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Pronto Para Outra

Depois de 15 cirurgias, incansáveis sessões de quimioterapia e muita fé, o vice-presidente José Alencar se vê praticamente livre do câncer e preparado para disputar mais uma eleição, desta vez a de senador

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XADREZ
Se confirmada, candidatura de Alencar vai mexer no tabuleiro político de Minas

O poeta russo Vladimir Maiakovski disse, certa vez, que “em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. Neste final de ano, certamente há um homem muito feliz no Brasil. O nome dele é José Alencar Gomes da Silva, 78 anos, vice-presidente da República. Depois de três anos de luta valente contra o câncer, 15 cirurgias, várias sessões de quimioterapia e radioterapia, sustos e decepções, Alencar começa a superar o câncer. Nos exames de imagem que o vice-presidente fez dois dias antes do Natal, foi confirmada a tendência de redução do nódulo. O maior tumor, que atingira 14 cm, está “definhando”, nas palavras de Alencar, e os menores simplesmente desapareceram. “Estou caminhando para a cura”, comemora. Diante das boas notícias, Alencar já traça novos projetos. Ao receber ISTOÉ em seu gabinete para falar sobre seus planos políticos para este ano, ele afirmou: “Se Deus me curar, eu posso ser candidato a alguma coisa.” Alencar ainda não confirma, mas é quase certo que sairá candidato ao Senado pelo PRB de Minas Gerais. “Estou preferindo um cargo para o Legislativo. Tenho experiência no Senado, no Executivo e meio século de atividade empresarial. Isso pode me levar a uma contribuição muito boa no Congresso.”

Com uma faixa do hexacampeonato brasileiro do Flamengo exposta na sala, Alencar interrompeu a entrevista logo no início para explicar que a paixão rubro-negra vem de longe. E citou um por um os jogadores responsáveis pelo tricampeonato estadual do Flamengo em 1942, 1943, 1944, com destaque especial a Domingos da Guia, Perácio e Zizinho. Oriundo de Muriaé, na Zona da Mata de Minas Gerais, o vice-presidente, na infância, sofreu forte influência do Rio de Janeiro. “A gente assinava jornal carioca e não tinha nada que não fosse do Rio. Ganhava uns trocados em Minas e ia gastar no Rio”, lembrou, rindo. A exemplo de seu time do coração, que só conquistou o hexa na última rodada, Alencar sabe que a campanha ao Senado não será fácil. Só há duas vagas em disputa e ele corre o risco de enfrentar o governador Aécio Neves (PSDB) e o ex-presidente Itamar Franco (PPS). Mas não mostra preocupação. “É justamente por isso que existe eleição, para o povo poder escolher. Se fosse candidato único, não teria nem graça”, afirma.

A simples menção ao nome de Alencar já mexe com o tabuleiro da política mineira. No PT, o grupo ligado ao ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel torce para que a candidatura se confirme e não esconde de ninguém que pretende usá-la para afastar de vez do páreo o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias. “Garanto que o Alencar terá apoio integral do PT de Minas. Inclusive porque nós defendemos a ideia de que o PT só tenha um candidato majoritário. E que este seja um candidato ao governo estadual, não ao Senado”, disse à ISTOÉ o deputado federal Virgílio Guimarães, que é ligado a Pimentel e ao presidente eleito do PT-MG, Reginaldo Lopes. No PMDB, que joga todas a fichas na candidatura de Hélio Costa ao Palácio da Liberdade, o nome de Alencar também é bem recebido, na medida em que facilita a costura com a base aliada. “Se ele realmente se decidir, será uma candidatura fortíssima. Acredito que Alencar terá a maior votação da história de Minas Gerais, porque conquistou o povo mineiro com sua simpatia. E nós, do PMDB, vamos tentar fazer uma coligação com ele”, antecipa o presidente do PMDB-MG, deputado Antônio Andrade.

Alencar está preparado para o desafio. Já concorreu a quatro eleições na vida e só perdeu a primeira, em 1994, para o governo de Minas Gerais. Segundo ele, “porque não era conhecido”. Em 1998, foi eleito senador pelo PMDB-MG ao deixar para trás o então governador Hélio Garcia, a senadora Júnia Marise, “considerada imbatível em eleições”, o experiente senador Murilo Badaró e o vereador Mohamed Rachid, “muito votado na capital”. “A eleição de 1998 não era difícil, era impossível. Meus amigos diziam: ‘Não faz o menor sentido o senhor enfrentar uma campanha suicida dessas’”, lembra Alencar, com um sorriso matreiro. “Na primeira pesquisa, o Hélio Garcia tinha 45%, a Júnia Marise, 23% e o Zé Alencar apenas 2%. Trabalhei serenamente, porque eu não iria me desesperar. Isso é ensinamento do meu pai: desespero não ajuda.” Hélio Garcia desistiu do pleito e Alencar derrotou a favorita Júnia. Depois disso, só contabilizou vitórias, eleito e reeleito vice-presidente na chapa encabeçada por Luiz Inácio Lula da Silva.

