Edição nº2480 23.06 Ver edições anteriores

As delícias do ócio

Como o significado do tempo muda quando se inverte a demanda. Se ele sobra, aquilo que se faz dele é o que nos faz feliz.

Se alguém me perguntasse hoje qual o bem mais escasso e, definitivamente, não renovável do planeta, minha resposta estaria na ponta da língua: tempo! Chego à conclusão de maneira tristemente pouco convencional. Precisei ficar em casa durante duas semanas para me recuperar de uma cirurgia. Um amigo me ligou para saber como andava minha reclusão forçada. Encontrou-me mal-humorada. Ansiosa. Quem já viu uma leoa enjaulada? Fica andando de um lado para o outro, sem paz, com o olhar perdido.

Era eu a leoa. Não tinha dor alguma e parte da recuperação incluía caminhar. Devagar. Ou ficar deitada. De lado. A cirurgia foi na coluna. Abriram minhas vértebras para liberar o canal medular. De um dia para o outro, a dor que me atormentava sumiu. Mas ganhei toda a limitação de movimentos do pós-operatório. Nada de escritório. Nada de trepidação. Portanto, nada de deslocamentos de automóvel. Nada de viagens de avião. Portanto, nada de visitas a clientes. E nada de passar muito tempo sentada, pressionando a coluna.

O amigo ouviu meu desabafo de workaholic inveterada e soltou a frase que abriu as portas da verdade. “Não seja tola. Aproveite a fase! Tomara que você não tenha outra chance como essa na vida para deitar e ler um livro sem culpa!” De fato. O excesso é uma prisão. Excesso de informação, excesso de coisas na agenda, excesso de projetos. Eu ganhei excesso de ócio! E querem saber? A gente se acostuma…

Li aquele livro de 1.168 páginas. “Atlas Shrugged”, filosofia e ficção da sensacional Ayn Rand. Recomendo. Tirei cochilos no meio da tarde. E passei a sair da cama às 9 da manhã. As olheiras sumiram. Recomendo. Atormentei as gatas, que estranharam minha presença em casa. Descobri que elas usam o dia todo para dormir descaradamente. E que só saem do cesto quando a temperatura cai. Espertas, as gatas. Passei a observar o céu da minha varanda, como elas fazem. Colhi as pitangas do pé e fiz risoto de pitanga fresca. A bem da verdade, supervisionei a preparação do prato. O marido cozinhou para mim na convalescença. Altamente recomendável!

Não estava minimamente preparada para gostar da sensação de dependência que vem com a limitação de movimentos. Pega isso para mim? Alcança aquilo para mim? Busca tal coisa, por favor? Gente, recomendo muito, mas muito mesmo! E aqueles projetos urgentes ganharam outro carimbo. Sub judice. Tipo, quando eu estiver pronta para realizá-los, eles acontecerão. Fulano precisa falar comigo? Desculpa, hoje não dá. Amanhã também não. Estou muito ocupada planejando a viagem de fim de ano. Pode ser semana que vem? É quando terei tempo. Para ele.

Como o significado do tempo muda quando se inverte a demanda. Se ele sobra, aquilo que se faz dele é o que nos faz feliz. E ser feliz dá trabalho. Demora o tempo do livro, do risoto, do cochilo. Seu tempo deixa de ser alheio. Ele é seu. Estou aqui para recomendar essa sensação, inteiramente nova para mim. E espero que você não precise abrir sua coluna para saborear essa delícia que tanto nos falta: tempo.

Ana Paula Padrão é jornalista e empresária 


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