Medicina & Bem-estar

Por uma velhice mais feliz

O que há de mais novo para garantir conforto e segurança a quem tem mais de 60 anos

Por uma velhice mais feliz

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Em termos de evolução demográ fica, há uma verdade absoluta: o mundo terá cada vez mais idosos. Hoje, segundo a Organização Mundial de Saúde, há 650 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Em 2050, serão dois bilhões. O fenômeno está obrigando governos e cientistas de todo o planeta a correr contra o tempo em busca de opções criativas, e ficazes e acessíveis para tornar a velhice mais segura e confortável – en fim, um período tão feliz quanto a infância ou a juventude. Para isso, a indústria voltada à assistência à população idosa tem se desenvolvido rapidamente. São serviços e produtos que procuram atender a duas demandas: a segurança e a autonomia.

Os esforços fazem todo sentido. Mais independente e seguro, o idoso pode aproveitar melhor a vida fazendo o que mais lhe dá prazer. “Por isso, tudo que possibilite conforto e facilidade para eles se manterem o menos dependentes possível será bem-vindo”, a firma Clineu Almada, da Universidade Federal de São Paulo. Ter autonomia, na de finição de Andréa Prates, coordenadora do Centro Internacional de Informação para o Envelhecimento Saudável, signi fica manter a capacidade de gerir seu dia-a-dia. E o primeiro passo para que isso seja possível é auxiliá-los a manter a integridade física e intelectual.

Nesta área, uma das novidades é o checkup funcional da maturidade, indicado para quem tem mais de 60 anos. Lançado há um mês pelo Fleury Medicina e Saúde, de São Paulo, seu objetivo é identi ficar precocemente sinais da chamada síndrome da fragilidade.

Trata-se de um estágio que antecede um declínio acentuado na capacidade intelectual e física. Os sintomas são perda de peso e de massa muscular, dé ficit cognitivo e alteração de mobilidade, como marcha instável. “A avaliação é feita por um grupo multidisciplinar e serve de orientação para o médico responsável pelo atendimento ao idoso”, diz o geriatra Nelson Carvalhaes, do setor de check-up da instituição paulista. A qualquer sinal de problema, intervenções pontuais podem ser feitas, como o estimulo à prática de exercícios que fortaleçam a musculatura – o que aprimora o equilíbrio, por exemplo – ou a adoção de hábitos que melhorem o raciocínio, como a leitura e a interpretação do que acabou de ser lido.

Com a saúde preservada, os mais velhos podem usufruir de opções interessantes para desfrutar sua liberdade e colocar em prática novos projetos de vida. Em São Paulo, por exemplo, o recém-inaugurado Espaço Sênior funciona como se fosse uma escola, seguindo uma tendência internacional. Lá, os idosos passam o dia em atividades como jardinagem e gastronomia. No fim da tarde voltam para suas residências. “Eles se divertem, mantêm amigos e não perdem o contato com a família”, a firma a geriatra Daniela de Oliveira, diretora do local. O Hiléa, aberto há dez meses, oferece serviço semelhante. Há o ficinas de arte, dança e hidroginástica, entre outras. Celina Covre, 83 anos, é uma das usuárias deste tipo de serviço. Segundo o filho, Mário Luiz, 50 anos, sua qualidade de vida deu um salto. “Ela se sente útil e mais segura”, diz. Para Adriana Rosa Ferreira, 79 anos, a opção a auxiliou a expandir a rede de amizades e a manter a memória ativa.

É claro que boa parte da autonomia que eles desejam e merecem deve vir amparada por uma grande dose de segurança. Felizmente, muitos serviços e recursos tecnológicos estão surgindo. Na primeira categoria, destaca-se, no Brasil, o Telehelp. É um serviço 24 horas acionado pelo usuário em casos de urgência. Seu funcionamento é simples. O indivíduo carrega no braço ou no pescoço um aparelho parecido com um relógio. Ao ser ligado, ele dispara um sinal a uma central, que atende a chamada e toma as providências. “As atendentes acessam o cadastro do cliente com dados sobre sua saúde e telefones de familiares, vizinhos, etc.”, explica Felipe Wright, diretor da empresa. Dependendo do caso, o serviço de ambulância é chamado. O empresário aposentado Carlos Grunenberg, 67 anos, contratou o serviço após um infarto. “Moro sozinho e isso deixava a mim e à minha família preocupados. Agora estamos mais tranqüilos”, conta.