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Em suas plataformas de campanha, Alencar procura se inspirar no desenvolvimentismo de Juscelino Kubitscheck. Em 1950, quando JK se lançou ao governo de Minas Gerais e Getúlio Vargas a presidente da República, ambos mereceram o primeiro voto do jovem Alencar. “JK era progressista, desenvolvimentista e começou a fazer grandes hidrelétricas e estradas”, lembra. Em 1955, Alencar trabalhou novamente pela vitória de JK para a Presidência da República. “Juscelino era um homem muito simples. Uma das filhas dele, Maristela, todas as vezes que me encontra em solenidades me diz: ‘Sempre falo para minhas amigas que o mineiro que mais faz lembrar o meu pai no modo de ser é o senhor”, conta Alencar, que se diz honrado com a comparação. Ele também é reverente em relação a Getúlio Vargas e releva a ditadura do caudilho gaúcho: “Os regimes fortes eram comuns nos anos 30. Até Roosevelt foi eleito por quatro mandatos seguidos. Depois, quando foi eleito em 1950, Getúlio fez muito pelo povo, criou a Petrobras e foi responsável pela consolidação das leis do trabalho.”
Antes de ingressar na vida parlamentar, Alencar dedicou-se com afinco à representação empresarial. “Eu fazia política nas entidades de classe desde menino. Com 18 anos já era sócio da Associação Comercial de Caratinga. Nos anos 80, a gente se reunia, cinco, seis presidentes de companhias têxteis no restaurante alemão Alpino, em Belo Horizonte. Aquilo era uma beleza, a gente tomava chope, comia salada de batatas e consertava todos os problemas do Brasil”, conta. Alencar era presença de destaque nesses encontros. Foi dirigente da Associação Comercial do Estado, da qual é o único presidente de honra, e também presidiu a Federação das Indústrias de Minas. Ele faz questão de ressaltar que nesses cargos sempre defendeu ideias do interesse do País, e não somente dos empresários. Mas explica que a representação de classe não era suficiente. “Ficava sempre a ilusão de que exercendo um mandato a gente tem mais legitimidade para defender as ideias.”

Se conquistar um novo mandato de senador este ano, Alencar promete que não vai descansar enquanto não tornar realidade a bandeira que defende desde seus tempos de militância empresarial: a redução das taxas de juros no País. Ele diz que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, um dia pode conseguir provar que a política de metas de inflação está correta, mas até agora não provou nada. “Se eu pudesse, eu mudaria essa política monetária. O negócio é tratado de forma eminentemente técnica, de antolhos, não há uma visão ampla”, reclamou Alencar, na única vez em que seu semblante ficou fechado durante a entrevista.

Na opinião de Alencar, há várias razões para ser contra a taxa de juros alta. Uma delas é que é impossível achatar uma demanda que não existe. Em seus cálculos, 50% da população brasileira ainda não consome o essencial e há um percentual maior que consome apenas o necessário. “É ilusão pensar que os juros altos vão achatar o consumo de quem não consome”, critica. E o presidente Lula, o que pensa desses argumentos? “Ele tem uma característica que eu até admiro. Por exemplo, se está com dor de barriga, ouve um médico e não um engenheiro. Se está com um problema na economia, vai ouvir os economistas. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, o Luiz Gonzaga Belluzzo e o Delfim Netto. Agora, o José Alencar não é economista. E ninguém fala com essa ênfase que eu falo sobre juros. O Lula deve pensar: ‘O Zé Alencar não é economista’, então…”, lastima-se o político-empresário. E insiste na sua tecla preferida: “Queiramos ou não, o Brasil é um país de Primeiro Mundo. E não tem sentido viver com essa distorção no regime de juros. Isso é um absurdo.”

Com a mesma fé com que enfrenta a luta contra o câncer, Alencar está otimista com sua pregação contra a política monetária de Henrique Meirelles. Acredita que tanto a ministra Dilma Rousseff quanto o governador José Serra são sensíveis à questão dos juros. “A Dilma concorda comigo e o Serra também me dá razão”, diz ele. Na opinião do vice-presidente, “o Brasil tem uma sorte muito grande. Todos os candidatos a candidatos à Presidência dão condições para que a gente imagine um Brasil equilibrado, próspero e respeitado”. Palavra do mineiro José Alencar, um homem feliz.

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VOZ ATIVA
Alencar critica os juros altos defendidos por Lula

“ESTOU CAMINHANDO PARA A CURA”

ISTOÉ – Como vai sua saúde, vice-presidente? É verdade que houve uma grande melhora?
Alencar – Às vezes falam sobre esse assunto, mas as coisas não são publicadas direito. As notícias saem com dados equivocados. Porque eu já passei por 15 cirurgias. Esse tumor é recorrente e volta. A característica dele é reincidir. Ele é chamado de sarcoma em tecido mole e não está localizado em nenhum órgão do aparelho digestivo e nunca esteve. É um câncer que dá no músculo ou na gordura. A primeira vez que esse tipo de tumor me acometeu foi em 2006.

