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Entenda por que a reaproximação entre os Estados Unidos e Cuba é tão importante

Decisão histórica de Barack Obama e Raúl Castro pode colocar fim a um dos últimos pontos de tensão da Guerra Fria

Entenda por que a reaproximação entre os Estados Unidos e Cuba é tão importante

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Obama fala com Raúl Castro por telefone

A decisão dos presidentes Barack Obama e Raul Castro de retomar as conversas entre Estados Unidos e Cuba para que os laços diplomáticos sejam reatados é histórica. Ela pode colocar fim a um embargo econômico de mais de cinco décadas, condenado por praticamente todos os aliados dos Estados Unidos no mundo, e transformar a pequena ilha caribenha governada pelos irmãos Castro desde 1959. Entenda como este conflito entre os dois países começou e por que ele é tão importante sob o ponto de vista geopolítico.

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Por que os Estados Unidos romperam relações com Cuba?
Após a derrubada do ditador Fulgencio Batista pelos rebeldes comandados por Fidel Castro, em 1959, as relações entre Cuba e Estados Unidos começaram a deteriorar-se. Apesar disso, o governo americano reconheceu como legítimo o novo regime cubano. Com a decisão de Fidel de nacionalizar uma série de empresas norte-americanas baseadas em Cuba, as relações pioraram significativamente. Ao longo do ano de 1960, os Estados Unidos pararam de comprar açúcar de Cuba, o principal produto exportado do país, e cessaram a venda de petróleo ao vizinho. A crise de energia causou graves efeitos na economia cubana. Com isso, Fidel passou a se aproximar da União Soviética, então a maior antagonista dos Estados Unidos. No auge da Guerra Fria, em outubro de 1960, a pequena ilha caribenha passou a ser abastecida pelos soviéticos. Em 3 de janeiro de 1961, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com Cuba, retiram todo pessoal do corpo diplomático da ilha e fecharam a embaixada em Havana.

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O que é o embargo econômico?
É uma interdição econômica, financeira e comercial imposta pelos Estados Unidos ao governo cubano. Os norte-americanos bloquearam qualquer tipo de relação comercial, financeira ou econômica com a ilha, onde o embargo é conhecido como “el bloqueo”. O objetivo era tentar fazer com que a população, privada do acesso a bens de consumo, e empresas, impedidas de realizarem negociações comerciais com as companhias norte-americanas, forçassem a queda de Fidel Castro.

O embarco é formalmente condenado pela Organização das Nações Unidas (ONU). A Assembleia Geral da ONU, em sua reunião deste ano, votou pela 23ª vez pela condenação do embargo. Ao todo, 188 países assinaram a resolução pelo fim das restrições.

– É proibido a empresas de terceiros países a exportação para os Estados Unidos de qualquer produto que contenha alguma matéria-prima cubana (A França não pode exportar para os Estados Unidos uma geleia que contenha açúcar cubano).

– É proibido a empresas de terceiros países que vendam a Cuba bens ou serviços nos quais seja utilizada tecnologia norte-americana ou que precisem, na sua fabricação, produtos dessa procedência que excedam 10% do seu valor, ainda quando os seus proprietários sejam nacionais de terceiros países.

– Proíbe-se a bancos de terceiros países que abram contas em dólares norte-americanos a pessoas individuais ou jurídicas cubanas, ou que realizem qualquer transação financeira em essa moeda com entidades ou pessoas cubanas, e que serão confiscadas. Isso bloqueia totalmente Cuba de utilizar o dólar em suas transações de comércio exterior.

– É proibido aos empresários de terceiros países realizar investimentos ou negócios com Cuba, sob o pretexto de que essas operações estejam relacionadas com prioridades sujeitas a reclamação por parte dos Estados Unidos. Os empresários que não se submeterem a essa proibição serão alvo de sanções e represálias como o cancelamento, ou não renovação, de seus vistos de viagem aos Estados Unidos.

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Quando começou?

Oficialmente teve início em 7 de fevereiro de 1962, durante o governo de John Kennedy. Porém, algumas restrições começaram a ser impostas já em 1958, no governo de Dwight Eisenhower. Em 1999, o então presidente norte-americano Bill Clinton aumentou o bloqueio ao limitar as negociações entre Cuba e as filiais de empresas estrangeiras em território americano.

Por que Cuba é considerado um país terrorista pelos EUA?
Os Estados Unidos consideram Cuba como um patrocinador do terrorismo porque a ilha de Fidel teria acolhido membros de grupos terroristas, como o basco ETA. O país também permitiu que guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) se refugiem na ilha e ainda ofereceu exílio a fugitivos procurados nos Estados Unidos.

Por que, mesmo com o fim da Guerra Fria, as relações ainda não haviam sido retomadas?
O principal entrave para que os EUA retomassem as relações com Cuba são de ordem ideológica. Apesar de Obama afirmar que a detenção de cidadãos do país na ilha era um impedimento fundamental para reatar os laços, o grande obstáculo está na maioria republicana do Congresso. A parte mais conservadora dos americanos acredita que as relações diplomáticas só poderiam ser reatadas após a saída dos Castro do poder. Após mais de cinco décadas de embargo, no entanto, o país não entrou em colapso como se esperava, e os Castro continuam no poder. Ainda assim, Obama sofrerá pressões internas por sua decisão.

Como é Cuba hoje?
Cuba é o maior país do Caribe, com quase 110 mil km², compostos de diversas ilhas e arquipélagos. É dividida entre 15 províncias. A nação, com população de mais de 11 milhões de pessoas, segundo estimativa de 2012, tem uma economia estatizada e baseada em princípios socialistas, cuja moeda é o peso. Seu atual comandante, Raul Castro, presidente eleito em 2008, controla o país da capital Havana, a cidade mais populosa, com mais de 2 milhões pessoas. Sua ascensão começou em 2006, quando seu irmão, Fidel, lhe transferiu o poder temporariamente por motivos de saúde, após 49 anos como chefe de Estado. O país vive uma dura crise econômica e sobrevive com a ajuda de vizinhos, especialmente com o apoio da Venezuela, que abastece a Ilha com petróleo subsidiado. Apesar dos problemas, a ilha apresenta alguns dos melhores índices sociais da América Latina.

Quem é o americano liberado da prisão cubana?
Alan Gross é um norte-americano de 65 anos que estava há cinco anos encarcerado em Cuba. Durante este período, Alan estaria bastante fragilado, tendo perdido cerca de 50kg e alguns dentes neste período.

Alan foi enviado em dezembro de 2009 por um grupo de ajuda de desenvolvimento profissional, a USAID (U.S. Agency for International Development) para melhorar o acesso à internet aos judeus na ilha, instalando redes sem fio.

Contudo o governo cubano considerou que as atividades de Alan poderiam contribuir para derrubar o regime na ilha, já que as redes instaladas por ele poderiam ser usadas para vigilância americana em uma tentativa de minar o governo. Então, Alan Gross foi classificado como espião à serviço da inteligência americana e, em janeiro de 2010, julgado e condenado por crime contra o governo de Cuba, por atos que iam “contra a independência ou integridade territorial do Estado”.

Ele não falava espanhol ao ser detido.

 

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Senador norte-americado Dick Durbin e Alan Gross

 

 

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Ernesto Guevara e Fidel Castro

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Fidel Castro