No mundo, chama atenção também a so fisticação da chamada arquitetura da velhice, área voltada para a obtenção de ambientes seguros e que preservem a independência dentro de casa. Dois projetos – um americano e outro inglês – fornecem soluções inovadoras. Na Universidade da Flórida (EUA), os pesquisadores construíram um modelo dotado de aparelhos capazes, por exemplo, de saber quando há líquido no chão e avisar o morador. Também há sensores que auxiliam o idoso a abrir ou trancar a porta por meio de uma ordem verbal. Na residência inglesa, desenvolvida pelo setor de engenharia médica do Bath Institute, se o morador quiser sair no meio da noite, receberá um aviso e será encorajado a voltar a dormir. Se insistir, parentes serão avisados. Se o idoso andar em áreas pouco iluminadas, luzes automaticamente se acenderão. Alarmes são disparados quando a comida está muito quente e o fogão é desligado após minutos sem uso.

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Nas residências comuns, existe a possibilidade de ser feita uma avaliação domiciliar, como a oferecida pelo setor de home care do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Uma equipe vai à casa do idoso e veri fica, entre outras coisas, as condições de segurança para sua movimentação. “Olhamos se há móveis obstruindo sua passagem e se o boxe do chuveiro tem barras de apoio”, exempli fica a médica Christina Ribeiro, coordenadora do serviço. Os pro fissionais registram os pontos frágeis e o que deve ser feito para corrigi-los. Na casa de Mário Spallicci, 89 anos, tudo o que poderia ser ameaça foi removido e foram instaladas barras de apoio no banheiro e uma cadeira móvel que funciona como se fosse um elevador para a escada.

Entre as invenções tecnológicas para assegurar mais segurança, algumas são de encher os olhos. No Japão, a companhia Prop lançou uma espécie de air bag para idosos. Isso mesmo. Composto por pequenos compartimentos infláveis, o artefato é acionado em caso de queda. Segundo a empresa, as bolsas se enchem em um segundo, assim que o corpo começa a cair em direção ao chão. Esses “amortecedores” protegem cabeça e costelas. Se em princípio a invenção pode parecer esdrúxula, sua utilidade é das mais fundamentais. A queda é uma das principais causas de internação de idosos – para se ter uma idéia, no Brasil, estima-se que, a cada três pessoas com mais de 65 anos, uma sofra um tombo.

Nos Estados Unidos, cientistas criaram o uBot5, um robô desenvolvido na Universidade de Massachusetts Amherst. Ele mede 66 centímetros e pesa 16 quilos e é capaz de muitas proezas. Dotado de sensores especiais, reconhece eventos anormais, como tombos, aciona o serviço de emergência ou parentes quando constata uma situação difícil e lembra o indivíduo de tomar a medicação. Além disso, envia imagens do idoso aos familiares para que se certi fiquem de que tudo corre bem. Por enquanto, foram construídos dois. “Mas estamos em negociações com uma empresa para comercializá-lo em larga escala”, adiantou à ISTOÉ Rod Grupen, criador do uBot5.

Todos esses avanços devem ser comemorados, obviamente. Mas talvez seja cultural a grande transformação mais necessária para assegurar a nossos pais e avós uma velhice feliz. É preciso conscientizar médicos e outros pro fissionais de saúde que lidam diretamente com idosos, familiares e amigos das peculiaridades, carências e limitações dessa população. Nas iniciativas que estão sendo tomadas nesse sentido, os resultados são bons. Uma pesquisa da Universidade de Yale (EUA), por exemplo, mostrou que a simples orientação para que médicos e enfermeiros prestassem atenção aos riscos potenciais que os pacientes apresentavam de cair diminuiu em 11% a taxa de quedas no grupo estudado. Entre as recomendações estavam perguntas como quantas vezes o idoso havia caído nos últimos seis meses ou se manifestava di ficuldade de equilíbrio. “Se algo era detectado, o paciente era estimulado a praticar exercícios que atenuassem as limitações”, explicou à ISTOÉ Mary Tinetti, autora do trabalho.

Na mesma linha de atuação está investindo uma instituição americana que criou um curso para “ensinar” aos jovens o que é ser velho. No Macklin Intergenerational Institute, adultos e adolescentes passam por experiências nas quais capacidades como audição, visão e tato são deliberadamente prejudicados – os participantes usam, por exemplo, tampões de ouvido ou luvas grossas. “A procura pelo curso tem sido incrível”, contou à ISTOÉ Vicki Rosebrook, representante da organização. “Isso mostra que muita gente está preocupada em dar melhor assistência aos idosos”, acredita. No Brasil, uma das medidas nesse sentido foi o lançamento, na semana passada, de um curso para formar “cuidadores”. Ou seja, preparar pro fissionais de saúde que lidam com quem tem mais de 60 anos. “Dando a eles capacitação adequada, aprimoramos a atenção aos idosos”, explicou José Luiz Telles, coordenador da área técnica de saúde do idoso do Ministério da Saúde.