Tecnologia & Meio ambiente

A vez do hidrogênio

A chegada ao mercado dos primeiros carros com célula de combustível e o avanço nas técnicas de produção do gás deixam mais próximo da realidade o sonho de veículos que soltam apenas água pelo escapamento

A vez do hidrogênio

INOVAÇÃO Tucson Fuel Cell, da Hyundai, entrará no mercado em 2014 e será o primeiro carro movido a hidrogênio vendido em larga escala ()

A indústria automotiva está numa encruzilhada. Enquanto precisa cortar pela metade as emissões de CO2 de seus veículos até 2050, ela ainda sofre para desenvolver uma alternativa viável ao motor de combustão interna. Três lançamentos recentes de montadoras asiáticas – Toyota, Hyundai e Honda – mostram que parte da solução pode estar nos veículos com célula de combustível de hidrogênio (FCV).

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INOVAÇÃO
Tucson Fuel Cell, da Hyundai, entrará no mercado em 2014 e será
o primeiro carro movido a hidrogênio vendido em larga escala

Os FCV são automóveis elétricos que usam, no lugar da bateria tradicional, um sistema que não depende de recargas na tomada. É na célula de combustível que o hidrogênio, armazenado sob alta pressão em um tanque reforçado, é convertido em eletricidade (confira quadro na página ao lado). O único subproduto da reação é inofensivo ao meio ambiente: vapor de água. As vantagens sobre os veículos elétricos tradicionais são muitas. A autonomia do FCV pode chegar a 500 quilômetros com um único tanque. O tempo de reabastecimento não passa de três minutos, contra até oito horas dos carros com bateria. Além disso, a célula de combustível não se degrada com o tempo, ao contrário das baterias, que perdem a garantia depois de oito anos nos veículos mais modernos.

O primeiro carro a hidrogênio a chegar ao mercado deve ser o Hyundai Tucson Fuel Cell, uma variante do nosso conhecido ix35 que será vendida a um número limitado de clientes nos Estados Unidos no início de 2014. Já os modelos de Honda e Toyota começam a ser comercializados em 2015 no Japão e, depois, nos EUA. De acordo com a Toyota, o preço de seu FCV ficará entre US$ 50 mil e US­$ 10­0 mil, dependendo de incentivos fiscais para veículos “verdes”. Hyundai e Honda têm estimativas semelhantes. “Este é o momento em que a célula de combustível deixa de ser um projeto de pesquisa para se tornar uma verdadeira opção ao consumidor”, disse John Krafcik, presidente da Hyundai nos EUA.

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TANQUE CHEIO
O abastecimento de um carro a hidrogênio leva menos de cinco
minutos e a autonomia pode chegar a 500 quilômetros

Esse movimento dos laboratórios para as ruas é acompanhado de importantes inovações no processo de produção do hidrogênio, que não é encontrado na natureza em estado puro. Em novembro, cientistas da Universidade de Stanford, nos EUA, criaram uma forma potencialmente barata e sustentável de extrair o gás. O chamado “separador de água” consiste de eletrodos imersos que, quando iluminados, transformam o líquido em hidrogênio e oxigênio. A grande inovação do processo está em uma camada ultrafina de níquel que cobre os eletrodos, feitos de silício. Ela protege o material da corrosão, que se inicia imediatamente no contato com a água e, de outra forma, inviabilizaria o sistema. “O objetivo final é produzir hidrogênio usando apenas água e luz do sol”, explicou à ISTOÉ Mike Kenney, pesquisador do departamento de química de Stanford. Nos testes iniciais, os cientistas provaram que o dispositivo é capaz de trabalhar por pelo menos 80 horas sem desgaste. “O próximo passo é aumentar a estabilidade”, diz Kenney. “Um sistema comercialmente viável precisa funcionar por anos.” Hoje, mais de 50 milhões de toneladas de hidrogênio são produzidas anualmente a partir de combustíveis fósseis, especialmente gás natural.

Ao mesmo tempo que carros com célula de combustível chegam às ruas e novas formas de produzir hidrogênio são estudadas, as montadoras pressionam para que os governos incentivem a instalação de postos de abastecimento. Hyundai e Honda veem na Califórnia, Estado mais rico dos EUA, o maior potencial para esse tipo de iniciativa. Em outubro, o governador Jerry Brown determinou que US$ 20 milhões sejam gastos por ano no desenvolvimento dessas estações até que pelo menos 100 delas existam. Hoje, apenas nove postos estão abertos ao público e outros 19 estão em construção. É pouco, mas são os primeiros passos de uma tecnologia promissora que finalmente começa a se tornar realidade.

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Fotos: AR Culture/Corbis