Cultura

O poderoso da Amazon

Biografia não autorizada do empresário americano Jeff Bezos conta como ele criou a maior loja online do mundo, destaca sua ambição por inovar, mas revela que ele é irascível e autoritário no trato com os empregados

O poderoso da Amazon

PIONEIRO

Ao abrir a loja virtual Amazon.com, em 1995, o empresário Jeff Bezos trabalhava na garagem com o computador programado para tocar uma campainha a cada vez que alguém encomendasse um livro. O comércio eletrônico ainda era incipiente e a expectativa, idem. Mas, em pouco tempo, a tal campainha teve de ser desativada para não ensurdecer Bezos e a sua equipe, formada de jovens como ele. Essa história é contada pelo jornalista Brad Stone na biografia “The Everything Store: Jeff Bezos and the Age of Amazon” (“A Loja de Tudo: Jeff Bezos e a Era da Amazon”), recém-lançada nos EUA. Desse início aventureiro ao estágio de poderoso do e-commerce, fica-se sabendo como o rapaz formado na Universidade de Princeton transformou seu pequeno negócio online na empresa gigante, que faturou, só no ano passado, US$ 61 bilhões (cerca de R$ 142 bilhões) e influenciou o comportamento de milhões de pessoas ao redor do mundo.

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PIONEIRO
Bezos com um kindle, o leitor de livros eletrônicos da Amazon:
devorador de livros na adolescência e amante das invenções

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Bezos começou vendendo livros apenas porque acreditava que era o produto ideal para conquistar a confiança dos consumidores. Mas a sua ambição de criar uma “loja de tudo” já existia desde os tempos em que trabalhava para a Desco, empresa nova-iorquina especializada em buscar financiamentos para ideias inovadoras. Hoje o site vende de tudo e tem 90 mil empregados para dar conta de tanta procura. O CEO nunca parou de inovar. A Amazon foi pioneira no e-commerce no uso da “compra por one click (clique único)” e em reter as informações sobre as preferências dos compradores. Também inaugurou a prática de dar um percentual a outros sites que direcionassem leitores para ela. Outro trunfo foi a criação de um leitor de livros eletrônicos próprio, o Kindle.

Paralelamente às conquistas empresariais, veio a fama de “difícil”. Bezos sempre exibe uma risada franca, mas não é bom contrariá-lo, adverte o biógrafo. Até na escolha do nome da empresa fez questão de não ouvir ninguém – decidiu pela marca ao descartar palavras bizarras como Cadabra. “Ele é capaz de ter explosões e ser bastante ácido como Steve Jobs, que conseguia deixar aterrorizado qualquer empregado que entrasse com ele no elevador”, escreve Stone. O gênio atrevido do empresário, que adquiriu em agosto o jornal “The Washington Post”, foi moldado numa escola de vanguarda no Texas, voltada para crianças superdotadas. Leitor compulsivo, na adolescência passava o tempo às voltas com invenções inúteis, como um objeto feito de pequenos espelhos que formavam a ilusão de ótica de um túnel sem-fim. Copiou a ideia de uma loja para provar que o seu produto sairia mais barato – usaria essa tática mais tarde, na concorrência com as lojas físicas.

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Outra inovação de Bezos foi dar espaço para os leitores fazerem críticas aos livros. Apesar de ser uma propaganda negativa dos produtos, ela prevaleceu por ser uma forma de orientação aos clientes. Ironicamente, foi através desse mecanismo que a mulher dele, MacKenzie, criticou a obra de Stone. Além de dar cotação de uma estrela (a menor), ela afirmou que o autor deveria ter ouvido mais Bezos e negou que haja a tal cultura do terror na Amazon – a política interna de avaliações constantes e a pouca tolerância com quem não atinge as metas colocam os funcionários em clima de apreensão e medo. Stone já havia entrevistado muitas vezes o biografado em sua carreira jornalística. Mas preferiu basear sua obra nas 300 entrevistas realizadas especialmente para o livro. Pode-se confrontar a versão da esposa com a obra não só por conta do trabalho de investigação do jornalista, mas porque, pelo menos nos EUA, as biografias não autorizadas são sempre muito bem-vindas.

Fotos: Robyn Twomey/Corbis Outline; Rex Rystedt; Pablo Martinez Monsivais/AP Photo