Brasil

O corpo é o limite

Morte de campeã brasileira de fisiculturismo expõe os riscos do consumo de anabolizantes

Lúcia Helena de Jesus Gomes não escondia de ninguém que queria "entrar para arrebentar" no campeonato estadual Mister Rio, em outubro. Afastada do pódio há três anos, a tricampeã brasileira e campeã sul-americana de fisiculturismo – 74 quilos de músculos distribuídos em apenas 1,54m de altura – sonhava mostrar que ainda era a mulher mais forte do Brasil. Acabou pagando um preço alto demais pela obsessão. Na segunda-feira 6, aos 33 anos, a atleta morreu num leito do Hospital Miguel Couto, depois de passar cinco dias em coma. O diagnóstico: hepatite tóxica, provocada pelo consumo excessivo de medicamentos.

Lúcia foi encontrada pelo companheiro, Baby, no chão da cozinha do apartamento onde morava, em Copacabana, zona sul da cidade. O corpo estava comprimido. Da boca, saíam sangue e espuma. "Ela não se alimentava direito e tomava muito remédio para emagrecer", lamenta a amiga e fisiculturista Ana Cláudia Macedo. Para ajudar no diagnóstico, Baby teria exibido aos médicos uma lista de substâncias que estavam sendo ingeridas por Lúcia Helena para dar ao corpo o padrão de qualidade das competições.

Ninguém admite publicamente que Lúcia Helena fazia uso de remédios, embora todo mundo acredite nisso. "Ela era extremamente forte. É óbvio que tomava alguma coisa", afirma Jayme Rousso, dono da academia Heavy Duty, onde Lúcia malhava de graça. "Todo mundo toma anabolizante, hormônio para crescimento (GH). Tem também um hormônio que aplicam em cavalo de corrida, o Ecpólis. A Lúcia conhecia tudo isso e alguma coisa fez mal a ela", diz uma colega da fisiculturista que não quis se identificar.

O hormônio de crescimento a que se refere a colega de Lúcia Helena é uma substância sintética que imita a ação do verdadeiro hormônio de crescimento. Já os anabolizantes agem como o hormônio testosterona, fabricado pelos testículos e que, entre outras funções, aumenta a massa muscular. Apesar de serem ilegais, é fácil chegar a essas drogas. "Na academia tem sempre alguém que vende ou sabe quem vende. Hormônio para cavalo compra-se no jóquei mesmo", revela um dos bombados de academia.

A tragédia de Lúcia Helena expõe mais uma vez os riscos de se ingerir esse tipo de substância. "O objetivo das drogas é aumentar a massa muscular. Utilizadas em excesso e misturadas a outros medicamentos podem provocar problemas cardiovasculares ou uma hepatite tóxica", explica o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina, Marcos Brazão. Além de coma hepática, Lúcia Helena sofreu coma hipoglicêmica. Perdeu as reservas de glicose, o combustível das células. Em função disso, o amigo D., 25 anos, garante que o que matou a fisiculturista não foram os anabolizantes. "Ela estava tomando insulina escondido porque sabia que era perigoso. A insulina tira o açúcar que está circulando no sangue e o faz entrar nas células. Esse açúcar vira fonte de energia para sintetizar proteínas, que ajudam a aumentar a massa muscular. Se você não se alimentar direito, entra em coma porque a insulina queima todas as suas reservas", explica. Lúcia Helena morreu antes de arrebentar no campeonato.