Comportamento

Punição exemplar

Em medida inédita no País, o Grêmio é excluído de uma competição nacional por causa do comportamento racista de torcedores. A decisão marca uma nova fase na luta contra as manifestações de preconceito nos estádios

Punição exemplar

COVARDIA Sob gritos

O compositor Lupicínio Rodrigues (1914-1974) exaltava um traço democrático do Grêmio Foot Ball Porto Alegrense para justificar como ele, um negro, havia aceitado compor um hino para o clube que sustentava a desonrosa posição de ter sido o último no País a permitir a presença de jogadores dessa raça em seu plantel – fato ocorrido em 1952. Gremista inveterado, Lupicínio argumentava que seu time de coração havia acenado favoravelmente para que equipes da chamada Liga da Canela Preta, criada no Sul para que os negros excluídos desse esporte pudessem praticá-lo, fossem incorporados ao Campeonato Gaúcho. A história gremista é permeada por exemplos de igualdade e inclusão, como também de episódios racistas patrocinados por grupos minoritários – o que não é “privilégio” da agremiação gaúcha. Na quarta-feira 3, o Grêmio pagou caro por sustentar entre o quadro de torcedores pessoas que reforçam a discriminação racial. Em uma decisão unânime do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), o clube tornou-se o primeiro a ser excluído de uma competição nacional, a Copa do Brasil, por atos de injúria racial. O fato que precipitou a condenação ocorreu em agosto, na Arena Grêmio, em Porto Alegre, quando, da arquibancada, gremistas gritaram palavras como “macaco” e “preto fedido” para o goleiro Aranha, do Santos, em jogo válido por essa competição. “A sociedade não suporta mais esse tipo de barbárie. Punir categoricamente a instituição em âmbito cível é um recado em alto e bom som”, diz o sociólogo Maurício Murad, do mestrado da Universidade Salgado de Oliveira (Universo).

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COVARDIA
Sob gritos de -macaco-, proferidos por gremistas como a dentista
Patrícia Silva, o goleiro Aranha, do Santos, protesta

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Apesar de, depois do episódio, o clube impedir a Geral do Grêmio, torcida organizada que entoa coros de cunho racista, de frequentar a Arena por tempo indeterminado e de ter ajudado a identificar cinco pessoas que ofenderam Aranha, o STJD não aliviou na pena, o que gerou uma discussão na esfera esportiva. Para o jornalista e comentarista esportivo Juca Kfouri, “se os clubes tomarem as atitudes necessárias para identificar os responsáveis e entregá-los às autoridades, não devem ser responsabilizados”. O tricolor gaúcho, porém, é reincidente. Já havia sido condenado a pagar R$ 80 mil de multa depois que, em partida válida pelo Campeonato Gaucho na Arena, em março, o zagueiro do rival Internacional foi chamado de macaco por um torcedor gremista (leia quadro). “Mais do que isso, o Grêmio só se mexeu por medo da punição e não porque se tratava de uma causa contra a qual luta interna e ferrenhamente”, afirma o historiador Marcel Tonini, cuja dissertação de mestrado dissecou a história dos negros no futebol brasileiro.

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JUSTIÇA
Na quinta-feira 4, a dentista admitiu os insultos ao prestar depoimento à polícia

De fato, para que o episódio tenha caráter educativo – e até preventivo – é preciso fazer valer a máxima da justiça criminal segundo a qual a punição que melhor produz resultado é a que alcança o indivíduo transgressor. Na quinta-feira 4, a dentista Patrícia Moreira da Silva, 23 anos, que foi flagrada por câmeras de TV gritando “macaco” para o goleiro santista, admitiu em depoimento tê-lo insultado, mas disse ter se deixado levar pelo coro da torcida que costumeiramente profere cantos racistas contra adversários. Tal argumentação só reforça o quão é fundamental a punição individual dos que cometem atos de violência – como é o caso da injúria racial e do racismo – em estádios de futebol.

Nesses locais, transgressores supõem-se preservados pelo anonimato da multidão e se encorajam para manifestar a sua falta de civilidade. “Se essa moça e outros criminosos não forem punidos, mais uma vez ficarão escondidos, livres, diluídos na punição coletiva”, afirma Murad. Permitir que o ponta-direita Tesourinha fizesse parte do elenco do time, rompendo a barreira que impedia a participação de atletas negros, foi um gol do Grêmio, anotado nos anos 50. Sessenta anos depois, quica na frente dessa centenária instituição gaúcha nova oportunidade para trabalhar – prevenindo, fiscalizando e punindo a minoria racista infiltrada na sua torcida – a favor da integração social, reafirmando que a cor da pele não é sua adversária dentro das quatro linhas.

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Fotos: Bruno Alencastro/Agência RBS; Ronaldo Bernardi/Estadão Conteúdo