Edição nº2480 23.06 Ver edições anteriores

Baixaria ou debate político?

Assim como os seus adversários, Marina pode e deve ser  contestada por suas posições e recuos

O novo mote da candidata Marina Silva é o de que seus adversários, Dilma Rousseff e Aécio Neves, estariam desesperados e, por isso, decidiram partir para a baixaria na reta final da disputa presidencial. Assim, colocando-se na condição de vítima, Marina evita responder aos questionamentos que lhe são feitos pelos dois oponentes. Mas será que isso é realmente saudável para a democracia? Ou o debate político não é natural e necessário em qualquer disputa eleitoral?

Do lado tucano, a crítica maior se refere à incoerência política de Marina, que seria movida apenas por seu desejo de poder. Nos comerciais, a equipe de Aécio alega que Marina permaneceu o quanto pôde no PT, mesmo durante a crise do chamado “mensalão”, e só deixou o partido quando percebeu que não seria escolhida pelo ex-presidente Lula para sucedê-lo. Ou seja: a mensagem é a de que ela se move mais por ambição do que por princípios. Na realidade, seria mais pragmática do que “sonhática”.

Do lado petista, o arsenal é mais variado e até agora a equipe de Dilma já questionou o fato de Marina ser sustentada pela herdeira de um grande banco privado e, ao mesmo tempo, defender uma agenda de governo que interessa às instituições financeiras, com propostas como a independência do Banco Central. Foi também criticada por retardar projetos de usinas hidrelétricas, o que é incontestável, e por se submeter à pressão de um pastor evangélico, recuando na defesa de direitos civis dos homossexuais. Até agora, Dilma apresentou apenas fatos. Nada além dos fatos.

Nesses últimos dias, Aécio chegou, inclusive, a debater com Marina numa rede social, o Twitter, dizendo não estar “desconstruindo” a imagem de Marina e afirmando ainda que “o debate político é fundamental para a democracia”. “Quem imagina ser presidente precisa dizer quem é”, prosseguiu o tucano. E Marina, no entanto, mais uma vez se vitimizou, dizendo que Aécio promovia uma “desconstrução” semelhante à feita pelo PT.

Marina precisa compreender que não está acima do bem e do mal e que tem o dever de responder com clareza sobre suas posições, seus recuos, como no caso da homofobia e dos transgênicos, e sobre suas próprias contradições. Afinal, não foram nem Aécio nem Dilma que mudaram o programa de governo depois que o pastor Silas Malafaia estrilou. E também não foram eles que, dias atrás, corrigiram a declaração de patrimônio enviada ao Tribunal Superior Eleitoral porque havia uma omissão equivalente a um terço dos ativos pessoais. Sim, Marina se esqueceu de declarar um terço de seu patrimônio. Não pode ser questionada por isso? 


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