Tecnologia & Meio ambiente

Um app para chamar de seu

Com o auxílio de sites especializados e cursos gratuitos, cada vez mais pessoas estão criando aplicativos para celulares e tablets mesmo sem saber nada de programação

Um app para chamar de seu

Verônica Souza gosta de festa e é fã da Gambiarra, balada itinerante que acontece em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Salvador. Pensando em quais informações sempre procurava no site do evento, decidiu criar um aplicativo para celular que reunisse todos os dados: contatos, programação, valores e fotos. Por meio de um site especializado, Verônica montou seu app – os programinhas que rodam em smartfones e tablets – sem precisar ter nenhum conhecimento prévio em programação. Com o produto pronto, contatou os organizadores da Gambiarra, colocou o app nas lojas de aplicativos da Apple e do Google Play e hoje recebe uma remuneração mensal para mantê-lo atualizado.

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Assim como Verônica, muita gente sem experiência em programação está buscando a ajuda de cursos e tutoriais na internet para criar aplicativos sob medida. Sites como o brasileiro Fábrica de Aplicativos e os estrangeiros iBuild App e App Machine fornecem as ferramentas básicas para que qualquer leigo crie aplicativos de baixa complexidade.

“Acho bacana, porque por meio desses sites a pessoa consegue ver se é aquilo mesmo que ela quer fazer e adquire noções de como deve ser o app e seu design”, diz Victor Meireles, vice-presidente do Instituto de Artes Interativas, em São Paulo, escola que oferece cursos de programação para leigos e que vê aumentar a demanda por eles ano a ano. “Recebemos uma média de 50 novas matrículas por mês para o curso básico, 30% mais que no ano passado”, afirma.

Mas, para quem está pensando em criar o próximo Instagram, um despretensioso aplicativo de fotos que foi comprado pelo Facebook por US$ 1 bilhão em abril deste ano, é melhor cair na real. “Nós recebemos muitas ideias, mas a maioria quer vender o conceito e quer que a produtora desenvolva o app de graça”, diz Meireles. Para os desenvolvedores, são poucos os casos em que vale a pena investir. “Os que chegam já com um protótipo bem montado são atípicos”, afirma.

Mesmo assim, há quem consiga transformar uma boa ideia em fonte de renda. O médico David Pares, de São Paulo, adiou a residência para se dedicar ao aplicativo que criou. Filho e irmão de médico, percebeu ainda na faculdade que não existia um software barato ou gratuito e fácil de usar que ajudasse os profissionais a organizarem consultas e fazerem o planejamento de despesas e receitas do consultório. Em junho do ano passado, lançou o AvalDoc, programa para gestão de clínicas que fica hospedado na nuvem e pode ser acessado de qualquer computador, celular ou tablet. Criou também uma versão mais simples do software em forma de app para smartphone e se prepara para lançar um aplicativo completo para iPad.

Pares é autodidata. Fez um curso de programação online gratuito da Universidade de Stanford (EUA), leu livros e pesquisou sobre o assunto na internet. Mas, para garantir que a parte técnica de seu produto estivesse tinindo, associou-se a um engenheiro da computação para criar seu app. Junto com um terceiro sócio, investiu R$ 100 mil no produto. Em março deste ano, conseguiram arrecadar R$ 1 milhão de investidores “anjo”, como são chamados aqueles que injetam recursos em startups. “Fizemos uma pesquisa informal com médicos para saber quais eram as necessidades deles, e elaboramos um plano de negócios somente quando fomos atrás de investimento”, diz. 

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Para quem não tem dinheiro para investir na criação de um aplicativo, Meireles sugere procurar conhecidos com os mesmos interesses que possam diluir os gastos iniciais. “Tenho um amigo que teve uma ideia para uma plataforma de pagamentos, mas não tinha verba para criar o produto. Ele procurou sócios, entre eles um programador, e em oito meses lançaram o app. Hoje eles já têm um escritório com dez pessoas e faturam entre R$ 30 e R$ 40 mil por mês”, diz.

Para Tallis Gomes, criador do aplicativo Easy Taxi, quem quer colocar um aplicativo no mercado tem de conversar com outras pessoas e testar a viabilidade da ideia. “No meu caso, ia falar com taxistas, analisava os dados e colocava em uma planilha de Excel”, diz.

Outra estratégia de Gomes foi construir o sistema em camadas e começar pelo que os programadores chamam de “minimum viable product”, ou seja, um protótipo viável com as características mais básicas possíveis. “Quando lançamos o site do Easy Taxi, nós mesmos ligávamos para os taxistas para pedir os carros”, diz. Conforme os sócios foram percebendo quais eram as demandas e necessidades dos clientes, o produto foi ficando mais complexo. “A execução é muito importante, vem acima do planejamento. O negócio é ir para a rua, estar presente, e não ficar marcando reunião atrás de reunião”, afirma.

David Pares concorda que colocar a mão na massa é o mais importante. “É clichê dizer isso, mas quem quer fazer faz. Todo mundo pode ser empreendedor, tem que mergulhar de cabeça e tentar”, diz.