Brasil

O silêncio conveniente

Diante do Mensalão Mineiro, parlamentares do governo e da oposição adotam postura passiva à espera de uma denúncia do procurador-geral da República

Questionado a respeito do relatório final da Polícia Federal sobre o Mensalão Mineiro, o senador Romeu Tuma (DEM-SP), corregedor do Senado, na quarta-feira 26, foi taxativo: "Há indícios suficientes para a abertura de processo por quebra de decoro parlamentar contra Eduardo Azeredo (PSDB-MG)", afirmou. Mas, para que o processo seja instaurado, não basta a análise do corregedor, por mais que seja, ele próprio, um experiente delegado. É preciso que algum partido político faça uma representação contra o parlamentar tucano na Mesa Diretora da Casa. E, no caso do Mensalão Mineiro, os parlamentares parecem dispostos a adotar a prática do faz de conta que ninguém viu.

Há três semanas, ISTOÉ revelou o conteúdo de todas as investigações feitas pela Polícia Federal. Os documentos são contundentes e mostram com clareza que Azeredo, no mínimo, mentiu a seus pares durante a CPI dos Correios. É por mentir na tribuna que parlamentares como Luiz Estevão, por exemplo, acabaram perdendo seus mandatos.

Na história recente, o Congresso tem se antecipado à morosidade do Judiciário quando se trata de punir políticos acusados de condutas ilegais. Desta vez, no entanto, parece haver uma espécie de acordo velado para que tudo recaia sobre o procurador-geral da República, que nos próximos dias deverá oferecer sua denúncia ao Supremo Tribunal Federal com base nas investigações da PF. O próprio Tuma, tão contundente em sua avaliação, endossa o coro daqueles que se escondem à espera de uma decisão do procurador. "Não custa nada a gente aguardar a decisão do procurador, saber se ele irá ou não fazer uma denúncia", disse o corregedor. "No momento em que a denúncia for feita, será inevitável um processo que afaste o senador", completa Fernando Gabeira (PV-RJ). Um comportamento bem diferente do que foi adotado, por exemplo, com o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL). Apenas quatro dias depois de ele ter sido acusado por uma única testemunha de que usaria dinheiro de uma empreiteira para pagar despesas de uma amante, o PSOL entrou com uma representação no Conselho de Ética contra ele por quebra de decoro parlamentar.

Curioso é que os processos instalados contra Calheiros acabam servindo de justificativa para que o silêncio se faça em relação ao senador Azeredo. "Não tem por que se tratar desse assunto agora. Basta o affair Renan Calheiros, que praticamente paralisou o Senado", argumenta Jefferson Peres (PDT-AM). Com o Mensalão Mineiro, até mesmo a postura do partido da ex-senadora Heloísa Helena surpreende. Só na noite da quarta-feira 26 é que o partido se posicionou um pouco diferente. De acordo com o deputado Chico Alencar (PSOLRJ), esta semana o partido formalizará uma representação contra Azeredo por quebra de decoro. "Queremos alinhavar bem para evitar qualquer argumentação de que não pode cassar porque o caso aconteceu antes de ele iniciar o mandato", disse Alencar, ignorando que quando Azeredo mentiu na CPI já estava em pleno mandato. Segundo o deputado, os advogados do PSOL, a partir do gabinete do senador José Nery (PA), preparam a representação. É provável que o procurador-geral se manifeste antes.