Cultura

O alquimista POP

ISTOÉ mostra com exclusividade as telas que o pintor Romero Britto fez para celebrar os 25 anos de "O Alquimista", livro que projetou Paulo Coelho e voltou ao topo da lista de mais vendidos nos EUA

O alquimista POP

A tela -Tudo É uma Coisa Só- (à esq.), de Romero Britto: síntese do universo simbólico do livro de Paulo Coelho que já foi traduzido para 80 idiomas ()

A magia encontra o pop. Nos 25 anos de lançamento de “O Alquimista”, que acontece no domingo 8, o livro mais traduzido do mundo ganhou exuberante tradução visual assinada por um dos mais conhecidos artistas brasileiros no Exterior, Romero Britto. O pintor pernambucano radicado há 26 anos em Miami criou uma série de telas inspiradas na história que projetou Paulo Coelho e fez dele o autor nacional mais lido no planeta. A viagem do jovem pastor Santiago, que sai da Espanha em busca de um tesouro e mais tarde descobre que a riqueza que procurava estava lá mesmo onde vivia, ganhou cores vivas e um mosaico de formas geométricas, que ISTOÉ revela com exclusividade. “Paulo Coelho é meu amigo. Ao parabenizá-lo pela comemoração, disse que queria criar uma tela para cada ano de existência do livro. Ele adorou”, diz Britto, leitor assíduo das obras do mago. A primeira pintura criada, um grande painel intitulado “All Is One” (Tudo é uma coisa só), sintetiza a visão que o pintor tem da história e deu origem à série inteira.

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A TELA
"Tudo É uma Coisa Só", de Romero Britto: síntese do universo
simbólico do livro de Paulo Coelho que já foi traduzido para 80 idiomas

Os milhões de leitores de Paulo Coelho identificam facilmente a passagem a que Romero Britto se refere na obra-mãe: trata-se da conversa entre o pastor andaluz e o rei de Salém, quando o velho homem diz ao viajante que “tudo é uma coisa só”. Outras telas receberam o nome de “Santiago”, “A Mão de Fátima” ou “A Tábua de Esmeralda”, de acordo com passagens-chaves do romance. “É como eu vejo a história”, diz Britto. Sua homenagem soma-se, assim, a outras que aconteceram durante o ano, como a edição limitada das canetas de luxo italianas Montegrappa, de ofuscar a visão de colecionadores. Nomeada “The Alchemist”, uma das oito esferográficas com design em ouro e diamantes está avaliada em US$ 110 mil. A data redonda foi também lembrada nas listas dos mais vendidos. Desde o início do ano o romance frequentaos primeiros lugares da prestigiosa relação de best-sellers do jornal americano “The New York Times”, um grande feito para uma obra publicada nos EUA em 1993.

Na primeira semana de outubro, por exemplo, o título galgou a terceira posição, só perdendo para “50 Tons de Cinza”, de E. L. James, e para “Morte Súbita”, o livro “sério” de J. K. Rowling. São 280 semanas sem ficar ausente da lista, um recorde na medição do jornal. Para o editor Marcos da Veiga Pereira, da Sextante, dona há três anos do passe de Paulo Coelho, o fenômeno tem mais uma explicação. “Tornou-se uma tradição americana presentear os formandos no ensino médio com um exemplar da novela”, diz. O que faz todo sentido: é nesse momento, antes de ingressar na faculdade, que os jovens estão em busca de sua “lenda pessoal”, o sonho de realização de que fala o rei da história, primeiro sábio encontrado pelo pastor em sua viagem iniciática. Segundo Pereira, Paulo Coelho vende hoje cerca de um milhão de títulos por ano nos EUA – ao todo, suas vendas somam 150 milhões de exemplares no mundo.

