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Entrevista

SÉRGIO TIMERMAN

“Não sabemos entender o infarto”

“Não sabemos entender o infarto”

Diretor do InCor diz que a maioria dos médicos não está preparada para salvar vítimas de ataque cardíaco

Por MÔNICA TARANTINO
Edição 03.10.2007 - nº 1979

Dos 126 mil brasileiros que têm infarto do miocárdio por ano, apenas 26 mil recebem o tratamento certo. Os dados são da Sociedade Brasileira de Hemodinâmica. Isso quer dizer que a maioria dos infartados não é atendida com a rapidez e a qualidade necessárias para evitar seqüelas ou morte. No momento em que estão sofrendo o ataque cardíaco, deveriam receber a aplicação de uma droga anticoagulante na veia para conter a formação do coágulo que entope artérias ou serem submetidos à angioplastia – introdução de um cateter na artéria atingida com o objetivo de desobstruí-la. Mas, a contar pelos números, isso não acontece como deveria. Esse quadro está no centro das preocupações do cardiologista Sérgio Timerman, diretor do Laboratório de Pesquisa e Treinamento em Emergência do Instituto do Coração, em São Paulo, e artífice da nova faculdade de Medicina Anhembi-Morumbi, primeiro investimento no Brasil do grupo americano de ensino Laurent, dono de escolas em 20 países. "Estamos fazendo legiões de seqüelados no País por culpa do atendimento médico ineficiente. Dar a essas pessoas a assistência correta é uma questão humanitária com sérias implicações econômicas", avalia Timerman. Nesta entrevista, ele analisa as causas do problema, dá exemplos de iniciativas que transformam a comunidade em aliada para salvar vidas e critica duramente a falta de conhecimento dos médicos. E explica como pretende formar especialistas em emergência, assim que a nova faculdade começar a funcionar, em janeiro de 2008.

ISTOÉ – Por que os médicos não atendem corretamente os casos de emergência?
SÉRGIO TIMERMAN

No Brasil, nossa emergência está em situação de emergência. Aqui não se dá a devida importância a esse atendimento. São serviços tratados com descaso e relegados a segundo plano. A maioria dos profissionais está ali para fazer bico assim que termina a faculdade. Às vezes os médicos dão um plantão por longas horas e em seguida vão para outro serviço sem condições físicas. Muitos nem são emergencistas. E é aí que mora o grande perigo porque muitas doenças acabam sendo mal tratadas.

ISTOÉ – Qual é o trabalho do emergencista?
SÉRGIO TIMERMAN

São pessoas que trabalham em áreas críticas, como a terapia intensiva, o pós-operatório e as emergências no serviço pré-hospitalar. O que assusta no Brasil é as pessoas não perceberem a gravidade de ter profissionais sem conhecimento trabalhando nessas áreas.

ISTOÉ – Qual é a conseqüência de ter gente despreparada na linha de frente? .
SÉRGIO TIMERMAN

A emergência é uma área complexa, que exige treinamento e forma de raciocínio muito rápido. A maioria não sabe fazer isso. Perdem-se vidas e há muitos riscos. Mas há outros dados que ilustram o impacto dessa atitude. Por exemplo, de 10% a 12% das pessoas atendidas nos nossos pronto-socorros deixam os serviços sem ter sido diagnosticadas e, portanto, sem tratamento. Algumas horas depois, infartam ou morrem fora do hospital. Esses pacientes foram buscar auxílio e não foram diagnosticados. O mesmo acontece com outras patologias, como o acidente vascular cerebral (conhecido como derrame). Muitas vezes, o paciente recebe alta antes que o AVC se manifeste. Por que? Porque não foi feita uma boa avaliação clínica. Aí tem alta e acaba ficando com alguma seqüela

ISTOÉ – O que acontece com as 100 mil pessoas que não são tratadas devidamente?
SÉRGIO TIMERMAN

Elas podem morrer ou ficar seqüeladas. Imagine isso do ponto de vista da economia da saúde. O indivíduo que não recebeu tratamento adequado para o infarto, por exemplo, será uma pessoa que vai passar a vida com insuficiência cardíaca (incapacidade de o coração bombear sangue para o resto do corpo), com uma qualidade de vida ruim e dependente até morrer dali a alguns anos. Estamos criando legiões de pessoas seqüeladas no País, e isso poderia ser evitado.
 

ISTOÉ – Quantas pessoas morrem por falhas no atendimento?
SÉRGIO TIMERMAN

Segundo o Datasus, há 50 mil mortes por infarto no Brasil. Boa parte deve ser pelos problemas sobre os quais falei acima. São poucos os hospitais em condições de fazer a semana toda angioplastia ou stent (espécie de mola colocada para abrir a artéria entupida) e nem todos têm a medicação para dissolver o coágulo. E a questão crucial hoje é que mesmo em hospitais que possuem as medicações para dissolver o coágulo pode haver demora ou mesmo uma falha no tratamento do infarto.
 

ISTOÉ – Pode citar um lugar onde já viu isso ocorrer?
SÉRGIO TIMERMAN

Fizemos um trabalho de conscientização da população médica em várias cidades do Norte e Nordeste. Nosso objetivo era ensinar os médicos que havia uma medicação que dissolve o coágulo ou então que se deve mandar o paciente ao cateterismo. Depois de um tempo, vimos que muitos dos medicamentos comprados pelo governo perderam a validade sem ter sido usados. Fiquei perplexo e enviei uma equipe para saber o que aconteceu. Eles descobriram que os médicos tinham medo de usar a medicação. Agora enviamos equipes para dar plantão com os outros médicos, ensinando como se faz o atendimento. É a única maneira que encontramos para fazer com que isso mude.
 

