Copa 2014

A hora do maior pesadelo

Um lance criminoso tira a nossa principal estrela da Copa e, sem Neymar, o Brasil tem o desafio de repetir uma façanha já vivida em 1962 com a contusão que afastou Pelé do Mundial

A hora do maior pesadelo

Estádio do Castelão,

O choro compulsivo de Neymar ao deixar o gramado do Castelão quase no final do jogo que classificou o Brasil para a semifinail da Copa do Mundo na sexta-feira 4, em Fortaleza, já indicava o pior. Vítima de uma entrada criminosa do zagueiro colombiano Juan Zuñiga, o camisa 10 do Brasil, uma das maiores estrelas do Mundial, sucumbiu à dor excruciante causada por uma fratura da terceira vértebra lombar. Foi levado para o hospital e não assistiu à comemoração de seus companheiros e da torcida brasileira. A festa, na verdade, durou menos que o previsto. Foi substituída pelo drama de um País inteiro. Ao invés de assistirem aos replays dos gols que levaram a seleção para a próxima fase, os brasileiros viveram uma noite de debate sobre a violência da joelhada do adversário, sofreram com a imagem de seu ídolo abatido.

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Estádio do Castelão, Fortaleza, sexta-feira 4, aos 40 minutos do segundo
tempo Neymar é abatido pelo colombiano Zuñiga, que sai em fuga como
se nada tivesse acontecido: a agressão covarde tira parte do brilho da Copa

Acostumado a ser caçado em campo, Neymar sempre foi acusado de ser uma espécie de jogador cai-cai, que se joga a qualquer esbarrão. Como mostrariam os exames poucas horas depois, dessa vez a queda, as expressões dramáticas e o choro eram mais que justificados. A fratura da terceira vértebra não será um problema para o jogador a longo prazo. Pelas previsões da comissão técnica brasileira, em até quatro semanas ele deve estar recuperado. Mas, mesmo assim, Neymar e o Brasil estão arrasados. Ao ser comunicado que estaria fora do Mundial o jogador chorou novamente. “Ele Está muito abatido, triste, chateado, muito triste”, disse Rodrigo Lasmar, médico da seleção. logo após saber do corte do atacante. “Uma expectativa tão grande passando pra semifinal e ele, infelizmente, não vai poder jogar. É triste”. A sensação contagiou o vestiário brasileiro. O goleiro Júlio César, que saiu como o herói da dura classificação contra o Chile em Belo Horizonte, ficou chocado ao saber que Neymar estaria fora do Mundial. “É uma tristeza enorme. A gente sabe quanto o Ney queria brilhar nessa Copa, o quanto ele se sente feliz levando alegria para o povo brasileiro”, disse o goleiro. Pelo Brasil, começaram a surgir manifestações lamentando a saída do astro. “Como todo o Brasil estou na torcipa pela recuperação de nosso craque”, escreveu Dilma Rousseff no twitter. O argentino Messi também enviou mensagem ao companheiro do Barcelona: “Espero que você se recupere logo, amigo”.

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ZUÑIGA
O colombiano que tirou Neymar da Copa
não levou sequer cartão amarelo

Neymar sempre foi um jogador que sempre soube lidar como poucos com o ímpeto agressivo dos defensores. Caçado desde quando ainda era um jogador magricela na equipe juvenil do Santos, foram poucas as vezes em que ele sucumbiu às botinadas de seus adversários. O camisa 10 da Seleção parecia ser capaz de aguentar as caneladas, os empurrões, os trancos dos zagueiros sem se machucar. Ao longo de sua carreira, sofreu pouquíssimas lesões. A mais longa delas foi um entorse no tornozelo direito no início do ano em uma partida entre o Barcelona e o Getafe pelo campeonato espanhol. Apesar de ter ficado algumas semanas longe dos gramados, Neymar machucou-se sozinho ao tentar um cruzamento.

