Comportamento

Será Que Dá Pedal?

Depois do roubo de quase um terço da frota de bicicletas, o projeto Pedala Rio volta a funcionar em janeiro, agora com mais segurança

Será Que Dá Pedal?

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Policiais com exemplares recuperados

 

Incentivar o uso de transportes que desafoguem o trânsito e diminuam a poluição é uma necessidade urgente nas metrópoles. Sintonizado com esta demanda, o Rio de Janeiro seguiu o exemplo de cidades europeias e implantou um serviço de aluguel de bicicletas públicas, o Pedala Rio, há um ano. A iniciativa louvável, porém, esbarrou num velho problema dos grandes municípios brasileiros: o furto. Em menos de duas semanas, 56 unidades foram roubadas. O episódio colocou em xeque a viabilidade do modelo numa cidade que sofre com a falta de segurança pública e a atuação de gangues criminosas. Incapaz de operar sem quase um terço da frota, a concessionária Serttel cancelou o serviço temporariamente. A empresa promete reativá-lo em janeiro, mas agora com novas precauções para tentar driblar os gatunos.

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VAZIO
Furto de 56 bikes interrompeu o serviço de aluguel.

 

Para isso, usará mecanismos como travas mais resistentes nas estações e dispositivos eletrônicos que permitam comunicar à central de operações a retirada forçada dos equipamentos. Também está sendo estudada a implantação de câmeras nos pontos de aluguel. Além disso, as bikes não voltarão prateadas às ruas, mas com cores chamativas, para serem mais facilmente identificadas. “Estamos aprendendo ao longo do processo”, diz Ângelo Leite, presidente da Serttel. “Recebemos total apoio da população e não vamos desistir.” Ao que tudo indica, o furto das bikes foi uma ação coordenada. Ladrões teriam usado a estrutura do próprio equipamento como alavanca para quebrar as travas de segurança nas estações, que, a não ser por isso, permaneceram intactas. “Tudo ia muito bem até esse incidente”, afirma Altamirando Moraes, subsecretário de Meio Ambiente da prefeitura. Segundo ele, agora o Estado concordou em dar maior atenção ao policiamento e ao controle das estações. Esta ação integrada das duas esferas de governo é uma providência útil para salvar uma boa ideia.

 

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ADEPTA
A enfermeira Clarice Cantarelli utilizava as bicicletas do Pedala Rio para ir ao trabalho

 

O Pedala Rio funciona assim: o usuário se cadastra na internet e compra um passe com cartão de crédito que lhe dá o direito de retirar uma bicicleta em qualquer uma das 18 estações da cidade, para depois devolvêla na que quiser. Uma solução ideal para quem quer fazer um trajeto parte pedalando, parte de ônibus, metrô ou a pé. Como a enfermeira Clarice Cantarelli, 47 anos, que, até a suspensão dos serviços, usava o Pedala Rio para ir de casa à estação de metrô. “Além de chegar mais rápido, eu aproveitava para fazer exercício”, diz ela, que também costumava pedalar pela orla aos domingos. “Espero que seja retomado o mais rápido possível.” Apesar do alcance ainda reduzido do programa – são apenas 180 bicicletas numa cidade com mais de seis milhões de habitantes –, a iniciativa é nobre na prática e nas intenções: integrar a locomoção sobre duas rodas ao sistema de transporte público no Rio, tendo ao seu dispor uma malha cicloviária de 140 quilômetros, a maior do Brasil. Lançado na orla de Copacabana, o Pedala Rio está hoje nos bairros de Ipanema, Lagoa e Leblon. Conta com 450 usuários ativos atualmente e contabiliza mais de 6,6 mil viagens. O preço dos passes para usar os equipamentos varia de R$ 10, por um dia, a R$ 100, por um ano. Apesar de criticado pela burocracia no cadastramento e na liberação de bicicletas – que exclui, por exemplo, usuários sem celular –, o Pedala Rio tem sido elogiado por especialistas e usuários já acostumados ao trâmite.

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“É uma solução muito boa para distâncias curtas”, opina José Lobo, presidente da ONG Transporte Ativo. Um estudo da entidade mostrou que, em distâncias de até três quilômetros, é mais rápido se locomover na capital fluminense sobre duas rodas do que de carro. O comerciante Daniel Uram, 45 anos, vai ainda mais longe: “Para trajetos de até oito quilômetros, prefiro pedalar a ir de carro”, afirma. “Como muitos prédios proíbem o estacionamento de bicicletas, o aluguel resolve o problema.” Em setembro, a cidade de Blumenau, em Santa Catarina, foi a segunda a adotar o sistema de compartilhamento de bicicletas públicas no Brasil. O Rio é a grande vitrine deste projeto. Se for bem-sucedido, deve inspirar mais cidades brasileiras.