Economia & Negócios

O presidente verde

Lula defende os biocombustíveis na ONU e cobra a redução das emissões dos países ricos, mas esquece de incluir na bronca poluidores como a China, a Índia e o Brasil

Dos quatro discursos que o presidente Lula fez diante da Assembléia Geral das Nações Unidas, apenas um, realizado em 2005, não tocou nos seus pontos favoritos: distribuição de renda e segurança alimentar. Mas em nenhum deles Lula tirou tão de letra quanto o realizado na terça-feira 25. Falando a líderes de 191 nações, o presidente criticou a falta de empenho dos países ricos no combate à poluição, exibiu números vistosos da luta brasileira contra o desmatamento e, de quebra, alardeou os benefícios que sua campanha mundial a favor dos biocombustíveis pode trazer ao mundo. “O problema da fome no planeta não decorre da falta de alimentos, mas da falta de renda que golpeia quase um bilhão de homens, mulheres e crianças”, disse. “A eqüidade social é a melhor arma contra a degradação do planeta, e o etanol faz parte da solução desse problema.”

Lula não contava, no entanto, com uma crítica feroz ao seu plano e que viria da própria ONU. Um dia antes, o relator das Nações Unidas sobre o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, atacou a ofensiva brasileira. “Os efeitos do etanol são perversos, seja o combustível produzido a partir do milho ou da cana-de-açúcar”, disse o suíço. “Não posso concordar com a política energética do Brasil.” Ainda que parte do texto tenha sido vetada pela Secretaria-Geral da ONU, o desgaste foi inevitável. A FAO, órgão responsável pela agricultura e alimentação, tentou contornar e endossou as ameaças ao etanol feitas a partir do milho, mas deixou transparecer que a cana não traria os mesmos riscos à população mundial, provocando aumento nos preços dos alimentos. “A experiência brasileira de três décadas mostra que a produção de biocombustíveis não afeta a segurança alimentar”, reagiu Lula. “É plenamente possível combinar biocombustíveis, preservação ambiental e produção de alimentos.”

Lula lançou duas propostas diante do plenário da ONU. A primeira é a realização de duas conferências internacionais. Uma em 2008, no Brasil, sobre biocombustíveis. A outra, que Lula chamou de Rio+20, seria em 2012. Trata-se de uma reedição da Conferência Mundial sobre Meio Ambiente, realizada no Rio de Janeiro em 1992. A segunda proposta foi o anúncio de que o Brasil terá um Plano Nacional de Enfrentamento às Mudanças Climáticas, cujos pontos centrais serão a ampliação do combate ao desmatamento e a proteção da Amazônia. Foi nesse ponto que Lula centrou seu discurso, lembrando que as queimadas na região foram reduzidas em 50% e na Mata Atlântica em 75%, o que equivaleria a evitar o lançamento de 430 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera. O problema é que essa desaceleração toma por base a área desmatada recordista de 2004, que foi de 27 mil km2, a segunda maior já registrada. O documento, que será apresentado em dezembro aos representantes de países que participarão da Conferência de Bali, quando se dará início ao processo de negociação para um novo acordo global para substituir o Protocolo de Kyoto, foi criticado internamente por não trazer nenhuma meta numérica de redução do desmatamento. É um tiro pela culatra. Foi justamente essa cobrança, endereçada aos países mais desenvolvidos, que Lula fez em seu discurso. “Os países mais industrializados devem dar o exemplo.” Este ano, a China deve passar a ser o maior poluidor do mundo. A Índia não fica muito atrás e o Brasil é um dos seis maiores emissores do planeta. Ou seja, pela fórmula que o Brasil apóia, estariam fora das metas compulsórias três dos seis maiores poluidores do mundo. É uma lição de casa que o Brasil precisa fazer muito bem antes de defendê-la em escala mundial.