Comportamento

Fé roubada

Igrejas adotam equipamentos de segurança para conter furtos cada vez mais freqüentes, que chegam até ao microfone do altar

Que fiel nunca ouviu do padre em uma missa: “As portas da casa de Deus estarão sempre abertas?” Pois faz um mês que não se ouve isso do pároco Fabrício do Prado Nunes, da Igreja Matriz de Sant’Ana, em Santana do Livramento (RS). O sacerdote proibiu as visitas à igreja e só abre o templo na reza das 18h. Motivo: dez furtos em um ano. Objetos sacros, como toalhas do altar, castiçais e a coroa de espinhos de Cristo desapareceram e o sacrário (onde se guardam hóstias e relíquias) já foi violado. Em janeiro, por um buraco aberto na parede do salão da casa paroquial, xícaras, panelas, tapetes, caixas de som, microfones e até vasos de flores foram subtraídos. Algumas peças foram escondidas em túmulos do cemitério vizinho. “Estão levando até vaso de R$ 3”, indigna-se o monsenhor Tarcísio Scherer, do arcebispado de Porto Alegre. Segundo ele, todo mês ocorre um furto em uma igreja da região metropolitana. “Os dez mandamentos não valem mais nada”, reclama Scherer.

Em Minas Gerais, a situação é alarmante: 60% do patrimônio sacro sumiu. Por causa de estatísticas como essa, o promotor de Mariana, Antonio Carlos de Oliveira, entrou com uma ação civil pública contra a Arquidiocese (responsável por 130 paróquias em 79 cidades históricas e onde se encontram 70% do acervo cultural barroco do País) e o município. Ainda em tramitação, ela exige a instalação de sistemas de segurança eletrônicos nas igrejas. “Vinte templos históricos, no mínimo, estão desprotegidos”, avisa o promotor.

Ultimamente, porém, é nas capelas dos distritos que o aparato eletrônico virou o primeiro mandamento para a preservação do patrimônio histórico. Em Santana do Livramento, a 500 quilômetros da capital gaúcha, a paróquia do padre Fabrício já recebeu alarmes, está instalando câmeras e recorrerá a seguranças privados para voltar a abrir as portas. “Os párocos estão percebendo que têm de investir em segurança, que as imagens são obras de arte”, diz Laura Godoy, que faz pós-graduação em cultura e arte barroca na Universidade Federal de Ouro Preto e está concluindo sua monografia sobre o desaparecimento de obras de arte sacra.

A paróquia São Judas Tadeu, em São Paulo, nunca sofreu uma perda irreparável de imagens históricas. Mesmo assim, contratou uma empresa que, por meio de câmeras, vigia durante 24 horas o espaço onde estão guardados imagens e objetos litúrgicos de valor. Conta ainda com alarme e seis seguranças – alguns à paisana, que assistem a missas entre os fiéis e passam mensalmente por cursos de atualização. “Os filhos das trevas são mais espertos do que os filhos da luz”, alerta o pároco de São Judas, Marcelo Alves dos Reis, citando uma passagem bíblica.

Seis meses atrás, foi furtada do mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, a imagem de uma mulher com os olhos vendados, que representa a virtude da fé. Única no mundo, a escultura era feita de cedro policromado e datada do século XVIII. No mercado negro, uma peça dessa mesma época é avaliada em R$ 10 mil. E pode custar muito mais. “Há um colecionador particular que segurou uma obra sacra de 70cm em R$ 1 milhão”, conta Marcos Paulo de Souza Miranda, coordenador das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais. O mosteiro já tinha segurança, mas agora instalou também câmeras.

Existem hoje no País 1.318 bens litúrgicos desaparecidos, num total avaliado em R$ 12,5 milhões, segundo a empresa de segurança e inteligência privada RCI First Security and Intelligence Advise, que cruzou dados das agências de inteligência do mundo todo, de órgãos que respondem sobre o patrimônio histórico e de boletins de ocorrência de delegacias. “Tem de se fazer um cadastro nacional de arte sacra. Do contrário a peça some e ninguém mais acha”, reclama Marcus Monteiro, diretor do Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (Inepac) do Rio de Janeiro.

A falta de um inventário do acervo nacional está causando um problema em Minas. Lá, nos últimos cinco anos, 200 obras litúrgicas foram apreendidas em antiquários e “restauradores”, mas ainda não estão nas igrejas porque não se sabe a quais templos pertenciam. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) só responde pelos objetos tombados, ou seja, cerca de um terço do total do acervo brasileiro. Mesmo assim, dos 918 bens procurados (99% são obras sacras) por eles, apenas 80 constam na Interpol com foto e histórico traduzidos para o inglês e francês. Assim, a chance de reaver o que desapareceu é quase um milagre.