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Somos todos americanos

Retomada histórica das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba abre caminho para o fim do embargo econômico e pode trazer frutos para todo o continente

Somos todos americanos

LINHA DIRETA

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A repórter da ISTOÉ Mariana Queiroz Barbosa explica
o que muda após essa reaproximação histórica

 

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LINHA DIRETA
Pela primeira vez desde o rompimento das relações,
um presidente americano, Obama, conversou com
um presidente cubano, Raúl Castro, por telefone. 

No final de março, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se reuniu com o Papa Francisco, no Vaticano, durante menos de uma hora. De acordo com as informações oficiais, eles dialogaram sobre as dificuldades para combater a crescente pobreza no mundo. Na semana passada, Obama revelou o verdadeiro teor da conversa: a retomada das relações diplomáticas com Cuba, encerradas há mais de 50 anos. Nos últimos nove meses, o papa escreveu a Obama e ao presidente cubano, Raúl Castro, encorajando-os à reaproximação. O resultado desse esforço agora faz parte da história. “Hoje começamos um novo capítulo da relação entre os dois países”, disse Obama na quarta-feira 17. “Somos todos americanos.” Naquele momento, três ex-prisioneiros cubanos acusados de espionagem pelos EUA eram recebidos como heróis em Havana, e dois americanos, então presos na ilha, deixavam Cuba em direção a seu país de origem. “Essa decisão do presidente Obama merece respeito e reconhecimento pelo nosso povo”, afirmou o presidente Castro.

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Ainda que a reconciliação com Cuba estivesse no discurso de Obama desde a sua chegada à Casa Branca, em 2009, e circulasse há meses nos bastidores de Washington, a notícia não era esperada em 2014 – mesmo ano em que os saudosos da Guerra Fria pareciam estar ganhando novo fôlego com a polarização entre EUA e Rússia no Leste Europeu. “Obama entrará para a história como a pessoa que reverteu um erro histórico, uma política que falhou sob 11 presidentes”, disse à ISTOÉ Eric Hershberg, diretor do Centro de Estudos Latinos e da América Latina da Universidade Americana, de Washington. “Ao remover o pior exemplo da maneira antiga de os EUA lidarem com a América Latina, ele deu um passo mais ambicioso do que podíamos imaginar.” Entre as medidas que entrarão em vigor estão o aumento do limite de remessas a Havana, a flexibilização das regras de viagens à ilha (ainda que o turismo não entre nas categorias autorizadas), a regularização de cartões de crédito e débito americanos no país e a retirada de Cuba da lista de Estados considerados “patrocinadores do terrorismo.” O acordo deve culminar com a abertura de uma embaixada americana em Havana nos próximos meses.

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Cubanos foram às ruas de Havana comemorar a notícia

Esse deverá ser o terceiro ponto de inflexão num relacionamento marcado por dois momentos distintos. Durante o processo de independência de Cuba, entre 1895 e 1898, os americanos tiveram papel preponderante e ajudaram os cubanos a lutar contra a Espanha pela libertação da ilha. “Logo após a independência, os EUA eram o maior importador do açúcar produzido em Cuba, e os dois países mantinham amplas relações econômicas e diplomáticas”, diz Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Universidade Estadual Paulista. Naquela época, a ilha era um lugar desigual e degradado, cheio de cassinos e bares frequentados por americanos.

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FICOU NO PASSADO
Presidente dos EUA no início dos anos 60, John F. Kennedy
endureceu a postura em relação a Cuba ao assinar o embargo econômico. 

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Na época, Fidel Castro nacionalizou
ativos americanos e se aproximou da União Soviética

A situação se inverteu quando, por conta da revolução socialista, Cuba adotou uma série de medidas radicais e estatizou sua economia. Os EUA reduziram a cota de importação do açúcar e os cubanos se aproximaram da ex-União Soviética. O bloco socialista considerava estratégica a posição do país caribenho, separado por 140 quilômetros dos EUA, para sua influência na América. A tensão aumentou nos anos 60, com uma tentativa de golpe contra o regime de Fidel Castro e a aprovação de uma série de leis com o objetivo de sufocar a economia da ilha. Começava o embargo econômico que, desde então, impôs perdas de US$ 1 trilhão a Cuba.

