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À espera do cárcere

ISTOÉ acompanhou o cotidiano do delator do mensalão, Roberto Jefferson, em sua casa no interior do Rio, enquanto aguarda decisão do STF sobre sua prisão

À espera do cárcere

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Prestes a iniciar o cumprimento de sua pena de 7 anos e 14 dias, em regime semiaberto ou em casa, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) escolheu como refúgio temporário o pacato município fluminense de Comendador Levy Gasparian, com menos de 10 mil habitantes, a 140 quilômetros da capital do Rio de Janeiro. “Quem vive aqui é feliz”, alardeia a prefeitura em placas pela cidade. Nos últimos dias, Jefferson tentou cumprir à risca o slogan municipal, enquanto aguarda decisão do presidente do STF, Joaquim Barbosa, sobre seu pedido de prisão domiciliar.

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Com saúde frágil, o político que delatou o mensalão e foi condenado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva tem se comportado como se estivesse de férias em sua casa de campo que ocupa dois quarteirões em Gasparian. Trajando jaqueta de couro da mesma marca de sua moto, Harley-Davidson, ele circula pela cidade ou estica seus passeios até a mineira Juiz de Fora, a 48 quilômetros. Sempre em companhia da mulher, Ana Lúcia, Jefferson também pratica exercícios físicos com um personal trainer, lê e ouve música. O hábito de escutar a “Ave Maria”, de Franz Schubert, em som alto, todos os dias às 18h, incomodou a vizinhança, que reclamou e acabou atendida por ele. Um conhecido do político, que pediu para não ser identificado, diz que Jefferson está mais solícito e afável nos últimos tempos. O falastrão que surpreendeu o Brasil ao desafiar o ex-ministro José Dirceu (na CPI, em 2005) com a frase “Vossa Excelência provoca em mim os instintos mais primitivos” saiu de cena. Agora Jefferson encarna o “Robertinho paz e amor”, como definiu à ISTOÉ um vizinho do ex-deputado.

Parentes de Jefferson também são proprietários de casas na rua Ernesto Paixão, onde ele mora. Quem não é da família é amigo, atestam os vizinhos. Ao contrário do terreno, sua residência não é grande, tem apenas dois quartos. Uma muralha verde de três metros de altura e 50 metros de extensão frontal cerca a propriedade, que tem, na entrada, dois leões esculpidos em pedra, dando a impressão de estarem rosnando sobre o portão de ferro. Seis cadelas barulhentas perambulam pelo terreno da família. Católico, o delator do mensalão mantém um oratório dentro de sua casa e frequenta igrejas. No fim de setembro, participou de uma celebração penitencial na Matriz de Nossa Senhora de Aparecida, no centro da cidade – algo como cerimônia para expurgar culpas. Há poucas semanas, comemorou seu aniversário de 60 anos com missa na igreja onde foi batizado, em Sapucaia, município próximo.

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MAIS PRISÕES
Na quinta-feira 5, Valdemar Costa Neto se apresentou à
Papuda, em Brasília, horas depois de decretada sua prisão

Jefferson não conta mais com secretária e assessores, mas continua ativo na política. Recentemente, indicou nomes para o segundo escalão do governo Dilma. Foi ele quem negociou com o governo Dilma, por exemplo, a indicação do nome do PTB que ocupará a vice-presidência para assuntos de governo do Banco do Brasil, sem titular desde que César Borges assumiu o Ministério dos Transportes. Em agosto, circulou por Brasília e se reuniu com colegas de partido, acertando acordos para 2014. Já disse que, se a presidenta Dilma cumprir os acordos firmados com ele até março do próximo ano – ou seja, se nomear alguns petebistas para cargos federais –, manterá o apoio a ela. Se o acerto não for honrado, o PTB de Jefferson, sob a orientação dele, da cadeia ou de casa, fará campanha para o senador Aécio Neves (PSDB-MG).

Nos últimos dias, no entanto, Jef­ferson deu uma pausa nas tratativas para 2014. Recolheu-se ao silêncio, sob orientação de seu advogado, Marcos Pinheiro de Lemos. Para fugir dos holofotes, tem deixado uma velha pick-up Saveiro escondida em sua propriedade, em vez de usar os carros Ford Edge e Fusion que ele usa normalmente. “Os repórteres na porta da casa nem percebem, e ele deve sair zoando os jornalistas”, ironizou um morador da cidade.

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Gasparian recebe bem o ex-deputado federal, ao contrário da cidade natal dele, Petrópolis, na região serrana do Rio. Lá, ele não conseguiu mais do que 10% dos votos para se eleger, em 2002. A professora Eunícia Fernandes, doutora em história pela Universidade Federal Fluminense, disse que os petropolitanos sempre suspeitaram da riqueza da família de Jefferson: “Eles eram donos de um colégio rico, inovador, moderno, mas todos se perguntavam de onde vinha tanto dinheiro.”

A vida de Jefferson em Gasparian só é incomodada pelas consequências de um câncer no pâncreas, extirpado no ano passado. Como é diabético e também já passou por uma cirurgia de redução de estômago, sua alimentação precisa ser restrita e severa. “Ele está bem, mas tem uma vida toda regulada. Precisa ir ao banheiro umas dez vezes ao dia e tem muita dificuldade em absorver os alimentos”, diz o secretário de Comunicação do PTB e amigo, Honésio Ferreira. Na última quarta-feira 4, o delator do mensalão, Roberto Jefferson, deixou a tranquilidade de Gasparian para ser examinado por uma junta médica do Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Centro do Rio. Ele chegou ao local por volta das 7h50 e saiu duas horas depois, sem falar com a imprensa. O laudo da perícia foi enviado para o Supremo Tribunal Federal. Com base no laudo do Inca, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, irá decidir, nos próximos dias, se Jefferson cumprirá pena em regime semiaberto ou em casa.

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ELE DECIDE
O presidente do STF, Joaquim Barbosa, dará parecer final
sobre pedido de prisão domiciliar de Roberto Jefferson

Na quinta-feira 5, Barbosa determinou a prisão de mais quatro condenados pelo mensalão. Dois deles se apresentaram horas depois no presídio da Papuda – o deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP) e o ex-deputado Bispo Rodrigues (PR-RJ) — e dois em unidades da Polícia Federal em Brasília – Pedro Corrêa (PP-PE) e o ex-dirigente do Banco Rural Vinicius Samarane. Valdemar renunciou ao mandato pela segunda vez em oito anos. A primeira foi em 2005, quando estourou o escândalo do mensalão, mas ele conseguiu se reeleger no ano seguinte. Agora, perdeu os direitos políticos até 2029, devido à Lei da Ficha Limpa.  

Fotos: MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO; Antoinio Araújo/Futura Press