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O CARA
Com a lesão de Neymar, o meia Oscar pode
virar a principal referência da Seleção

A grande questão agora é saber como o Brasil, que se acostumou a jogar em função do seu camisa 10, fará para superar a neymardependencia e encontrar um substituto para ser a referência no ataque. Na história da Seleção Brasileira essa não é uma situação nova. A saída precoce de Neymar repete a frustração de Pelé na Copa de 1962, quando o Brasil se tornou bi-campeão mundial. Naquela Copa, o Rei do Futebol chegou como a grande promessa da Seleção, mas saiu do torneio ainda no segundo jogo, em um empate em 0 x 0 contra a Tchecoslováquia, por conta de uma contusão que o impediu de jogar as outras partidas. Mesmo sem seu maior craque, o Brasil se recuperou e conquistou o campeonato com a participação imprescindível de Garrincha.

É bem verdade que o Brasil não tem um outro craque do quilate de Neymar – ao menos não no ataque. E muito menos alguém que se aproxime da genialidade do “anjo das pernas tortas”. Mas existem opções que podem se encaixar no esquema montado por Felipão. Com adaptações no esquema tático, Hernanes, Ramires e Bernard poderiam entrar no lugar do camisa 10. Qualquer que seja a escolha, a expectativa agora é de que Oscar assuma o protagonismo no ataque da equipe brasileira. Muito criticado antes da Copa, o 11 brasileiro fez uma grande partida contra a Croácia. Ficou apagado nas partidas seguintes e voltou a jogar bem contra a Colômbia. Caberá a ele, mais do que nunca, a partir de agora, fazer a ligação entre o meio de campo e os atacantes. E ao técnico Felipão, a missão de levantar os ânimos da equipe, abalada pela perda de sua principal referência técnica (leia reportagem à pág. Xx). “Precisamos ter maturidade para superar uma baixa dessas”, afirmou, na saída do estádio, o zagueiro David Luiz, outro destaque do time.

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SUPERAÇÃO
Em 1962, o Rei Pelé deixou a Copa por contusão
e o Brasil saiu com o bicampeonato

Na delegação brasileira, como de resto em todo o País, também ecoou a revolta com a violência empregada por Zuñiga. “Nem cartão amarelo ele levou”, protestou o capitão Thiago Silva. A expectativa brasileira é de que a Fifa seja dura em uma possível punição ao colombiano, como fez com o atacante uruguaio Luiz Suárez, que recebeu nove partidas de suspensão e foi banido do futebol por quatro meses após morder o zagueiro italiano Chiellini. Como Suarez logo após a agressão, o defensor colombiano defendeu-se depois da partida afirmando que tudo não passou de uma jogada normal. “A partida estava quente, o Brasil estava entrando forte, não tive a intenção de machucar ninguém”, disse. Dessa vez, atingiu o bom-senso.

Neymar iniciou a Copa de forma esplêndida. Nas três primeiras partidas atuou de forma excepcional. Foi eleito o homem da partida em dois jogos, na estreia contra a Croácia e na vitória contra Camarões, em Brasília. No jogo contra o Chile, no entanto, sentiu a pancada que recebeu na coxa e não conseguiu jogar tão bem. O mesmo aconteceu na vitória contra a Colômbia. Durante os 85 minutos em que esteve em campo apareceu pouco, movimentou-se sem a mesma rapidez e antes do final da partida levantava suspeitas de que poderia não estar 100% recuperado da lesão anterior, como ele e o técnico Luiz Felipe Scolari queria fazer crer. Em meio a todos os questionamentos sobre se o Brasil vai conseguir se recuperar da perda de sua maior estrela, o capitão Thiago Silva, fora da partida contra a Alemanha por conta do segundo cartão amarelo, fez questão de afirmar que “a Seleção não é só Neymar”. Ele e os outros 22 jogadores têm 90 minutos na próxima terça-feira, no Mineirão, para provar isso.

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Fotos: FABRIZIO BENSCH/Pool/AFP Photo, EITAN ABRAMOVICH /AFP Photo; Jonne Roriz / Fotoarena