ISTOÉ – Ocorreu, então, a primeira das 15 cirurgias?
Alencar – Sim. Fui operado em 18 de julho de 2006 no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Três meses depois foram feitos novos exames e se constatou a volta do tumor retroperitoneal. Eu estava em campanha e continuei trabalhando. Quando vencemos a eleição, amanheci no hospital para fazer os exames. As eleições terminaram em 29 de outubro e no dia 30 eu estava lá.

ISTOÉ – O tumor voltou no mesmo local?
Alencar – Numa microrregião diferente. Então, fui operado pela segunda vez em Nova York, no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, famoso hospital que tem um grande cirurgião, Marc Brannon, campeão em sarcoma. Ele me operou em 14 de novembro de 2006. Uma operação demorada, de quase sete horas, porque ele adotou uma radioterapia intraoperatória para ver se erradicava o tumor. Em 2007, novos exames constataram a volta dos nódulos. Dessa vez no abdome, e não lá atrás. Uma coisa de cinco nódulos. Passei por novas cirurgias, todas no Sírio Libanês. Em 2008, mais cirurgias. Só esse sarcoma, eu operei oito vezes.

ISTOÉ – Este ano, houve novas cirurgias.
Alencar – Ao todo, foram três cirurgias. Uma em janeiro, que durou 18 horas, e duas em julho, porque surgiram 18 novos nódulos no abdome. Esse tumor não é brincadeira. É retirado completamente e com ampla margem (Alencar faz um desenho no papel). Os médicos retiram tudo o que está ao redor. Mas ele volta porque deixa algumas células. Só na região das alças intestinais, no meio delas, tiraram 11 tumores. Mas ficaram alguns. Os médicos não sabem ao certo quantos, porque estavam muito juntos. Uns falam que ficaram cinco, outros que ficaram três, mas na parte baixa do intestino. Esses não teve jeito de serem tirados. E foram crescendo.

ISTOÉ – Como o sr. recebeu as más notícias?
Alencar – Com serenidade, porque o desespero não ajuda. Fui escoteiro e o Baden-Powell, fundador do escotismo, dizia que o escoteiro sorri nas dificuldades.

ISTOÉ – Foi quando os tumores voltaram a crescer que o sr. decidiu deixar o tratamento experimental e voltar ao método tradicional?
Alencar – O doutor Paulo Hoff, oncologista do Sírio Libanês, que é o meu principal médico, disse assim depois das cirurgias de julho: “Acho que nós temos que voltar à quimioterapia clássica. Porque hoje há condições de se fazer coquetéis por via oral, além da quimioterapia intravenosa, com medicamentos associados ao tratamento. Vamos fazer uma tentativa.” Começamos no dia 1º de setembro. Em 21 de outubro, portanto 50 dias depois, fizemos os primeiros exames de imagens. Os nódulos tinham decrescido 30% e os exames não detectaram ponto novo.

ISTOÉ – Enfim, uma boa notícia.
Alencar – É verdade. Uma grande notícia. Os médicos se reuniram e ficaram impressionados com o que viram. Continuamos o tratamento: 46 dias depois, em 7 de dezembro, foram feitos novos exames de imagens. Nova redução. Uns falam de 30%, outros de 40%. Os médicos diziam que as imagens confirmavam os exames de apalpação.

ISTOÉ – O sr. percebeu a melhora?
Alencar – Também faço apalpação, mas não sou médico. Assim ocorreu e eu continuo o tratamento. Já foram 12 quimioterapias. Comecei em setembro. Faço duas semanas seguidas e uma não. No segundo e no terceiro dias, os efeitos colaterais são mais fortes. Tem febre, cansaço. Mas há os antídotos que a gente toma. Se bem que alguns antídotos também têm efeito colateral.

ISTOÉ – O sr. está caminhando para a cura?
Alencar – Estou caminhando para a cura celeremente. E eu vejo a mão de Deus. Isso só pode ser milagre. Recebo orações do Brasil inteiro. Meu gabinete está catalogando tudo. É uma fábula o que se recebe de cartas, mensagens e orações de todo o País. É uma coisa impressionante. Formou-se uma corrente nacional. Eu costumo citar o almirante Barroso. Na célebre Batalha do Riachuelo, ele dizia assim: “Sustentar o fogo que a vitória é nossa!” Eu falo isso: “Sustentar o fogo.” O meu fogo são as orações, que estão me valendo muito. Nenhum médico deixou de me dizer que esse tumor era impossível. Todos foram absolutamente francos comigo.

ISTOÉ – E os médicos não costumam ser religiosos.
Alencar – Mas respeitam. Há uns dois anos, o dr. Paulo me disse: “Eu tenho que falar com você, porque você é um paciente que merece toda a minha atenção. Esse caso é muito difícil, para não dizer impossível. Mas pode existir um milagre.” Não perdi a fé em nenhum momento. Mesmo porque eu sempre repeti: Se Deus quiser me levar, ele não precisa de câncer. Se ele não quiser que eu vá, não há câncer que me leve. E tudo indica que Deus não quer me levar.

ISTOÉ – O sr. tem algum santo de devoção?
Alencar – Eu tenho Deus, né? Tenho uma coisa com Nossa Senhora Aparecida. Agora, a minha mulher, Marisa, tem ligação demais com Nossa Senhora. Mas acho que quem manda é Deus.