos em sua versão para a história do profeta, Ridley Scott diz que com atores africanos não teria como financiar a superprodução de US$ 140 milhões

A cor de Moisés

LINHA DIRETA Christian Bale na pele de Moisés, o líder que recebeu os mandamentos de Deus ()

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LINHA DIRETA
Christian Bale na pele de Moisés,
o líder que recebeu os mandamentos de Deus

O homem branco sempre foi o herói em Hollywood. E, no que depender de “Êxodo – Deuses e Reis”, fime de Ridley Scott que estreia esta semana, os caucasianos continuarão reinando nas telas, apesar das acusações de racismo que a superprodução recebe desde o anúncio do elenco. Até uma petição online foi criada, o site change.org, incitando o boicote ao filme que reconta a saga de Moisés para libertar os judeus da escravidão no Antigo Egito. A escolha de atores ingleses, australianos e americanos para os papéis de africanos (enquanto os negros interpretam apenas os serviçais e os escravos), desagradou religiosos, historiadores e até os cinéfilos.

“Que diferença faz a cor da pele, desde que todos sejam tratados com respeito?”, disse o inglês Christian Bale, escolhido por Ridley Scott para encarnar Moisés. Para personificar o profeta que conduziu o povo de Israel até a Terra Prometida, o ator leu três vezes o Antigo Testamento. “Nosso filme não poderia ser mais contra a segregação racial, já que o papel de Moisés foi justamente o de libertar o povo hebreu da escravidão imposta pelos egípcios, que se consideravam superiores”, completou Bale, em entrevista à ISTOÉ, concedida no hotel Le Bristol, de Paris. Bale é apenas mais um branco que interpreta o líder religioso que, segundo a “Bíblia”, recebeu no Monte Sinai as Tábuas da Lei de Deus, contendo os Dez Mandamentos.

O bronzeamento artificial foi um dos recursos usados para escurecer sua pele alva e de outros atores do elenco principal (como o australiano Joel Edgerton, no papel de Ramsés, e os americanos Aaron Paul, como Joshua, e Sigourney Weaver, como Tuya). “Se eu tivesse escolhido atores africanos para contar essa história, o filme jamais teria sido financiado”, justificou o diretor britânico, que precisou de US$ 140 milhões para lembrar o episódio da libertação dos 400 mil escravos judeus com toda a pompa nas telas.

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UTOPIA
Segundo Ridley Scott, contratar atores africanos inviabilizaria o filme

“Quase toda a iconografia da “Bíblia” foi, ao longo dos anos, representada por pessoas ocidentais e brancas. O mesmo vale para as centenas de filmes hollywoodianos baseados nela”, disse o canadense Sean Purdy, professor de história dos Estados Unidos na Universidade de São Paulo (USP), desde 2006. “Certamente isso aconteceu mais por ignorância da realidade dos tempos do Velho Testamento do que por racismo”, completa. Escalar atores que representem fielmente o tipo físico dos personagens bíblicos é impossível, de acordo com Afonso Soares, cientista da religião da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). “Como saber, sem sombra de dúvida, as nacionalidades e as raças de figuras tão míticas? Mesmo que houvesse a assessoria de um esquadrão ecumênico de especialistas em “Bíblia”, o filme continuaria polêmico”, afirma. É preciso considerar que a literatura bíblica antiga foi escrita quase toda em hebraico, uma língua ritual e simbólica e repleta de trocadilhos, formas poéticas e entrelinhas. “Um leitor contemporâneo jamais perceberá tudo. Soares lembra que filmes como “A Última Tentação de Cristo” (1988), de Martin Scorsese, e “A Paixão de Cristo” (2004), de Mel Gibson, também geraram polêmica por questões interpretativas, que não se relacionavam com a cor da pele dos intérpretes.

Sob a ótica de Scott, o Livro do Êxodo é a história de dois irmãos, Moisés e Ramsés, que se enfrentam para definir o destino do Egito. Embora tenha sido adotado pela família do faraó e crescido junto com Ramsés, Moisés é banido assim que sua origem judaica é descoberta. Depois de passar anos em exílio, período em que se casou com Zípora e teve um filho, Gérson, ele é encarregado por Deus (representado aqui como um menino) para libertar o povo de Israel. Ao retornar ao Egito, Moisés monta um exército contra Ramsés, agora faraó, o que desencadeia uma guerra, uma série de pragas e a famosa travessia do Mar Vermelho. “Antes de mais nada, vejo essa passagem bíblica como uma revolução social. E foi isso que mais me instigou a reconstituí-la”, disse Scott, agnóstico.

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IGNORÂNCIA
Para especialista, a iconografia bíblica costuma ser representada
por ocidentais e brancos mais por desinformação que por racismo 

Foto: Divulgação