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Fotos: Roberto Castro/AG. Istoé; ado henrichs/ag. rbs; Sérgio Lima/Folha Imagem

Entrevista

Odacir Klein

“O Álcool me Causou Ressaca Moral”

“O Álcool me Causou Ressaca Moral”

Alcoólatra por mais de 30 anos, o ex-ministro rompe o silêncio e conta em livro de memórias como o vício quase acabou com a sua vida

Francisco Alves Filho
Edição 23.12.2009 - nº 2094

Como ministro dos Trans­portes, no governo de Fernando Henrique, e deputado federal por quatro man­­datos, o gaúcho Odacir Klein, 66 anos, enfrentou muitos desafios, mas nada comparável aos dramas que teve que superar na vida pessoal. Vítima do alcoolismo, por várias vezes sacrificou sua agenda de compromissos por conta da bebida.

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"Teve um sábado em que tomei todas
e o Felipe  foi para o apartamento em que eu estava,
viu aquilo e se jogou do nono andar"

O pior, no entanto, foram as consequências do vício na família. Por causa de um de seus porres, seu filho Fabrício, que tinha tirado carteira de motorista havia pouco tempo, tomou o volante do carro e acabou atropelando uma pessoa, em 1996. O golpe mais duro, porém, ainda estava por vir. Depois de repreendê-lo duramente por ter voltado a beber, o outro filho, Felipe, jogou-se do nono andar do prédio em que estavam, em Porto Alegre, e morreu. “Só entendi o que tinha acontecido depois, quando acordei”, diz. Desde então, parou de beber. Para acertar as contas consigo mesmo e alertar para os riscos do alcoolismo, Klein escreveu o livro “Conversando com os Netos”, no qual corajosamente relata suas desventuras. “Admito que tive esse vício”, diz ele, cujo pai e o avô também foram alcoólatras. Klein saiu da política e é, hoje, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho, em Brasília.

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"Quando eu era ministro, no final da tarde eu já não tinha condições de falar ou dar entrevista. Era, a rigor, um porrinho a cada noite"

ISTOÉ – Quando a sua atração pela bebida passou a se tornar um problema?
Odacir Klein

Demorou algum tempo. Fui prefeito com 25 anos, em Getúlio Vargas (RS), e bebia em festas, mas não era todo dia. Comecei o tal de “beber socialmente” quando assumi a Câmara dos Deputados, em 1972. Eu saía de lá e achava que era bonito, que dava status chegar em casa e pegar um copo de uísque. Tinha 31 anos. Fui levando e foi acentuando. Eu tinha o sinal amarelo aceso e não sabia. O que no começo eram duas doses passou para três ou quatro. E foi acentuando.

ISTOÉ – Como o sr. começou a beber?
Odacir Klein

Eu sabia o que tinha ocorrido com meu avô em relação ao alcoolismo, acompanhava o problema do meu pai, sabia que meu pai tinha irmãos que também tiveram problemas com álcool e haviam parado. Mesmo assim, eu achava bonito beber um pouco. Então, era bonito ir a um baile e beber, ir a um jantar com os amigos e beber… Comecei com 15, 16 anos

ISTOÉ – Quando o sr. acha que chegou ao ponto máximo?
Odacir Klein

Acho que ficou mais acentuado naquela época em que estive no Ministério, em 95 e 96. O vício já tinha tomado conta do organismo, não tinha nada a ver com a rotina de Brasília, excesso de preocupação ou com alívio de tensão. Mas não notava que as coisas estavam fora de controle.

ISTOÉ – Como o alcoolismo influía no dia a dia do Ministério? E como deputado?
Odacir Klein

Quando eu era ministro e havia recepções de governo, ou até no Itamaraty, com representações estrangeiras, minha mulher me acompanhava, apavorada. Ela sabia que antes da recepção eu já ia começar a tomar um uisquezinho, depois haveria um vinho na recepção e eu beberia mais do que a média das outras pessoas. Ela já imaginava que isso ia acontecer, embora eu conseguisse dissimular muito bem. No final da tarde, início da noite, quando os profissionais da imprensa ou pessoas ligadas a assuntos eleitorais me ligavam, eu já não tinha condições de falar ou dar entrevista. Era, a rigor, um porrinho por noite.

ISTOÉ – Qual era o pior efeito da bebida?
Odacir Klein

A ressaca moral, uma profunda vergonha por lembrar do que tinha feito ou por não conseguir lembrar de algo que as pessoas comentavam que eu fizera. E, quando vinha a repreensão, havia um misto de arrependimento com uma rejeição contra quem falava.

ISTOÉ – Como foi o acidente automobilístico em que seu filho atropelou uma pessoa que acabou morrendo? Qual a relação com a bebida?
Odacir Klein

Ele havia recebido seu primeiro salário trabalhando como auxiliar num escritório de contabilidade, e fomos para o Clube do Congresso fazer um churrasco. Não quis ir de carro oficial, porque era um compromisso privado. Ele havia tirado a carteira pouco tempo antes e eu disse: “Te controla porque tu vais dirigir na volta.” Tomei todas, achando que não havia nenhum problema. Na volta, ele conta que nosso carro foi fechado e por isso houve o atropelamento. Como eu estava de bermuda, de roupa esporte e embriagadíssimo, tenho certeza de que ele não parou aquele carro porque sabia que havia outras pessoas para socorrer e não queria me expor. Hoje ele só diz para eu não me culpar por nada.

