Cultura

A face sombria de Marlon Brando

Nova biografia mostra o lado autodestrutivo do ator que usava o sexo como forma de poder sobre as pessoas

A face sombria de Marlon Brando

Biografias de Marlon Brando (1924 – 2004), “maior ator de todos os tempos”, existem aos montes. O jornalista francês François Forestier, ex-crítico de cinema com passagem pelas revistas “L’Express” e “Le Nouvel Observateur”, não quis fazer mais uma em “Marlon Brando – A Face Sombria da Beleza” (Objetiva). Nada de alinhar em tom alcoviteiro mitos e lendas em torno do fauno hollywoodiano que terminou os dias como um ogro solitário. Com uma bela imagem na memória, Forestier traça o seu retrato em forma de psicanálise – justo Brando que pirou Ralph Greenson, famoso analista que tinha divã cativo para Marilyn Monroe e Vivien Leigh. “Lá estava ele diante de mim. Tinha um sorriso enternecedor, uma vibração mágica. E também algo de perigoso, uma espécie de perfume negro. Ele tinha a beleza do diabo”, escreve o autor, na apresentação, sobre a visita do astro ao “L’Express”.

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LEITURA ALUCINANTE
Livro cativa com estilo sintético, de cortes rápidos.
"Não vou contar a vida de Brando. Vou contar a
fabricação de um monstro", escreve o autor

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O diabo Brando teve atrizes, homens, intelectuais, datilógrafas, costureiras, Hollywood, quem quisesse, todos aos seus pés. Mas não gostava do ofício nem de criar ligações. Os mais próximos chafurdaram no álcool e nas drogas, enlouqueceram, cometeram assassinato, se mataram, fugiram do brilho cego do monstro. “Era o demônio”, dizia sua filha Cheyenne, que se suicidou aos 25 anos. Sobre ser ator, Brando debochou: “É como cortar fatias de presuntos, só que mais bem remunerado.” Quando não gostava de tramas insossas, pagas a peso de ouro (e foram maioria, apesar do Oscar por “O Poderoso Chefão”), costumava tapar os ouvidos com protetor auditivo durante as gravações. Uma psicanálise do gênio é, portanto, empresa fadada ao fracasso. Forestier é macaco velho, faz um recorte vertiginoso nos 80 anos de vida do ator como quem sabe o que escreve e conhece os movimentos dos que o gravitaram. A cantora Juliette Gréco, amante parisiense, assinala: “Havia nele um fundo de infelicidade. Acho que tinha problemas sexuais.”

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Problemas? Pelo relato que se lê como se assistisse em sequência a “Uma Rua Chamada Pecado” e “Sindicato de Ladrões”, para ficar nos títulos que o lançaram, o sexo guiava sua vida, era uma forma de poder. Nos tempos de teatro (estudou com as lendas Stella Adler e Erwin Piscator), ele se masturbava antes de entrar em cena. Deixava a braguilha desabotoada. Anna Kashi, uma de suas três mulheres oficiais, sempre frágeis e de etnias exóticas, disse que a forma de sedução de Brando era tão sutil como o mecanismo de uma guilhotina. “Quando perguntei se queria me violentar, ele respondeu que o estupro é apenas uma agressão com uma arma amigável.” Chamava essa arma de “nobre ferramenta”. Pela cama de Brando passaram mulheres famosas como Ava Gardner, Marilyn Monroe, Grace Kelly, Ursula Andress, Shelley Winters, Vivian Leigh e anônimas que ele fazia lavar a louça ou trocar a roupa de cama antes de se entregarem ao prazer. Entre os homens, enlouqueceu Tennessee Williams e Jean Cocteau e, dizem as más línguas, foi às últimas consequências com o ator francês Christian Marquand, amigo da vida inteira. “Como tantas pessoas, eu tive experiências homossexuais e não sinto a menor vergonha”, declarou aos 52 anos. “Gostava de ser amado, detestava ser amado”, escreve Forestier, frase que lhe serviria de epitáfio.

Fotos: John Kobal Foundation/Getty Images