ISTOÉ – Por que os médicos já treinados por sua equipe não usaram a medicação para conter o infarto?
SÉRGIO TIMERMAN

A resposta é a cara do Brasil. As pessoas tinham medo. A equipe que foi verificar a situação ouviu, de um especialista, algo simples e claro. Ele disse: "Olha, doutor, aqui na nossa região é o seguinte – se eu der essa medicação e o paciente morrer porque esse remédio fez com que ele tivesse um sangramento maior, a família é capaz de me processar porque ele teve o sangramento. Mas se ele morrer de infarto, ele morreu de infarto, não de hemorragia." Você tem idéia do absurdo que é isso? A gente sabe que essa medicação tem uma série de cuidados, mas aprendendo a usá-la, os riscos são controlados. Só que esses médicos não conseguem ver o risco-benefício.
 

ISTOÉ – O atendimento também falha na morte súbita?
SÉRGIO TIMERMAN

O que mais leva à morte súbita é a doença coronariana. Na hora em que o músculo cardíaco está sofrendo por falta de irrigação, está vulnerável. Pode ter uma arritmia súbita, que é a chamada fibrilação ventricular. Tratase de um caos elétrico de origem súbita e, muitas vezes, quando tratado de uma maneira rápida, é reversível. Quanto mais rápido você tratar, mais rápida é a reversibilidade do problema. É questão de tempo. Se eu tiver uma parada cardíaca aqui, no meu primeiro minuto, de zero a dez minutos, eu perco 10% de chance de sobrevida. Em dez minutos eu estou morto. Agora, se fizer o tratamento certo em até cinco minutos, além de ter possibilidade maior de sobrevivência, as chances são menores de ter uma seqüela. O atendimento se faz com o uso dos desfribiladores (aparelhos que regulam as descargas elétricas no músculo cardíaco). Há trabalhos mostrando que a implantação desses equipamentos em cassinos de Las Vegas, por exemplo, e sua utilização até três minutos depois da fibrilação fazem com que 70% das pessoas sobrevivam.
 

ISTOÉ – No Brasil já existe treinamento para o uso desses aparelhos?
SÉRGIO TIMERMAN

Estamos fazendo. O InCor fez o treinamento da Varig, que chegou a ter 11 casos de parada cardíaca e 45% de salvamento. Na Câmara Federal, em Brasília, onde também demos treinamento, tivemos 80% de sobrevivência das seis paradas cardíacas lá registradas desde então. Também estamos treinando os seguranças do metrô de São Paulo. Não temos números, porque ainda estamos terminando o treinamento, mas temos três casos reportados, com salvamento em dois casos.

ISTOÉ – Como o treinamento da comunidade pode ajudar?
SÉRGIO TIMERMAN

Cerca de 84% dos ataques cardíacos acontecem em casa. E 16% em locais públicos. Nos Estados Unidos, 50% a 52% desses eventos são acompanhados por crianças ou adolescentes. Por isso, lá foi feito um trabalho de ensino de atendimento de emergência nas escolas para crianças e adolescentes.

ISTOÉ – O que se ensina?
SÉRGIO TIMERMAN

Ensinam a criança a chamar o atendimento de emergência. E a fazer a massagem cardíaca ou respiração boca a boca até chegar o socorro.

ISTOÉ – No Brasil há algo nesse sentido?
SÉRGIO TIMERMAN

Demos cursos esporádicos em escolas, mas não temos nenhum programa.

ISTOÉ – A escola que o sr. dirige dará atenção especial à formação dos médicos emergencistas?
SÉRGIO TIMERMAN

Dará a atenção devida. No currículo, introduzimos a prática médica no primeiro semestre, que contém a matéria "Aprendendo a Ser Médico". Para isso, foi feito um investimento de R$ 3 milhões na compra de equipamentos para montar um laboratório de simulação. Ela é muito importante e feita antes de o aluno colocar a mão no paciente. Dá a ele a chance de errar várias vezes enquanto está aprendendo, mas sem ferir ninguém. As escolas americanas e européias usam esse recurso.

ISTOÉ – Poderia comentar mudanças que deveriam ser imediatas na conduta das ambulâncias?
SÉRGIO TIMERMAN

Existe muita coisa para mudar. Por exemplo, você sabia que é uma regra internacional que ambulância não pode andar na contramão? Outro equívoco: não se pode transportar paciente que não esteja estabilizado. Primeiro você estabiliza, depois transporta. É mais uma convenção internacional. Você nunca transporta, entre hospitais, um paciente que não esteja estabilizado. É preciso ter a maior certeza de que ele vai chegar com segurança ao outro hospital. Trabalhei muito tempo em ambulância. Quando o doente tinha parada cardíaca, mandava parar o carro. Não se pode atender um paciente com parada cardíaca com o automóvel em movimento. Mas tenho esperança. No Brasil, esse atendimento começa a se organizar com o Samu (serviço de atendimento de emergência implantado pelo governo federal). O programa ainda tem que melhorar muito, mas já é um começo.
 

ISTOÉ – Os alunos que pagarão cerca de R$ 3 mil por mês na nova faculdade que será dirigida pelo senhor vão abrir consultório particular, trabalhar em centros de pesquisa com alta tecnologia ou atender clientes do SUS?
SÉRGIO TIMERMAN

Vivemos um momento delicado na relação com os jovens da elite brasileira que pode pagar uma escola. Mas temos de trabalhar para recuperar os objetivos da medicina e do médico. Os jovens que aqui permanecerem terão disciplinas como desenvolvimento humano e social, estilo de vida, para que possamos preparar o comportamento deles diante de ricos ou pobres. Nossa ênfase será no profissional completo da saúde. Quero que meus alunos conheçam os recursos mais avançados da medicina e tenham uma visão clara da realidade brasileira e do seu papel como médicos nesse contexto.