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NO TOPO
Paulo Coelho continua best-seller: só nos Estados Unidos
seus livros vendem um milhão de cópias por ano

Na linguagem editorial, “O Alquimista” pertence à categoria de romance que os executivos da área chamam de “long-seller book”, o livro que nunca para de vender. No Brasil, o título vendeu 26 mil exemplares no ano passado – a primeira tiragem de um lançamento na editora Sextante é de 8 mil unidades. Mesmo assim, o editor Marcos da Veiga Pereira não está satisfeito com a cifra. Acha que pode chegar ao patamar de 40 mil livros por ano. A pretensão é transformá-lo em um clássico? “Clássico ele já é”, responde Pereira. “O que queremos é criar um mercado permanente para ele.” De fato, “O Alquimista” nasceu com essa qualidade de fábula universal. Inspirado em um dos “Contos das Mil e uma Noites”, seu enredo já foi usado por autores como o persa Jalal ad-Din Muhammad Rumi e o argentino Jorge Luis Borges e vertido para 80 idiomas.

Autor de um estudo a ser publicado sobre Paulo Coelho, o professor de sociologia da USP Fernando Antônio Pinheiro Filho busca explicar o sucesso do livro em tantos países. Inclusive naqueles que se afastam completamente da cultura narcisista da qual os críticos da obra costumam lançar mão para dar conta do fenômeno editorial, caso das nações islâmicas e das de regime teocrático. “O alcance da obra de Paulo Coelho se explica pelo fato de ele passar ao leitor uma espécie de controle mágico do tempo e do destino. Para isso, usa uma linguagem direta, acessível a todos, independentemente de seu lugar no mundo social”, afirma Pinheiro Filho.

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Mesmo antes de ser publicada, Paulo Coelho sabia do potencial de sua história, com lances de aventura e pensamentos filosóficos e esotéricos que seus leitores sabem de cor. O mais famoso: “Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo.” Antes de ser comercializado pela editora Rocco, “O Alquimista” (e também “Diário de Um Mago”, a obra de estreia do escritor) foi lançado por um selo pequeno, sem repercussão. Paulo Rocco, seu primeiro grande editor, lembra de como teve contato com as obras iniciais: “Estava num lançamento e o Paulo chegou e me disse: tenho esses dois livros, leia e diga se está interessado. Marquei outro encontro e disse que sim, me interessava.

Era novembro e ele queria que as obras saíssem antes do Natal.” Rocco fechou o contrato, aceitou todas as exigências e viu a primeira edição se esgotar rapidamente. “Antes de gostar dos livros eu gostei foi do Paulo. Senti nele a vontade de dar certo. Vi também o apelo popular das obras. Acho que estava certo e ele mais ainda”, diz o editor.

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EXCLUSIVO
Romero Britto pretende lançar uma tiragem limitada de gravuras
a partir das telas, todas autografadas por Paulo Coelho

Rocco faz questão de enfatizar que todo o sucesso de Paulo Coelho no Exterior, com um total de 834 traduções em 224 territórios, deve-se única e exclusivamente a esse empenho, notado por ele desde aquela noite, nos anos 1980. Ele diz que a sua editora trabalhou muito bem os dois primeiros lançamentos, mas a única coisa que fez em relação ao mercado externo foi providenciar tradução e mandar confeccionar folders. Os contatos foram feitos diretamente pelo escritor. “Lembro de ter falado dele para a HarperCollins (editora americana de Paulo Coelho), mas foi o Paulo quem concretizou o contrato.” Já nessa grande negociação, o escritor mostrava pulso forte: não permitiu que “O Alquimista” ganhasse o título de “O Pastor e Seus Sonhos”. Hoje quem faz todo esse trabalho é a sua agente Monica R. Antunes, por meio da empresa Sant Jordi Asociados, sediada na Espanha. Apelidada de “a bruxa de Barcelona”, Monica abastece o autor com relatórios sempre atualizados. “Ela nunca sai satisfeita daqui”, diz Pereira, que tem contrato com o autor até 2015. Para satisfazer a executiva (e não perder o contratado, claro), revela suas pretensões: chegar aos 100 mil exemplares vendidos por ano, transformando o “O Alquimista” em um clássico também no Brasil. “Ele é o nosso ‘Pequeno Príncipe’”, diz, referindo-se ao livro de Antoine de Saint-Exupéry, que nunca se despede das listas de mais vendidos.

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Fotos: FRANCOIS GUILLOT/AFP; Alexandre Rezende/Folhapress