Edição nº2492 15.09 Ver edições anteriores

Te encontro na curva

Quatro designers brasileiros de idades e histórias diferentes se encontram para dar vida às curvas e ideias em que acreditam

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Lorena Kreuger, a moça da foto abaixo, herdeira do estaleiro que fornece
barcos para nomes como Scheidt e Grael, juntou-se ao time de criadores
que deu vida a peças leves, nobres e únicas, como a mesa K2

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Duas retas paralelas nunca se encontram. Ou, para ser exato, só se encontram no infinito. É o que se aprende na escola. Mas, quando se trata de arquitetura e design brasileiros, muitos dos grandes encontros e soluções se dão mesmo é na paixão pelas curvas. Foi graças às curvas da arquitetura de Oscar Niemeyer que o designer gráfico e arquiteto Rafic Farah, 65 anos, impactado pela inauguração de Brasília, resolveu estudar na FAU, a faculdade de arquitetura e urbanismo da USP, no fim da década de 1960. Otávio Coelho, 29 anos, formou-se na mesma escola, em 2011. Seu trabalho de gradução foi sobre a construção de barcos. Os dois se conheceram quando Otávio foi trabalhar como arquiteto no escritório de Rafic. Tempos depois, se reencontraram numa exposição e pela primeira vez pensaram em partir juntos para uma jornada: desenhar móveis inspirados em barcos. Os projetos e perspectivas fluíram com rapidez e de forma natural, sempre feitos a quatro mãos. Mas como executá-los? Os protótipos digitais simulavam móveis fantásticos: curvilíneos, delicados, leves, aconchegantes e, ao mesmo tempo, resistentes. Mas a dupla não encontrava no Brasil um meio de tirá-los do papel, isto é, do computador. Quando já pensavam em desistir, um e-mail do estaleiro Kalmar divulgando sua nova área de atuação bate na caixa de entrada. A movelaria era a nova frente de trabalho da empresa catarinense especializada em embarcações. Na semana seguinte a dupla desembarcava em Itajaí. Lorena Kreuger, 28 anos, sócia e diretora do estaleiro que é referência em marcenaria naval e na construção de barcos artesanais de alta qualidade, resolveu mergulhar na aventura e solucionar tecnicamente os desenhos idealizados pela dupla. Estudante de desenho industrial, velejadora e surfista, aos 24 anos Lorena teve de assumir o comando da Kalmar, o negócio da família, depois da morte precoce de seu pai, Lars Kreuger, em 2008. Lars era considerado um mestre pelos amantes da vela e do mar no Brasil. “Não tive muito o que pensar. Foi como uma tempestade no mar. Não dá para voltar. Tem que enfrentar e seguir em frente”, contou Lorena num depoimento recente ao jornalista Marcus Lopes.

Executados os primeiros protótipos reais, faltava encontrar a última parte do sistema. Era preciso buscar alguém que conhecesse a fundo design e arquitetura para perceber o valor daquelas peças, mas que também tivesse conexões e tarimba no mercado para apontar os atalhos mais seguros, de forma que as criações da dupla paulistana tornadas reais pela empresária e designer catarinense encontrassem as pessoas certas. Baba Vacaro, 47 anos, designer, membro da equipe criativa da série “Casa Brasileira” do canal GNT e diretora de criação da Dpot, empresa focada em design brasileiro de mobiliário, abraçou o projeto e uniu os pontos que faltavam para lançar a linha Brasil 66, nome dado aos móveis de Rafic e Otávio. “A transformação de seus desenhos de curvas complexas modeladas por computador através de uma técnica totalmente manual demandou uma boa dose de experiência, pesquisa, observação, intuição e colaboração”, explica Vacaro. Em outras palavras, o resultado nobre do encontro de ideias, sonhos, competências e curvas.

Foto: Claus Lehmann
A coluna de Paulo Lima, fundador da editora Trip, é publicada quinzenalmente


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