Cultura

A volta da pornochanchada

As comédias eróticas que proliferaram no auge da censura militar no Brasil ganham fôlego em novos programas de tevê, séries, documentários e remakes

A volta da pornochanchada

Novidade

Responsável por alguns dos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional durante a década de 70, a pornochanchada, nome pelo qual ficaram conhecidas as populares comédias eróticas do período, está de volta em toda parte. Além de uma série produzida para a HBO sobre a Boca do Lixo – polo cinematográfico de São Paulo no período –, a antiga musa Nicole Puzzi ganhou um programa de tevê, e o novo documentário de Ricardo Calil e Renato Terra, “Eu Sou Carlos Imperial”, sobre o intempestivo produtor do título, estreia neste semestre.

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NOVIDADE
Simone Spoladore na série "Magnífica 70"

A onda começou quando os filmes foram exibidos no Canal Brasil. “Desde então, dezenas de sites e blogs sobre o assunto surgiram”, diz Alessandro Gama, professor de pós-graduação da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e autor da dissertação “Vozes da Boca”, de 2006, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Gama explica que a produção local foi favorecida na década de 70 pela implementação de uma cota que exigia que houvesse uma porcentagem mínima de filmes nacionais em exibição. “Era barato, rápido e havia espaço para exibir”, diz ele. A pornochanchada chegou ao auge entre 1975 e 1978, quando quase 40% da obra cinematográfica era do gênero.

Diretor e roteirista responsável pela série “Magnífica 70”, em produção pela HBO, e com estreia prevista para março de 2015, Claudio Torres conta que esse estilo de cinema fez parte do imaginário da sua adolescência. “Tratava-se de um momento muito paradoxal da história brasileira. A série se passa em 1973, auge desse tipo de filme e período mais negro da ditadura militar. A trama faz a ponte entre esses dois mundos antagônicos que coexistiram. Um moldou o outro”, diz.

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REI
O ator e produtor Carlos Imperial, tema de documentário de Ricardo Calil
e Renato Terra, em cena de "A Banana Mecânica", de 1974 

Em “Magnífica 70”, Vicente é um censor que fica deslumbrado por uma atriz e se embrenha na Boca do Lixo para conhecê-la. Acaba assim envolvido com os produtores da comédia erótica. Simone Spoladore interpreta a atriz Dora Dumar, objeto de desejo do funcionário da ditadura, personagem vivido por Marcos Winter. Simone enxerga ousadia na pornochanchada, mas estereótipos também. “Tinha algo de transgressor. Eram filmes corajosos, feitos sem dinheiro. Mas a exploração da relação entre homem e mulher caía invariavelmente em clichês”, diz.

Musa máxima da pornochanchada, a atriz Nicole Puzzi ganhou um programa em que tem espaço para defender o pioneirismo daquele cinema. Em “Pornolândia” no Canal Brasil, ela convida colegas do movimento para dar depoimentos sobre o trabalho. E se ressente do fato de muita gente que começou na Boca do Lixo hoje se envergonhar do passado. “Amei ter feito esses filmes”, diz ela. Nicole acredita que sua geração abriu as portas para que outras atrizes pudessem explorar a sensualidade em cena e ajudou também a ensinar o público a encarar o sexo de forma natural. “Hoje em dia é mais fácil. Acredito que nós (atrizes do gênero) liberamos o pensamento sexual feminino e também o autoconhecimento das mulheres”, diz.

A sede por mais liberdade, porém, foi responsável pelo encerramento dos trabalhos na Boca do Lixo nos anos 1980. Quando o japonês “O Império dos Sentidos”, de Nagisa Oshima, foi liberado pela censura em 1980, o sexo explícito tomou o lugar do erotismo cômico e falso da pornochanchada. Logo os distribuidores perceberam que era muito mais fácil importar filmes estrangeiros do que investir na produção local.

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MUSA
Nicole Puzzi, apresentadora do programa "Pornolândia", do Canal
Brasil, estampou cartazes das maiores bilheterias do gênero,
como "Convite ao Prazer", filme de Walter Hugo Khoury

 “Quebrei”, lembra Claudio Cunha, um dos melhores diretores da pornochanchada e agente da transição da comédia erótica para os filmes de sexo explícito, marcada por seu último longa-metragem, “Oh Rebuceteio”, de 1984.

 Cunha planeja o remake de uma de suas maiores bilheterias, “Amada Amante”, de 1977, em fase de captação de recursos. Ao mesmo tempo, escreve um livro sobre a época. Após 30 anos sem filmar, ele é mais um remanescente do período que hoje olha para a pornochanchada como um gênero que renasce como filão cultural.

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Fotos; Caue Porto/Divulgação; Arquivo o Dia; Divulgação/HBO