Cultura

Duas caras no horário nobre

Dono da maior audiência da década, Agnaldo Silva vai discutir as mudanças na vida das pessoas na nova novela da Globo

Sai a Copacabana das prostitutas e dos hotéis cincoestrelas de Paraíso tropical e entra a Barra da Tijuca das peruas, dos grandes empreendimentos imobiliários e das favelas horizontais em Duas caras, novo folhetim das oito assinado por Aguinaldo Silva, que estréia na segunda-feira 1º na Rede Globo. É a terceira trama urbana seguida da emissora, todas tendo o Rio de Janeiro como cenário. Foram desembolsados R$ 3,6 milhões para erguer uma favela cenográfica, a primeira a aparecer em horário nobre na Globo. A fictícia Portelinha, inspirada na favela horizontal de Rio das Pedras, em Jacarepaguá, uma das maiores do Rio, concentrará todo um núcleo, no qual despontará o polêmico amor interracial entre uma patricinha da classe média alta (Débora Falabella) e um representante da associação de moradores do local (Lázaro Ramos).

Essa é uma das caras da cidade a que se refere o título. A outra é o mundo novo-rico dos condomínios da Barra, no qual despontam as estrelas habituais de Aguinaldo: Suzana Vieira como a dona de uma universidade e Renata Sorrah no papel de uma mulher adúltera. Mais uma vez elas serão rivais: vão disputar o amor do mesmo homem, vivido por José Wilker. A dupla face tem também outro sentido.

Aguinaldo, que passou por uma crise afetiva e pensou inclusive em abandonar a profissão, quis estruturar o enredo na virada que toda pessoa faz na vida. “Todo mundo tem duas caras e, eventualmente, uma delas prevalece”, afirma. No caso do protagonista da história, o vilão Adalberto (Dalton Vigh), a metáfora é literal. Ele se submete a cirurgias plásticas, mudando de feição. O artifício visa apagar as manchas do passado. É que Adalberto, trambiqueiro desde criança, havia dado um golpe na ingênua Maria Paula (Marjorie Estiano), a mocinha da história, com quem ele havia casado para roubar-lhe a herança.

Depois da operação, Adalberto passa a se chamar Marconi Ferraço e muda-se para o Rio, onde investe na construção civil. A lembrança do traficante colombiano Abadia vem logo à mente. Aguinaldo lançou mão desse clichê folhetinesco bem antes, no início do ano. E garante que a inspiração não foi também o ex-ministro José Dirceu, como fora aventado, que fez diversas operações para voltar ao País como clandestino do exílio em Cuba. “Se fosse assim, o Adalberto estaria sendo julgado”, diz Aguinaldo, que preferiu o modelo de um exchefe de Censura Federal. “No caso da novela, quando o Adalberto vira uma pessoa estabelecida, seu passado volta para cobrar as contas e só existe uma maneira de se redimir: pagando pelo que se fez. E é aí que entramos no campo da ética”, diz Aguinaldo.

Adalberto, que virou Marconi, terá como grande adversário o líder comunitário Juvenal Antena (Antonio Fagundes). Ele é o fundador da Portelinha, que se formou em torno do condomínio de luxo construído pelo empresário. O surgimento da favela e a transformação de Adalberto marcam o primeiro período de Duas caras, que termina no capítulo 8. Depois dá-se um salto de dez anos, e a trama engrena no melhor estilo de Aguinaldo, dono da maior audiência da década com Senhora do destino. “Adalberto descobre que era apaixonado pela Maria Paula e, ao fugir, não sabia que ela estava grávida. Isso é folhetim”, afirma Aguinaldo. Alguém discorda?