ISTOÉ – Foi por causa do acidente que o sr. entregou o cargo de ministro?
Odacir Klein

Isso mesmo. Dois dias depois li uma matéria num jornal que mencionava a minha história e dizia que eu não tinha mais condições de continuar ministro. Saí, e não é preciso dizer que dei uma afundada etílica respeitável. Eu sofri muito. Primeiro, porque minha vida não é pautada por agressões e uma pessoa tinha morrido (no acidente). Segundo, havia toda uma repercussão pública, como se eu fosse o bandido número 1 do País. Então, naquele momento, aquilo machucava e marcava, não há a menor dúvida.

ISTOÉ – E como foi o suicídio de seu outro filho?
Odacir Klein

Esse foi um episódio muito duro. Por várias vezes, estava no bar em Porto Alegre, ligava para casa e dizia para meu filho mais novo: “Olha, vem me buscar aqui no bar porque não estou bem”, e ele ia. Ele tinha 20 anos na época, sofria quando eu bebia. Eu estava na Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul e tinha parado de beber por mais de um ano. Mas ele sentiu que eu estava naquela de achar que essa coisa da dependência era bobagem e eu podia beber um pouco. Um dia, estávamos conversando e ele sentiu algo errado: “Você bebeu.” E foi aí que ele me disse: “Se você voltar a tomar bebida alcoólica, não vai mais me ver.” Teve um sábado em que eu tomei todas e ele foi para o apartamento em que eu estava, viu aquilo e houve o desfecho. Ele se jogou do nono andar do prédio em que eu estava morando. Foi o último dia em que bebi, em 17 de abril de 2004. Dormi e quando eu acordei é que me disseram o que tinha acontecido.

ISTOÉ – Como o sr. lida com essa lembrança dolorosa?
Odacir Klein

Eu estabeleci para mim um conceito: saudade não é a dor da separação, é a expectativa alegre do reencontro. É um conceito meu, não li em parte nenhuma. Eu digo que, quando eu era criança, os jovens iam prestar serviço militar a 700 km de onde eu morava. Quando os jovens iam, as famílias choravam muito e quando voltavam era uma alegria. Tenho certeza do reencontro com meu filho.

ISTOÉ – E na época, como o sr. enfrentou esse fato?
Odacir Klein

Eu mergulhei no trabalho com muita intensidade. Estava muito confuso com tudo. Naquele momento, a grande mão amiga foi o governador Germano Rigotto. Eu era secretário de Agricultura e a rigor estava prejudicando o governo. Ele escreveu uma carta muito bonita e me telefonou para dizer que eu tinha uma história política e que ainda teria muito por fazer, frisou as minhas condições como pessoa. Antes dessa recaída, ele tinha me sugerido ir para um spa. Passei inteiro durante a campanha dele, quando fui candidato a senador. Já não bebia havia um ano, e aí, no início do governo, meu pai faleceu. Tive uma recaída.

ISTOÉ – Por que o sr. decidiu escrever o livro?
Odacir Klein

Tive internações para me desintoxicar e em conversas com médicos aprendi algo  que a grande maioria das pessoas não sabe. As pessoas ficam muito surpresas quando descobrem que o hábito de beber reiteradamente cria dependência para algumas delas. Achei que sabendo disso e tendo uma certa notoriedade por conta dos cargos públicos, conseguiria me comunicar com as pessoas e transmitir essas questões. Em razão disso, escrevi “Conversando com os Netos”.

ISTOÉ – O sr. tomou contato pela primeira vez com o problema do alcoolismo através de seu pai?
Odacir Klein

Sim. Ele alternava períodos em que bebia e outros em que não bebia. Eu tinha em torno de 7 anos quando meu pai passou por um período em que bebia muito. Teve muitas idas e vindas e, depois de ficar oito anos sem beber, voltou e teve a pior recaída. Parecia algo completamente incontrolável. Eu tinha 20 anos nessa época e não conseguia entendê-lo, perguntava por que tinha parado e voltado.

ISTOÉ – Como era o seu relacionamento com seu pai?
Odacir Klein

Quando ele bebia e a família ficava tensa, eu sentia muita raiva. Passado aquele período, a gente procurava ajudá-lo e ficava com pena. Quando havia a recaída, me ligavam: “Teu pai está no bar tal, embriagado, venha buscá-lo.” Às vezes ele estava alterado. Foi um tipo de relacionamento muito sofrido por conta disso. De um lado a gente tinha estima por ele e queria que ele estivesse bem, mas, por outro lado, naquele momento, a gente não conseguia entender sua fraqueza. O que eu não sabia à época é que ele tinha adquirido vício e havia até uma questão genética. Era mais forte que ele.

ISTOÉ – O sr. acha que o governo dá ao problema do alcoolismo a prioridade devida?
Odacir Klein

Com certeza, não. Em nenhuma campanha eu vejo o esclarecimento sobre as consequências do ato de beber reiteradamente. É preciso dizer que alguém que não tenha tendência natural pode desenvolver a doença se beber com muita frequência. Vejo muito cerco ao fumo, mas não vejo maiores esclarecimentos quanto à bebida. Não quero banir o álcool, mas é preciso mais informação.

ISTOÉ – O que o sr. aprendeu sobre dependência?
Odacir Klein

Há quatro reações diante da bebida. Existem aqueles que não bebem nada. Depois, tem a situação dos que podem beber moderadamente, gente que sai do trabalho para tomar um chopinho e é como se tivesse comido uma empada. Há a situação daqueles que estão no sinal amarelo: vão para uma festa, tomam um gole e o organismo pede mais, tem insuficiência de endorfina (neurotransmissor ligado ao bem-estar e prazer) e precisam cada vez mais de bebida. O sinal vermelho é justamente quando a pessoa passa a sentir falta do álcool. Porque as pessoas podem ter prazer em beber e não sentir falta da bebida. Já fui alcoólatra, alguém que tem o vício. Hoje não sou mais viciado, mas adquiri uma doença eterna.


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