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MEDIADOR
Em encontro com Obama, em março,
o papa Francisco se dispôs a conversar com Raúl Castro

Apesar da atual troca de palavras de confiança e da promessa de uma nova era, o ponto mais delicado do diálogo entre os dois países será submetido ao Congresso americano. O fim do embargo está nas mãos dos opositores de Obama, que têm defendido uma posição ainda mais dura em relação ao vizinho. Significa, portanto, que sua aprovação é improvável? Para Rodolfo de La Garza, professor de relações internacionais da Universidade de Columbia, de Nova York, ela não está totalmente descartada. “Há muitos republicanos que são empresários e enxergam em Cuba a oportunidade de fazer negócios”, afirma.

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Desde o fim da União Soviética, a ilha sofre com o baixo crescimento econômico, a desvalorização da moeda e a dependência do petróleo subsidiado da Venezuela. Sob a administração de Raúl Castro, Cuba promoveu reformas e se abriu ao capital estrangeiro. “A reaproximação e o aumento do intercâmbio comercial, tecnológico e financeiro com os EUA certamente contribuirão para a aceleração desse processo”, diz Lorena Barberia, professora do departamento de ciência política da Universidade de São Paulo e ex-diretora do Programa de Estudos Cubanos na Universidade de Harvard. Nesse contexto, o Brasil deverá ser um dos maiores beneficiados. Principal investimento do País em Cuba, o Porto de Mariel tem potencial para ser um importante canal de entrada de produtos brasileiros nos EUA. A 200 quilômetros da costa da Flórida, Mariel, que recebeu US$ 1 bilhão de financiamento do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social, é o terminal caribenho mais próximo do solo americano. O investimento, muito criticado à época da inauguração do porto, em janeiro, agora é visto como estratégico.

A expectativa do fim do embargo econômico deverá ter impacto positivo sobre outros países do continente, que pressionaram pela inclusão de Cuba na Cúpula das Américas no Panamá em 2015. “Esse capítulo que se abre é muito interessante, porque a América Latina tem sido há muito tempo ignorada por Washington”, afirma Joseph Scarpaci, diretor-executivo do Centro de Estudos da Cultura e da Economia Cubana, na Virgínia. “Hoje, os EUA só olham para a região quando o assunto é narcotráfico, petróleo e BRICS (conjunto de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).” O foco da política externa americana, contudo, deverá continuar voltado ao Oriente Médio, à Ásia e à Rússia.

A dois anos do fim de seu mandato como presidente dos EUA, Obama envia sinais de que pretende adotar uma abordagem mais ousada, pensando no legado que deixará. Nos últimos meses, ele anunciou, sem consultar o Congresso, uma reforma na política de imigração, assinou um acordo climático com a China e intensificou as conversas para um pacto nuclear com o Irã. A reabertura do diálogo com Cuba contraria os conservadores, para quem isso deveria acontecer depois que Havana fizesse a transição para um regime democrático, mas corrige uma injustiça histórica: o isolamento jamais funcionou.

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LIBERTADOS
Horas antes dos anúncios dos presidentes em rede nacional,
o americano Alan Gross (acima) e três espiões de Havana
foram mandados de volta para casa. Os cubanos se juntaram
a outros dois ex-prisioneiros (abaixo) e foram recebidos como heróis 

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Com reportagem de Paula Rocha e Ludmilla Amaral

Fotos: Pablo Martinez Monsivais/ap; ARCHIVO CONSEJO ESTADO/afp; Bettmann/Corbis; Lawrence Jackson/Official White House Photo