Comportamento

O desafio das ciclovias

Elas são uma boa alternativa de transporte, mas nas grandes cidades do Brasil muitas delas vêm sendo construídas na base do improviso e nem sempre garantem a segurança do usuário

O desafio das ciclovias

ROTINA Acima, ciclistas na orla do Rio de Janeiro. Abaixo, carros flagrados estacionados numa ciclovia em São Paulo ()

Cada vez mais brasileiros estão optando pela bicicleta como meio de transporte. Para atender a essa demanda, os prefeitos de grandes cidades brasileiras passaram a construir quilômetros e quilômetros de ciclovias. O problema é que, embora seja uma boa alternativa de mobilidade, adotada pelas mais modernas metrópoles do mundo, muitas vêm sendo construídas de forma atabalhoada, na base do improviso. Em São Paulo, há exemplos de ciclovias que atravessam pontos de ônibus. Em vias mais rápidas, a separação entre a bicicleta e o carro poderia ir além de olhos de gato. Há ainda faixas em que ciclistas disputam espaço com pedestres e carrinhos de bebê. Mas a capital paulista não está sozinha no quesito desorganização. Em Belo Horizonte, por exemplo, faixas para bikes ficam entre a calçada e o espaço destinado aos carros estacionarem. “A implantação em São Paulo foi baseada no improviso”, diz Fábio Fortes, presidente do Conselho de Segurança de Santa Cecília, que reclama, ainda, da falta de diálogo da prefeitura com a população.

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ROTINA
Acima, ciclistas na orla do Rio de Janeiro. Abaixo, carros flagrados
estacionados numa ciclovia em São Paulo

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Há, porém, algumas boas iniciativas. A prefeitura de São Paulo anunciou que um dos cartões-postais do País, a avenida Paulista, terá sua ciclovia, ao custo de R$ 15 milhões. A obra deve ficar pronta em 2015 e faz parte do plano de construir 400 km dessas rotas até o fim do ano que vem. Desses, cerca de 58 km estão prontos. Quando uma ciclovia é bem feita, com um projeto estruturado como o da Paulista, tende a produzir bons resultados e a atrair ainda mais adeptos. Como a analista de produtos Maira Fujii e o funcionário público Guilherme Martins, que decidiram usar a bicicleta como meio de transporte na cidade de São Paulo há cerca de duas semanas. Antes da mudança, Martins percorria cerca de dois quilômetros de metrô de sua casa para o trabalho, na zona Sul da cidade, e refazia o caminho no fim do expediente. “Cogitei a ideia há um ano, mas desisti por falta de segurança. Quando vi a faixa pintada, comprei a bike”, diz. Maira também abraçou as duas rodas. Moradora da região de Pinheiros, na zona oeste, ela andava insatisfeita com a demora para chegar ao trabalho. “Eu via a galera indo mais rápido de bicicleta pela Avenida Faria Lima, onde trabalho. Pensei num jeito de vir mais depressa e que queimasse calorias”, diz ela.

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TRÁFEGO
Acima, via de Belo Horizonte: capital mineira tem
uma malha pequena, de 70km apenas

Outras cidades do Brasil têm se esforçado para melhorar suas estruturas cicloviárias, mas também enfrentam problemas. Apesar de contar com um dos melhores índices do País (430 km de vias), ciclistas de Brasília (DF) reclamam que as ciclovias da cidade não estão nos locais mais perigosos. “Também não conectam as cidades-satélites, onde mora a maior parte da população, ao centro, onde estão os empregos”, afirma Renata Florentino, da ONG Rodas da Paz. O Rio de Janeiro (RJ), onde a quilometragem de ciclovias é alta para os padrões nacionais (370 km), adota essa política desde a conferência ambiental Eco 92. Naquela época, as rotas para bikes se concentravam na orla, mas recentemente elas se expandiram para outras áreas. “Na zona norte o desafio é desenvolver áreas no entorno do BRT Transcarioca”, diz Clarisse Linke, diretora do Instituto de Políticas para o Transporte e o Desenvolvimento (ITDP, na sigla em inglês). Fortaleza (CE) e Belo Horizonte (MG), contam com extensão bem menor de ciclovias (86 e 70 km, respectivamente), e usuários apontam desconexão entre as faixas e asfalto ruim.

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MUDANÇA
Guilherme Martins esperou só construírem uma ciclovia no
seu caminho para poder aderir à bicicleta

Entre os moradores de cidades como São Paulo, por exemplo, a maior reclamação é que eles não puderam se preparar porque não foram avisados das novas rotas exclusivas. A própria prefeitura admite que faltou diálogo com a sociedade. “É um aperfeiçoamento, algo novo que você vai melhorando. Agora estamos avisando os locais onde as faixas serão implantadas”, afirma Jilmar Tatto, secretário dos Transportes de São Paulo.

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Fotos:Rubens Chaves/Folhapress; Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press; Airam Abel