Comportamento

Sergio Rodrigues: o legado do mestre das cadeiras

O papa do design brasileiro elevou a peça à categoria de arte e deixou um dos mais ricos acervos mobiliários do País. A sua premiada poltrona Mole entrou para a exposição permanente do MoMA, de Nova York, e é venerada no mundo inteiro

Sergio Rodrigues: o legado do mestre das cadeiras

ÍCONES

Certa vez, o fotógrafo Otto Stupakoff (1935-2009) procurou o arquiteto e designer carioca Sergio Rodrigues (1927-2014) com um pedido. Precisava de um móvel confortável para seu novo estúdio, um sofá ou poltrona na qual pudesse se esparramar e até, eventualmente, dormir. Para atender à solicitação do amigo, Rodrigues criou uma peça com estrutura robusta de madeira de jacarandá, sobre a qual repousou um aconchegante almofadão de couro. Nascia assim, em 1957, a premiada poltrona Mole, marco da carreira de Rodrigues, que faleceu em decorrência de um câncer no dia 1º de setembro, no Rio de Janeiro, aos 86 anos. Considerado um dos mestres do design nacional, ele criou dezenas de peças emblemáticas que constituem um dos mais ricos acervos mobiliários do País.

 

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ÍCONES
Rodrigues e sua mais famosa criação, a poltrona Mole (acima), e no dia em
que conheceu o arquiteto francês Le Corbusier (de terno branco), em 1962

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“Dentre diversos designers nacionais, ninguém foi tão brasileiro, tão produtivo e tão diversificado quanto o Sergio”, diz o designer Aristeu Pires, amigo de Rodrigues. De fato, o amor pela madeira, a criatividade e a percepção da identidade nacional sempre marcaram a produção do carioca. Arquiteto por formação, ele desenhou seu primeiro móvel em 1954, o icônico banco Mocho, inspirado num banquinho de ordenha. A consagração como designer, no entanto, só veio com a Mole. Em 1961, a peça venceu o Concurso Internacional do Móvel, na cidade italiana de Cantù, superando 438 candidatos de 27 países. Segundo os jurados, a poltrona era o único móvel “não influenciado por modismos e absolutamente representativo de sua região de origem”. Anos mais tarde, a obra seria escolhida para integrar a exposição permanente do MoMA, museu de arte moderna de Nova York. “Os móveis são como filhos, sou apaixonado por todos, mas a poltrona Mole tem um lugar especial no meu coração”, dizia Rodrigues sobre sua criação mais aclamada.

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Resultado de mais de 60 anos de trabalho, o vasto portfólio do designer inclui obras inéditas, como a poltrona Benjamim, batizada em homenagem ao neto mais novo, que será lançada em edição numerada pela loja paulistana Dpot em 22 de setembro. Já a marca Etel Interiores, da designer mineira Etel Carmona, promete para 20 de setembro a reedição de peças da linha Adolpho, criadas por Rodrigues, em 1991, especialmente para o amigo Adolpho Bloch (1908-1995), e nunca antes comercializadas. “Sua brasilidade e seu estilo criativo e inovador sempre foram fonte de inspiração para mim. Perdi um amigo e colega e essa é uma forma de homenageá-lo”, diz Etel.

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Além do lançamento do mobiliário inédito, outros projetos prometem manter viva a memória do artista, que era sobrinho de Nelson Rodrigues e deixa a companheira, Vera Beatriz, e três filhos. O Instituto Sergio Rodrigues, criado em 2012, está organizando todo o acervo documental e iconográfico do arquiteto. Mais de 30 mil itens, como plantas, croquis e fotos, já foram inventariados. A história do carioca também será tema de um documentário dirigido pelo brasileiro radicado em Nova York, Peter Azen, de 30 anos, que conviveu com Rodrigues desde os seis, quando ele desenhou a casa de campo da família. “O Sergio era um ótimo contador de histórias e gostava muito de ajudar os outros. Era um homem extremamente generoso”, diz.

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MODERNISMO
Rodrigues foi escalado por Lucio Costa para fazer os móveis de diversas
construções de Brasília, como o Palácio do Planalto

Mais do que o espólio material, Rodrigues deixará como herança seu amor pela vida e pelo Brasil, garante um de seus amigos mais próximos, o empresário João Caetano, dono da loja Arquivo Contemporâneo, que comercializa obras do mestre. “O Sergio tinha convicção na alegria de viver. Ele era a representação perfeita da positividade carioca”, diz. O designer Pedro Paulo Franco, por sua vez, acredita no caráter atemporal do trabalho de Rodrigues: “Ao ser indagado se ainda se considerava um arquiteto moderno, Paulo Mendes da Rocha citou ‘deixei de ser moderno para ser eterno’. Acho que o mesmo cabe a Sergio Rodrigues.”

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Fotos: Eliseu Cavalcante; Arquivo Pessoal; Divulgação